sábado, 14 de junho de 2025

O LIVRO SUA MAJESTADE CXV (115) - RESTAURANTE AUGUSTO - HISTÓRIAS DE UMA SANTA MARIA QUE NÃO EXISTE MAIS

 Ainda me deliciando com meus presentes de aniversário deste ano de 2025. Trago aqui um livro que remete à lembranças incríveis de uma Santa Maria que não existe mais.

Presente da minha nora Grazi, o livro traz muitas histórias do extinto Restaurante Augusto que por décadas serviu de ponto de encontro de pessoas comuns e anônimas, como também recebeu personalidades nacionais e internacionais.

Certamente uma grande parcela de moradores de Santa Maria e região, ao ler este livro voltará no tempo e terá recordações incríveis de suas histórias e de outras histórias. 

O Restaurante Augusto faz parte da história de Santa Maria e quando no título do livro diz "de uma Santa Maria que não existe mais", o autor Savio Ausgusto Werlang, não só infere mas deixa explícito que muitos personagens, passagens da história de Santa Maria, se relacionam direta ou indiretamente com o Restaurante Augusto.


O Restaurante conhecido no Brasil pelo prato que representa Santa Maria, o famoso galeto com polenta e radiche, prato criado pelo Augusto na década de 60 e que sempre foi o principal do restaurante até seu fechamento.

Inaugurado em maio de 1968, pelo seu Augusto, passou a ser gerenciado pelo genro Marco Fank e pelo filho Augustinho em 1987. Em outubro de 2018, em trágico acidente de trânsito, Marco Fank faleceu. Este acontecimento foi determinante para o triste fim do Restaurante Augusto, que encerrou suas atividades em 31 de janeiro de 2019.


Os garçons do Augusto é um capítulo à parte. Um deles, Severo com mais de 30 anos de casa, foi tema de uma crônica do escritor gaúcho Carpinejar que relata que jamais imaginou encontrar um garçom feliz. Severo era assim mesmo: sempre com um sorriso no rosto. No meu caso dos mais de 40 anos frequentando o restaurante eu atendido ou pelo Alemão ou pelo Derci. Sempre um atendimento cordial e atencioso.

Outro personagem marcante foi o Luis Eduardo responsável pelo caixa e por receber os pedidos de tele-entrega por longos 26 anos. Ou seja, o restaurante Augusto era aquele lugar para encontrar as mesmas pessoas e isso o tornou por anos um ambiente único.

Sempre durante o almoço ou janta, uma figura ímpar e conhecidíssima de Santa Maria, passava entre as mesas oferecendo bilhetes de loteria. Paulo Neron Rodrigues, o Paulinho Bilheteiro era portador de nanismo o que o tornava ainda mais querido por todos.

Que saudades deste bom tempo.

Enfim, o livro é cheio de histórias que nos remetem a um passado não muito distante, porém muito saudoso. Quem viveu estes anos do Restaurante Augusto em Santa Maria, certamente tem suas histórias para contar. 

Há uma saudade boa que fica quando lembramos de um restaurante que marcou gerações ao longo de décadas. Mais do que um lugar para refeições, ele foi cenário de encontros, celebrações, conversas e memórias que atravessaram o tempo. O aroma, o ambiente acolhedor e os rostos conhecidos formaram uma experiência única, que agora vive nas lembranças de todos que tiveram o privilégio de desfrutar do Restaurante Augusto.

Boa leitura!

Professor Mario Mello

PS: Mais uma vez, obrigado Grazi Fachim pelo presente, pois me fez voltar no tempo e ter boas lembranças.


domingo, 8 de junho de 2025

O LIVRO SUA MAJESTADE CXIV (114) - LAS HORTENSIAS

 

LAS HORTENSIAS, livro escrito pelo uruguaio Felisberto Hernández (1902-1964), é um daqueles livros que deixa a gente intrigado desde as primeiras frases.

Que linda capa
Felisberto Hernández é considerado um dos maiores escritores uruguaios do século XX. Ele era, além de escritor, pianista e um notável orador, pois suas narrativas sempre despertavam muito interesse em quem o acompanhava. 

