domingo, 24 de outubro de 2021

O LIVRO SUA MAJESTADE LXXX - FOME

 Obra-prima do escritor Norueguês, Knut Hamsun, o romance "Fome" escrito em 1890, influenciou sobremaneira as tendências da literatura do inicio do século XX.

Exemplar do Círculo do Livro, 1977
Adquiri este exemplar em 1977, quando então existia um clube de livros chamado Círculo do Livro S.A. Vejam que o que temos hoje como "assinatura" de vários serviços e produtos, já existia na década de 1970 para livros. Eu pagava uma mensalidade e todo mês recebia dois livros "surpresa".

Li "Fome" naquela época e lembro que fiquei extremamente impactado com o furor da fome. 44 anos depois, vendo que nada ou pouco mudou no mundo em relação à fome, resolvi reler o romance. Infelizmente a humilhação e a dor da fome assola, ainda, milhões de pessoas pelo mundo afora. 

Knut Hamsun ( 1859 - 1952), como Victor Hugo, conheceu desde a infância a miséria, a injustiça, a maldade e fez delas o tema constante em toda sua obra, a exemplo de Victor Hugo. Victor Hugo em seu clássico "Os miseráveis" retrata o desespero, a fome e a agonia de uma personagem que vendia seus dentes para ter algum dinheiro para comer. Knut Hamsun retrata os mesmos sentimentos de um personagem que não tendo mais nada para vender, oferecia seu óculos em troca de poucas moedas para comprar um pão.

Knut Hamsun

Genial em seus romances, Knut ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1920. Infelizmente sua escolha política pelo nazismo o levou à prisão ao fim da segunda guerra mundial. Por isso, embora toda sua genialidade, praticamente não existem homenagens a ele, na Noruega.

O romance "Fome" é muito impactante e ao mesmo tempo de uma simplicidade também impactante, pois retrata fatos corriqueiros do dia-a-dia do personagem protagonista. 

Hamsun nem nome deu ao protagonista de "Fome". Narrado sempre na primeira pessoa, o protagonista era um escritor que vendia artigos para o jornal da cidade (Jornal Morgenbladet, que existe até hoje na Noruega). Porém, isso nem sempre era possível, pois o jornal acabava recusando muitos artigos e com isso, não tinha dinheiro nem para comer.

A humilhação, o sofrimento e a fome era tanta que chegou ao extremo do escritor tentar vender os botões de seu único paletó para tentar algumas moedas para comprar comida. Não teve sucesso. E assim ele passava perambulando pela cidade para passar o tempo e tentar a busca de comida. Chegava ficar semanas sem comer nada, até algum artigo render poucas moedas.

Um dia o escritor precisava de uma vela para poder escrever à noite, mas não tinha dinheiro para comprar a vela. Foi até uma loja na esperança de conseguir a vela "fiado". Porém, para sua surpresa o atendente se enganou e achou que tinha recebido dele uma nota de 5$ e deu a vela e o troco para ele. Embaraçado e surpreso ele pegou o dinheiro e a vela e saiu. Começa então, uma tortura psicológica em seu inabalável caráter. Diz ele:

"Aquele dinheiro me pesava no bolso, não me deixava em paz. Investigando bem no fundo de mim, descobri que antes era mais feliz, quando sofria, porém com toda honestidade. Oh meu Deus!" Livrou-se em seguida do dinheiro doando a outro pobre.

A fome o perseguia diariamente. A miséria e a humilhação era uma constante em seus dias. Chegava muitas vezes a mascar gravetos encontrados na rua. Sua aparência era cada vez mais cadavérica. Possuía apenas uma muda de roupa e não tinha residência fixa. Morava um tempo em algum quarto alugado, porém não tinha dinheiro para pagar o aluguel e era mandado embora. Assim, aconteceu várias vezes.

O personagem sofre com os efeitos físicos e morais da subnutrição. A fome causa a loucura e empurra a pessoa à morte. Ultrapassa as fronteiras da sanidade.

Como sempre faço nos textos, não vou contar o final do romance. Só vou dizer que, praticamente, não tem final. A fome não tem fim.

Enfim, o livro é muito triste. A agonia que passa o protagonista traz uma grande perturbação ao leitor. Porém é uma leitura "obrigatória" na reflexão ao amor ao próximo. Essa maldição e humilhação chamada fome, que muitos de nós nunca passou deveria ser proibida no mundo. Não sei e não tenho a solução para o mundo. Mas sei que posso ajudar localmente a diminuir esse sofrimento de alguns.