As Hortensias" narra a obsessão de Horacio pela observação de bonecas (muñecas)  chamadas Hortensias, cada vez mais parecidas com mulheres de carne e osso. Ele as expõe em vitrines e as faz personagens de histórias que inventa para elas.

O modo como o autor coloca objetos inanimados como personagens marcantes da história é algo inconfundível em sua obra.

Horacio, nosso protagonista, colecionava bonecas em sua casa, um tanto sombria, chamada de "la casa negra", com um enorme jardim com amplas vitrines de vidro, onde criava cenas para expô-las.

Horacio, casado com Maria, possuía vários empregados em "la casa negra". Alguns eram encarregados de preparar as cenas com as diversas bonecas, nas vitrines, para o prazer de Horacio.

Entre várias bonecas, existia uma preferida chamada Hortensia. Horacio dizia para sua mulher Maria, que se ela viesse a morrer ele teria consolo em Hortensia para lhe fazer companhia.

Os dois eram apaixonados por Hortensia, que tinha o tamanho de uma pessoas e se parecia muito com Maria. Maria a tratava como se fosse uma filha, porém Horacio começou a enxergar e tratar Hortensia de uma forma diferente, causando ciúmes e atritos com sua esposa Maria.

Horacio um belo dia chamou Facundo (o fabricante das muñecas) e pediu a ele que fizesse alguma coisa para que Hortensia tivesse calor humano. Facundo, então, arrumou um jeito de que se colocasse água quente dentro da boneca a pele dela ficava ainda mais parecida com a pela humana. E assim, se sucederam outras loucuras de Horacio.

Um belo dia Horacio encontra Hortensia apunhalada por uma faca soltando o líquido interno. O desespero bateu e as intrigas com Maria aumentavam. Facundo foi chamado novamente para dar "nova vida" à Hortensia.

Felisberto Hernández

Cansada, um pouco pelo abandono de Horacio e pelo ciúmes das bonecas, Maria o abandona. Pensando que Horacio iria atrás dela, não foi o que aconteceu.

Horacio cada vez mais obcecado pelas muñecas, se atrapalhava em sua vida pessoal.

O trecho a seguir dá um "spoiler", porém sem contar obviamente, o final da história: 

“Maria podía ser, como antes, una mujer sin muñeca; pero ahora él no podía admitir la idea de María sin Hortensia; aquella resignación de toda la casa y de María ante el vacío de la muñeca, tenía algo de locura. 
Además, María iba de un lado para otro del dormitorio y parecía que en esos momentos no pensaba en Hortensia; y en la cara de María se veía la inocencia de un loco que se ha olvidado de vestirse y anda desnudo.”

Enfim é um livro muito inteligente de um autor, talvez, pouco valorizado na América Latina. 

Vale muito a leitura!!!

Professor Mario Mello


PS1: A leitura em espanhol faz parte de um dos meus desafios propostos para 2025. Já é o terceiro livro, em espanhol, lido em 2025. Estamos indo bem!

PS2: Este livro ganhei como presente de aniversário do meu filho Arthur e da Grazi, direto da Livraria "Mas puro verso" de Montevidéu. Gracias Arthur e Grazi.

sábado, 3 de maio de 2025

O LIVRO SUA MAJESTADE CXIII (113) - OPERAÇÃO PORTUGA 2.0 - CINCO HOMENS E UM RECORDE A SER BATIDO

 Sabe aquele livro que você não conhece, vê na livraria e fica na dúvida de comprar ou não? 

Pois este é o livro! 

Comprado pelo meu filho Arthur, que tem um "faro" fenomenal para descobrir livros extraordinários. Esse é um deles.

Um livro incrível cuja história reune várias histórias de corredores amadores de São Paulo. A corrida de rua que para muitos é uma forma de recreação, para um grupo seleto de executivos de São Paulo virou uma extraordinária história de obsessão de quebra de um recorde em maratona.

O livro não é sobre corrida, embora se passe entre treinos e competições. É sobre gente, diz o autor Sérgio Xavier Filho.

É esse o ponto que me cativou tanto neste livro. Histórias, todas reais e incríveis de superação, companheirismo, amizade, generosidade e principalmente de determinação.