É um livro que vale muito a leitura, pois não tem como ficar indiferente a esse "grito".

Professor Mario Mello

segunda-feira, 11 de outubro de 2021

O LIVRO SUA MAJESTADE LXXIX - TORTO ARADO

 Romance escrito em 2019, pelo jovem escritor brasileiro, Itamar Vieira Junior (1979-), "Torto Arado" conta a história de duas irmãs gêmeas que vivem numa fazenda no interior da Bahia, ainda em trabalho escravo.

Mesmo após a abolição da escravatura, muitas regiões brasileiras ainda mantiveram o trabalho escravo ainda por muitos anos.

Vencedor de vários prêmios recentes, "Torto Arado" é um romance que retrata, com muita habilidade narrativa, um Brasil dolorosamente encalhado no próprio passado escravagista. 

As protagonistas Bibiana e Belonísia (gêmeas) viveram com sua família, praticamente toda sua vida em uma fazenda. As regras "não-escravas" da fazenda eram as seguintes: não podiam construir nenhuma casa que não fosse de barro; não recebiam nenhum dinheiro pelo trabalho na fazenda; podiam ter uma horta para sua subsistência; e ainda, deviam doar alguma parte da colheita da horta para o capataz da fazenda.

A emocionante história começa quando em uma brincadeira de criança, Bibiana e Belonísia, ao mexer em uma mala de sua avó, acham uma velha e misteriosa faca.

Ocorre, então, um acidente com a faca e as meninas que acaba ligando ainda mais as duas irmãs. Com o passar do tempo essa ligação vai se desfazendo aos poucos. 

Na fazenda existem ritos de uma religião, de origem africana, que era comandada pelo pai das meninas e que é uma parte importante da história. Havia muitas reuniões com as pessoas da região para celebrar os atos religiosos. As meninas cresceram, viraram mulheres e uma nova etapa do romance aparece.

Pela influência do pai, Zeca Chapéu Grande, foi construída uma escola na fazenda o que determinou um novo ciclo de convivência com os trabalhadores da fazenda e de outras próximas. O sonho de Belonísia era ser professora. Ela cresceu, casou e mudou-se para a cidade onde pode ser professora.

Os ritos religiosos se sucedem na fazenda e os encontros vão diminuindo até que Zeca Chapéu Grande morre. Neste mesmo período a fazenda foi vendida para outros donos que fazem várias mudanças na rotina dos empregados. Tudo muda!!!

Na trama, brilhantemente conduzida pelo autor, quase sempre as mulheres são as protagonistas. O sofrimento das mulheres é comovente nesta triste história de uma época em que o Brasil dizia ter libertado a escravidão.

Enfim, é uma história cheia de Brasil que relata um tanto de insubordinação social, traumas familiares, exploração, misticismo afro-brasileiro, mas acima de tudo uma garra das protagonistas Bibiana e Belonísia na ânsia de viver.

É um belíssimo romance de uma leitura agradável, pela sua escrita, mas de uma enorme tristeza pelo sofrimento dos trabalhadores da época. As personagens são gigantes!!!!

Não deixe de ler. É um achado da literatura recente brasileira e um retrato de um Brasil ainda tão recente.

Professor Mario Mello


domingo, 10 de outubro de 2021

O LIVRO SUA MAJESTADE LXXVIII - A LIVRARIA MÁGICA DE PARIS

 "Ouvir em silêncio era a base para a avaliação profunda da alma". 

"As burrices do amor são as mais bonitas, mas se paga muito caro por elas".


Com frases desta qualidade o livro "A livraria Mágica de Paris" nos traz uma emocionante história de amor, aventura e desprendimento. Diria que ingredientes frequentes e costumeiros nos romances. 

Porém, neste livro, esses ingredientes se tornam inusitados pelas buscas e pelos pretextos dos protagonistas da história. É uma emocionante história de amor, de perda e do poder dos livros.

O livro, escrito por Nina George (1973-) é uma carta de amor aos livros e para quem acredita no poder que as histórias têm de influenciar nossas vidas.

Monsieur Perdu, o protagonista, se considera um "farmacêutico literário". Ele possui um barco-livraria, ancorado no Rio Sena, em Paris, de onde ele prescreve livros para as diversas dificuldades da vida, fazendo uma análise intuitiva de seus clientes.

Perdu utilizava os ouvidos, os olhos e o instinto. A partir de uma simples conversa, era capaz de identificar em uma alma o que lhe faltava.

Que incrível isso!! Já pensou? Em vez de remédios, livros?