O cenário é uma equipe de corredores amadores treinados por uma assessoria, MPR, de São Paulo e o circuito das maiores maratonas do mundo: Berlim, Boston, Chicago, Nova York e Paris. 

Havia um recorde a ser batido: o Portuga (Amilcar Lopes Jr.), um corredor fanfarrão e debochado, havia em 2006, completado a maratona de Chicago em 2h43min50. 

A marca extraordinária para um amador, fez do Portuga uma espécie de lenda no circuito dos corredores de rua de São Paulo. "Portuga é o homem a ser batido". 

É aqui que começa esta fantástica história: Marcelo Apovian (Lelo); José Augusto Urquiza (Guto) e Tomás Award são os mais fortes candidatos a derrotar o Amílcar, no que ficou conhecido como o "Desafio do Portuga".

Executivos ocupados treinam forte incessantemente para derrotar o Portuga. Mais tarde, se junta ao grupo Felipe Wright, cuja história de vida acaba inspirando os amigos. Eram cinco (os quatro corredores mais o técnico PHR) contra um. Portuga tinha uma confiança inabalável em seu feito. Cada vez mais provocava os desafiantes, que sabiam: não seria fácil desbancar o Portuga.

O primeiro desafio da turma era fazer tempo inferior a 3h nas maratonas. Quem conseguia, entrava para o seleto grupo dos "Sub 3h".

Depois de vários anos, várias maratonas o recorde e a zoeira do Portuga se mantinha. Veio mais uma maratona para o grupo: Berlin 2009. Bom aqui está o coração do livro, pois várias coisas aconteceram nesta maratona. Obviamente que não vou contar para não estragar a surpresa de quem vai ler o livro.

Cada personagem tem sua história particular de desafio e dificuldades. Lelo, por exemplo, sofreu um acidente esquiando onde uma das pernas ficou com muitas e complexas fraturas. Depois de anos de tratamento conseguiu voltar a correr e ser do grupo sub 3. E assim, várias histórias de determinação e de competição se sucederam para cada um deles.

Um dos corredores do grupo, o Felipe havia morrido em um acidente aéreo em maio de 2009, quando todos já estavam inscritos para a maratona de Berlin em setembro de 2009. Essa parte do livro contando como os amigos receberam a notícia e como se prepararam para correr em Berlin é a mais emocionante e comovente. Uma história de amizade, generosidade, benevolência e desprendimento proporcionada pelo Guto ao amigo Felipe é de comover, chorar e ver como existem pessoas boas no mundo. 

É simplesmente magnífico!!

Pois bem, o livro é incrível. Provoca no leitor, reflexões de que objetivos podem ser alcançados com disciplina, determinação e amor pelo que se faz. É um livro imperdível. Parabéns Sérgio Xavier Filho (autor) por nos proporcionar com maestria essas histórias de gente (não só das corridas).

E então o recorde do Portuga será que foi batido?

Como foi a homenagem dos corredores amigos do Felipe na maratona de Berlin 2009?

E o Portuga, como está hoje?

Pois é, vamos ter que ler o livro. 

Boa leitura!

Professor Mario Mello

PS: Para mim este não é mais um livro lido e apreciado. 
Haverá reflexos na minha vida nos próximos meses/anos
.
Estou me desafiando.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2025

O LIVRO SUA MAJESTADE CXII (112) - A LANTERNA DAS MEMÓRIAS PERDIDAS

 Um dos livros mais sagaz que já li. 

"A lanterna das memórias perdidas" da escritora japonesa Sanaka Hiiragi (1974- ) é um romance profundo e comovente a respeito do que é realmente importante na vida e do encanto de reviver uma última vez seus melhores momentos.

O livro explora temas profundos entre a vida, a morte e as lembranças que acumulamos ao longo da nossa vida. O protagonista Hirasaka, gentilmente recepciona seus visitantes, em um estúdio fotográfico, lhe oferece sua bebida preferida e revela o que os aguarda.