E assim era Monsieur Perdu. Muitas vezes deixava de vender livros, pois não via ligação do livro com o "paciente". Monsieur Perdu vendia romances como se fossem remédios que amenizassem o sofrimento da alma. Porém, o único sofrimento que não conseguia curar era o seu.

Perdu sofreu uma desilusão amorosa há 21 anos quando seu amor, Manon, o abandonou quando dormia, deixando apenas uma carta. Carta essa, que Perdu não teve coragem de ler. A desilusão foi tão grande que somente após 21 anos Perdu leu a carta deixada por Manon. A leitura da carta foi provocada por uma nova vizinha, Catherine, que se mudou para o prédio onde Perdu morava e recebeu dele como ajuda para montar o apartamento uma velha mesa, onde na gaveta, estava a carta de Manon. Catherine "forçou" Monsieur Perdu ler a carta e então começa a louca aventura de Perdu.

Na verdade, Manon era amante de Perdu, pois era casada com Luc e morava na Provence, região francesa próxima do Mediterrâneo. Perdu sabia de Luc,  Luc sabia de Perdu e Manon dizia que amava os dois. O conteúdo da carta não vou aqui revelar, para não tirar a curiosidade de quem vai ler o livro. Posso dizer, apenas, que é chocante!

Roteiro de Monsieur Perdu

Numa bela manhã de verão Parisiense, Monsieur Perdu abandona Paris, desatraca seu barco do cais e parte para uma jornada que o levará para o coração da Provence em busca da história com seu amor Manon. Nesse movimento de partida, um jovem escritor e vizinho de Perdu, Max, intui o que está acontecendo e se joga no Sena para alcançar Perdu e partir junto. Assim, juntos partem sem dinheiro, sem roupas, sem muitos mantimentos, apenas em busca de "vida".

O que achei muito bacana no livro é que existe na contracapa um mapa do roteiro que Perdu faz com seu barco. É muito legal, pois o leitor vai acompanhado pelos vários rios e cidades onde o barco-livraria navega.

Nesta aventura da navegação Perdu e Max se tornam muito amigos e dependem um do outro. As conversas, silêncios e reflexões são muito divertidas, muitas vezes bem-humoradas e aprazíveis.

Numa das cidades, se metem em uma confusão num baile e encontram o italiano Cuneo. Cuneo era um espirituoso cozinheiro além de ser "boa gente". Como tiveram que sair às pressas da cidade, Cuneo se incorpora ao barco e parte junto com Perdu e Max. Na viagem encontram uma mulher supostamente se afogando no rio. Depois de algumas aventuras a mais, Samantha também se incorpora ao barco e parte junto. Cuneo se apaixona por Samantha e esta é outra história a parte na viagem. Mais tarde, descobrem que Samantha é também escritora, uma das preferidas de Perdu. Que história!!!!!

Passados alguns dias de viagem, chega o ponto de se separarem. Perdu e Max deixam o barco e partem de carro para Bonnieux, cidade onde Manon morava. Perdu não tem coragem de investigar mais sobre Manon e resolve morar um tempo em Sanary, famosa praia do Mediterrâneo, próxima a Toulon. Consegue emprego numa livraria e assim passa alguns meses na cidade. Porém, sua busca por Manon, não sai de sua cabeça. Um dia resolve encarar o retorna à Bonnieux para se encontrar com Luc o marido de Manon.

E assim é o epílogo da incrível história do "farmacêutico literário". Lá ele descobre Victória, uma linda jovem, filha de Manon. Neste epílogo ainda tem muitas aventuras para descobrir no livro.

Quem sabe, talvez todos nós tenhamos nossas tarefas no Grande Livro chamado La Vie.

Enfim, é uma história emocionante de amor, onde Perdu, compartilhando a sabedoria dos livros, demonstra que o mundo da literatura pode conduzir a alma humana pelo caminho da cura.

Dizia Monsieur Perdu:

 "Eu vendo livros como remédios. Existem livros que servem para um milhão de pessoas; outros para uma centena apenas. Há até remédios, perdão, livros que são escritos para uma única pessoa".

Salve salve sua majestade, LIVROS!!!!

Professor Mario Mello

domingo, 26 de setembro de 2021

O LIVRO SUA MAJESTADE LXXVII - A BONECA DE KOKOSCHKA

Do autor português Afonso Cruz (1971-) o livro "A boneca de Kokoschka" traz em seu enredo o que o autor faz questão de lembrar-nos a todo momento: "são os outros que nos fazem viver". 