A narrativa centra-se em Hirasaka, que trabalha neste estúdio fotográfico peculiar, servindo como um ponto de transição entre a vida e a morte. Nesse espaço, os recém falecidos são recebidos e informados sobre sua nova condição. Lhes é dada uma caixa com fotos, para que antes de seguirem para o além, eles devem selecionar uma fotografia para cada ano de suas vidas, representando suas memórias mais significativas. 
Além disso, têm a oportunidade de revisitar um momento especial do passado para capturar uma nova imagem dessa lembrança marcante.

Pegos de surpresa os visitantes perguntam: "Eu morri?
Se este é apenas um ponto de passagem, o que vai acontecer comigo depois?
Como seria o mundo do além? A gente desaparece sem deixar rastros e se transforma em nada?

Nosso protagonista Hirasaka, recepciona três pessoas que pelo estúdio passam: uma professora de 92 anos; um membro da Yakusa de 47 anos e uma criança. Os visitantes eram sempre anunciados pelo entregador Yama, que trazia em um carrinho de mão as fotos da pessoa.

Hatsue, a professora de 92 anos, dedicou toda sua vida à educação infantil. Durante a visita ao estúdio, ela revisita o Japão do pós-guerra, uma época marcada por escassez de empregos e profundas mudanças sociais, incluindo a crescente participação das mulheres no mercado de trabalho e a redefinição das responsabilidades familiares. Através das lembranças de Hatsue, o leitor é levado a refletir sobre o papel essencial da educação e as transformações sociais ocorridas ao longo das décadas.

Waniguchi, membro da Yakusa, tinha uma loja de recicláveis para disfarçar as atividades ilícitas e custou a compreender que havia morrido e que estava na transição. Este capítulo é muito interessante, pois claramente Waniguchi com seu jeito autoritário, queria sempre um confronto com Hirasaka.

A parte um pouco triste da história é com a terceira visitante do estúdio: a menina Mitsuru. Apavorada a criança não se mexeu por um bom tempo no estúdio. Hirasaka usou toda sua habilidade para aos pouquinhos ir conquistando Mitsuru. A menina sofreu abusos do padrasto, causado-lhe um grande sofrimento. Neste capítulo aparece o traço marcante da autora, pois Hirasaka propõe à menina que escolha, entre muitas, uma máquina para sairem e tirarem fotografias.
Sanaka Hiiragi

A autora do livro, sempre foi grande apreciadora de câmeras fotográficas e da fotografia. O livro trata disso: fotografias.
 Hiiragi reflete sobre a força que as fotos carregam e nos leva a questionar o que é realmente importante na vida.

Como disse no início achei muita sagacidade neste livro, pois o processo de seleção das fotografias e a revisitação de momentos especiais proporcionam uma compreensão mais profunda da vida e das circunstâncias que a moldaram.

A transição entre a vida e a morte desperta, sempre, muito interesse em desvendar este mistério que nos acompanha desde sempre. 

O livro é genial e merece ser lido e apreciado.
"Talvez seja a última visão de uma vida inteira".

Boa leitura!

Professor Mario Mello

domingo, 23 de fevereiro de 2025

O LIVRO SUA MAJESTADE CXI (111) - AS AVENTURAS DE TINTIM


Tintim é um jovem repórter que está sempre atrás de uma importante matéria.

Icônico personagem de Hergé, Tintim não tem limites e suas histórias são cheias de aventuras emocionantes que retratam a realidade e a ficção.

Minha pequena coleção do Tintim
Georges Prosper Remi (22/05/1907-03/03/1983), escritor Belga, conhecido pelo pseudônimo Hergé, não foi apenas um desenhista excepcional, mas um verdadeiro pioneiro da narrativa gráfica. Criador de As Aventuras de Tintim, Hergé elevou os quadrinhos a um patamar literário e artístico antes impensável, influenciando gerações de escritores, ilustradores e cineastas. Sua obra, rica em detalhes, humor e crítica social, consolidou-se como um dos pilares da literatura em quadrinhos, mesclando aventura e jornalismo ficcional com uma sofisticação narrativa que transcende o gênero.