A história começa na cidade de Dresden, localizada no leste da Alemanha, devastada pela segunda guerra mundial.

Dresden destruída pelo bombardeios
Dresden foi uma das cidades alemãs que mais recebeu bombardeios dos aliados na segunda guerra. Foram lançadas mais de 3.900 toneladas de bombas na cidade, destruindo-a, quase que totalmente. 

Neste cenário, Bonifaz Vogel, esconde na sua loja de pássaros o jovem judeu Isaac Dresner. Escondido num alçapão, Dresner se tornou uma voz misteriosa para Bonifaz, aconselhando-o sempre nos negócios de pássaros.

O livro além de ser um emocionante romance, ainda chama atenção por passagens muito reflexivas no nosso cotidiano. Uma delas, é quando Bonifaz Vogel, muitas vezes abria as portas das gaiolas, sem que os pássaros fugissem. 


Os pássaros ficavam encolhidos a um canto, tentando evitar olhar para aquela porta aberta, desviando os olhos da liberdade, que é uma das portas mais assustadoras. Só se sentiam livres dentro das gaiolas, ou seja, as gaiolas estavam dentro deles.

A partir daí, vão entrando em cena vários persongens, incluindo Mathias Popa, autor de "A boneca de Kokoschka". Já dá para perceber que temos um livro dentro de outro livro. Essa é uma característica marcante do autor Afonso Cruz, que possui uma maestria para colocar personagens dentro de personagens, como fez brilhantemente em outra obra sua chamada "Os livros que devoraram meu pai".

Um dos protagonistas, Mathias Popa, foi um grande músico e autor de outros livros. A outra protagonista Anasztázia Varga era uma milionária francesa que herdou do pai uma grande fortuna. O pai Zsigmond Varga tinha mais de 50 filhos, porém apenas 8 eram considerados legítimos e Anasztázia era a mais jovem. Os demais filhos de Zsigmond se perderam ao longo do tempo e da história, e apenas Anasztázia teve sua vida colocada no livro de Mathias Popa.

Anasztázia sempre fora muito caridosa e numa de suas viagens para a África, conheceu no navio o jovem Mathias Popa com quem teve um fulminante e inesquecível (até o final da história) romance. Anasztázia ficou grávida de Mathias, porém o mesmo desapareceu e nunca mais encontrou com ela.

A desilusão foi muito grande até seus últimos dias de vida. Já sem forças e acamada por anos, Anasztázia é cuidada pela neta Adele. Aqui, começa outra história dentro da história.

Nesse padecimento de Anasztázia diz o autor: "a horizontalidade (se referindo a sofrer deitada em uma cama) é um dos maiores sintomas da morte". Que pura verdade!!!

Adele vendo o sofrimento da avó parte em busca do paradeiro de seu avô. Ela não sabia nome, idade, cidade...nada sobre o avô. Com ajuda de um detetive encontra o judeu, Isaac Dresner, que vivia na loja de pássaros de Vogel e que conheceu Mathias Popa. O enredo é incrível e cheio de buscas do passado para ajudar Adele a desvendar o mistério.


Quando Adele consegue um exemplar do livro "A boneca de Kokoschka" tudo começa a ficar muito claro.

Assombrosas coincidências onde a realidade se confunde com a ficção, fazem de Adele outra protagonista da história, dentro da história de Mathias Popa. 

Essa é uma das grandes virtudes do autor Afonso Cruz. Ele não se limita a contar fatos. Nos traz uma espécie de leituras paralelas, ou seja, lemos um livro, dentro de outro livro, dentro de outro livro, até nos perguntarmos, mas afinal qual livro estava lendo? É uma sensação extraordinária num mundo feito de acasos e fatos reais. 

Assim se desenvolve esta fabulosa história cheia de nuances muito reais.

O último capítulo chamado "O fim" é de uma talentosa criatividade. Não vou obviamente contar aqui, mas a última frase do livro é de arrepiar. Não tem como não se emocionar com esta frase.

Não deixe de ler este livro. É admirável!!!!

Professor Mario Mello


sábado, 11 de setembro de 2021

O LIVRO SUA MAJESTADE LXXVI - EL TÚNEL

 Disponível no Brasil apenas na versão em espanhol (muito bom para treinar o segundo idioma), o livro "El túnel" do renomado escritor argentino Ernesto Sábato é uma das grandes novelas da literatura sul-americana.