Com um olhar aguçado para a geopolítica, o humor e a cultura, Hergé criou um universo atemporal, cujos personagens e histórias continuam a dialogar com diferentes gerações. Suas Aventuras de Tintim não são apenas quadrinhos, mas verdadeiros clássicos da literatura moderna, demonstrando que imagens e palavras podem se combinar para criar algo tão rico e significativo quanto qualquer grande romance.

A importância dos quadrinhos de Hergé para a literatura vai além da criação de tramas envolventes. Ele foi o responsável por estabelecer a técnica da ligne claire, um estilo visual marcado pela clareza dos traços e pela organização impecável dos quadros, influenciando artistas como Moebius, Hugo Pratt e até mesmo diretores de cinema como Steven Spielberg. Mais do que isso, suas histórias ajudaram a consolidar os quadrinhos como uma forma legítima de expressão literária, desafiando a ideia de que apenas livros textuais poderiam ser considerados literatura.

Tenho 6 volumes das histórias de Tintim: Tintim na América; Tintim no Congo; A Orelha Lascada; O Lótus Azul; A Ilha Negra; Os Charutos do Faraó.

Em Tintim na América, Hergé satiriza o capitalismo selvagem dos anos 1930 e demonstra sua capacidade de misturar aventura e crítica social. A história, repleta de ação e humor, apresenta o jovem repórter enfrentando gangsters e a corrupção, com um olhar irônico sobre a sociedade americana da época.

O Lótus Azul marca um ponto de virada na carreira do autor. Com uma pesquisa detalhada e consultoria de Zhang Chongren, um amigo chinês de Hergé, a obra retrata a China de forma respeitosa e autêntica, fugindo dos estereótipos ocidentais. Esse álbum exibe a evolução do traço de Hergé e sua preocupação em oferecer uma narrativa historicamente precisa.





Em A Orelha Lascada, o autor introduz uma trama de mistério e conspiração envolvendo tráfico de artefatos culturais. Aqui, Hergé trabalha com um enredo mais maduro, abordando a colonização e os conflitos geopolíticos da América do Sul, além de consolidar a sagacidade investigativa de Tintim.

Já Tintim no Congo reflete um período em que a visão colonialista europeia era amplamente aceita. Apesar das críticas modernas ao seu retrato da África, é inegável a habilidade de Hergé em criar sequências dinâmicas e um senso de aventura contagiante. É um álbum que mostra o autor com um talento gráfico enorme.

Os Charutos do Faraó transporta Tintim ao Oriente Médio e à Índia, mergulhando-o em um enigma de tráfico de drogas e sociedades secretas. Aqui, Hergé demonstra sua maestria em construir tramas intrincadas, repletas de reviravoltas, além de introduzir personagens icônicos, como os detetives Dupont e Dupond.

Por fim, A Ilha Negra destaca-se pelo ritmo cinematográfico e pela belíssima ambientação na Escócia. Com perseguições emocionantes, cenários detalhados e uma intriga bem amarrada, o álbum reforça a capacidade de Hergé em criar histórias vibrantes, combinando mistério e humor.

Com um olhar aguçado para a geopolítica, o humor e a cultura, Hergé criou um universo atemporal, cujos personagens e histórias continuam a dialogar com diferentes gerações. Suas Aventuras de Tintim não são apenas quadrinhos, mas verdadeiros clássicos da literatura moderna, demonstrando que imagens e palavras podem se combinar para criar algo tão rico e significativo quanto qualquer grande romance.

Tintim e Milu



Ler histórias em quadrinhos é um privilégio que combina arte e narrativa de forma única, tornando a literatura mais acessível, dinâmica e envolvente. 

Mais do que simples entretenimento, os quadrinhos são uma poderosa forma de expressão cultural, capazes de transmitir emoções, criticar a sociedade e explorar temas profundos com uma riqueza visual inigualável. 

Seu impacto na literatura é imenso, pois ampliam as possibilidades da narrativa, cativam leitores de todas as idades e provam que grandes histórias podem ser contadas tanto com palavras quanto com imagens.






Obrigado, Tintim, por nos levar a aventuras inesquecíveis, atravessando continentes, desvendando mistérios e enfrentando perigos com coragem e inteligência. 

E obrigado, Hergé, por sua genialidade ao transformar simples páginas em mundos vivos, repletos de detalhes, humor e crítica social. Suas histórias não são apenas quadrinhos, mas verdadeiras obras-primas que continuam a inspirar gerações, provando que a arte sequencial é tão rica e impactante quanto qualquer grande literatura.

Boa leitura!

Professor Mario Mello


quinta-feira, 13 de fevereiro de 2025

O LIVRO SUA MAJESTADE CX (110) - CHARLES MAXWELL E O MISTÉRIO DA CHAPEUZINHO VERMELHO

 Você já imaginou Pinóquio, Branca de Neve e os Sete Anões, Os Três Porquinhos, Barba Azul, O Gato de Botas, Robin Hood, O Lobo Mau e Chapeuzinho Vermelho todos numa mesma história? 


Pois é assim que acontece num livro cheio de aventuras, mistérios, sonhos, enigmas, fantasias e coragem chamado "Charles Maxwell e o Mistério da Chapeuzinho Vermelho".

Do jovem autor Guilherme Corrêa Bellföx, o livro é uma viagem à Edimburgo dos anos 1936, cujos protagonistas a Irmã Madeleine Tuck e Charles Maxwell embarcam em desventuras para solucionar mistérios, entre eles, o desaparecimento de Chapeuzinho Vermelho.

A mágica de tudo isso é nos fazer imergir em um incrível mergulho no mundo dos contos de fadas, além de uma interação no contexto histórico europeu do século XX, como os males provindos da ascensão do nazismo e ideias antissemitas, mostradas em vários contextos durante a narrativa do livro.

A história começa com a notícia da condenação e morte de Robin Hood. Nossa protagonista, Irmã Madeleine, era fiel escudeira de Robin Hood e com sua morte foi transferida a uma igreja de Edimburgo. 

Porém, foi alertada pelo bispo, responsável pela transferência, que era para ter muito cuidado, pois no porão da igreja habitava um homem muito estranho: Charles Maxwell.

Irmã Madeleine e seu revólver




Disse o bispo na mensagem à Irmã Madeleine: "Devo de antemão deixar-te avisada algo que me preocupa há algum tempo. A irmã que você substituirá mencionou um homem estúrdio que vive no porão, um lunático, possível desgarrado sem fé. Tenha muito cuidado caso haja a mão do próprio diabo, neste homem."

Charles Maxwell e seu relógio
Quando a Irmã Madeleine leu a mensagem, pensou: "O temor é o princípio da sabedoria". Não demorou nenhum dia para a Irmã Madeleine e Charles Maxwell se entenderem. A irmã chegou portando um revolver calibre 45, que certamente ajudou Maxwell a respeitá-la.

Maxwell tinha um relógio antigo, herança de seu avô, com um poder mágico em que ele podia ver ações do passado para poder interferir ou não.
Inclusive no livro, em algumas situações há as opções de: SIM devo agir olhando o relógio - pule para a página xx; NÃO, continuar a história - siga nesta página. Muito criativo, por parte do autor essa tomada de decisão do leitor.

Pois bem, o cerne da história é a morte da Sra. Isadora Reiter, com ferimentos no pescoço que segundo as autoridades, ao sair da carruagem enroscou seu cachecol na porta do veículo, que saiu em disparada matando assim a Sra. Isadora. Assassinato? Acidente? 

Não fosse isso, no dia do velório, a filha da Sra. Isadora, Chapeuzinho Vermelho, desaparece misteriosamente. Assim começam as aventuras e desventuras de Charles Maxwell, Irmã Madeleine, Pinóquio e o Gato de Botas, tentando desvendar os mistérios.

No caminho aparecem, o Lobo Mau, Branca de Neve e os Sete Anões, o denominado Enigma, Josef Göth, todos atrapalhando os heróis na busca do desvendamento do mistério.

Embora a história pareça "meia maluca" (e é), ela é muito criativa com momentos realmente surpreendentes nas ações de todos personagens. Fiquei admirado com a imaginação inventiva do autor, juntando tantos personagens conhecidos, mas que nesta história representam papéis, por vezes, um pouco diferente dos contos que conhecemos.

Enfim, a história prende até o final com desfecho, de certa forma surprendente, ou seja, nada convencional. Ao final, Charles Maxwell (que se autodenomina entropista excêntrico) e a Irmã Madeleine, desvendam que o desaparecimento de Chapeuzinho Vermelho, está ligado a uma conspiração mais ampla envolvendo todos esses personagens.

Vale muito a pena esta leitura "diferentona" que mescla realidade com contos de fadas.

Um fato bem bacana, que me deixou muito contente, foi o prazer de receber da Editora Palavra & Verso, o exemplar autografado pelo autor Guilherme Corrêa Bellföx. Mui amables, gracias!!

Professor Mario Mello

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2025

O LIVRO SUA MAJESTADE CIX (109) - QUE TIPO DE CRIATURAS SOMOS NÓS?

 Que tipo de criaturas somos nós? 

Essa pergunta é feita por Noam Chomsky, escritor estadunidense em seu mais recente livro lançado no Brasil. Chomsky é um dos maiores linguistas da história e um dos mais destacados ativistas políticos.

Avram Noam Chomsky é um linguista, filósofo, sociólogo, cientista cognitivo, comentarista e ativista político norte-americano, também é uma das mais renomadas figuras no campo da filosofia analítica. 

Nascido em 1928, Chomsky propõe que a linguagem não é apenas um produto do ambiente, mas uma capacidade inata, presente em todos os seres humanos e moldada por princípios universais. Essa faculdade nos permite criar e entender infinitas sentenças a partir de elementos limitados, revelando a natureza criativa da linguagem.

Chomsky, hoje com 96 anos
No livro, a indagação de Chomsky, não obstante, remete a outras tantas perguntas, que são respondidas nos quatro capítulos do livro que contempla a polivalente personalidade de Chomsky.

O livro é uma excelente introdução às ideias centrais do autor, especialmente sua teoria da linguagem e sua visão sobre a capacidade cognitiva humana. 

A obra se inicia com uma questão aparentemente básica: “O que é a linguagem?" Não há qualquer resposta simples e pronta para essa pergunta. 

As considerações de Chomsky pisam novamente suas formulações teóricas de uma gramática universal ou uma espécie de programa mínimo de um sistema computacional de nossa língua interna natural, instalado em cada um de nós. Relembra e revê en passant pontos de sua teoria gerativa.

Chomsky argumenta que nossa mente possui restrições biológicas inatas que determinam o que podemos conhecer, um conceito influente em diversas áreas do conhecimento.

A obra transita entre filosofia, ciência e política, mantendo o rigor acadêmico e oferecendo insights valiosos sobre como entendemos a realidade. Sua abordagem transdisciplinar é um ponto forte, pois permite ao leitor enxergar conexões entre diferentes campos do saber.

É um ótimo livro, porém a linguagem densa e abstrata, requer bastante concentração para a leitura. Embora o livro seja curto, a escrita de Chomsky pode ser complexa e, por vezes, excessivamente técnica para leitores não familiarizados com filosofia da mente e linguística.

Enfim, o livro é uma reflexão profunda e instigante sobre a natureza humana e os limites do conhecimento, trazendo argumentos que desafiam tanto o cientificismo excessivo quanto as visões simplistas da mente e da linguagem. No entanto, sua abordagem pode parecer excessivamente teórica e especulativa, especialmente diante dos avanços recentes em neurociência e IA.

Apesar de sua densidade teórica, Que tipo de criaturas somos nós? é uma leitura indicada para quem deseja explorar as fronteiras do conhecimento humano e refletir sobre os limites da ciência, da linguagem e da cognição. 

Chomsky apresenta questões fundamentais que transcendem a linguística e dialogam com filosofia e neurociência, desafiando o leitor a pensar criticamente sobre a natureza da mente e nossas capacidades intelectuais.

Boa leitura!

Professor Mario Mello

PS: Este livro comprei e li por ter visto uma postagem da minha amiga Bianca Zasso, jornalista e crítica de cinema, de muita competência.
Obrigado Bianca, ótima dica.