Escrevi, aqui mesmo no Blog, no mês de abril/21 sobre Ernesto Sábato. Fiz um relato sobre sua vida, descrita na obra "Antes del fin". Este livro conta toda trajetória de Sábato, desde a infância, sua militância comunista, sua atuação como professor universitário, até largar tudo e se tornar um escritor.

Escrito em 1948, "El túnel" repercutiu também na Europa onde escritores famosos como Graham Greene e Albert Camus manifestaram sua admiração pelo livro. Graham Greene disse: "Tenho grande admiração por "El túnel" por sua magnífica análise psicológica. Não posso dizer que o li com prazer, mas sim com absoluta absorção."

O livro é tão esplêndido que sorve o leitor até a última linha da história (o último parágrafo reli várias vezes).

Os protagonistas, o pintor e artista Juan Pablo Castel e Maria Iribarne vivem a trama de uma tragédia anunciada. Tudo começa numa exposição das obras de Juan Pablo, quando ele percebe uma dama que fica muito tempo sozinha observando uma de suas obras. Isso o impressionou demais com a contemplação diferente daquela mulher em sua obra.

"La ventanita"
A obra é uma mulher aparecendo em uma janela para o mar, "La ventanita" (a janelinha).

A partir daí, começa uma busca desenfreada de Juan Pablo para encontrar Maria. Depois de muita busca, Juan Pablo a encontra e começa, então, o desenrolar de um episódio entre o real e a ficção envolvendo a história dos protagonistas imersos na dramática trama.

Os encontros começam a acontecer, porém Juan Pablo, enlouquecido pela paixão, submete Maria a inúmeras e incansáveis perguntas em todo encontro. A tortura psicológica se manifesta de forma brutal e desequilibrada. A cada encontro um diálogo tóxico que deixa Maria cada vez mais arredia. De personalidades completamente opostas, Juan Pablo desequilibrado psicologicamente, enquanto Maria se mantinha sempre calma e comedida, mesmo com todas agressões verbais sofridas.

Um dia Juan Pablo descobre que Maria era casada com um cego e que tinha uma propriedade fora de Buenos Aires, onde a história de desenvolve. Para fugir dos ataques desatinados de Juan Pablo, muitas vezes Maria se refugiava na estância. Aloucado Juan Pablo inferia que Maria tinha um amante na estância e por isso lá ela passava dias. Isso foi enlouquecendo cada vez mais Juan Pablo e calando Maria.

Uma das passagens do livro neste episódio: "Pelo ella no volvia. A medida que fueron pasando los dias, cresci en mí una espécie de locura."

"Mis sentimientos, durante todo ese período, oscilaron entre el amor más puro y el odio más desenfrenado, ante las contradiciones y las inesplicables actitudes de Maria; de pronto me acometía la duda de que todo era fingido."

Entre os diálogos de Juan Pablo com Maria, a maioria das vezes era assim: "Si alguna vez sospecho que me has engañado - le decia com rabia - te mataré como a un perro."

A pressão psicológica, estúpida e demente que Juan Pablo impunha a Maria durante toda a história, é como disse Graham Greene sobre o livro: não dá prazer em "presenciar" as atrocidades de Juan Pablo, porém nos absorve de tal forma que é impossível parar a leitura.

Assim, a novela se desenrola até o fim com a psicologia introspectiva e egoísta de Juan Pablo. A desesperança se agravava a cada atitude insana de Juan Pablo.

Durante toda obra Juan Pablo luta com duas forças antípodas: a razão e a intuição. Sua força racionalista culmina em uma sequência absurda de hipóteses que o conduzem para a necessidade de matar Maria, para referendar sua posição de domínio.

Em "El túnel", Sábato nos manifesta através da consciência de Juan Pablo que não há esperanças, que é impossível alcançar o amor absoluto. É um livro intrigante e muito real.

Vou dar um pequeno spoiler do final. Disse Juan Pablo: 

"Soló existió un ser que entendía mi pintura"


Professor Mario Mello

terça-feira, 7 de setembro de 2021

O LIVRO SUA MAJESTADE LXXV - OS LIVROS QUE DEVORARAM MEU PAI

Surpreendente!

Inesperado!

Extraordinário!

Extranatural!

Resolvi começar o texto com adjetivos que fui buscar no dicionário para descrever o que achei deste livro.

"Os livros que devoraram meu pai" me chamou tanto a atenção pela genialidade que precisei ir ao dicionário para buscar palavras para descrever parte dos meus sentimentos antes (pelo nome), durante e após a leitura.

Afonso Cruz
Multipremiado autor de romances, Afonso Cruz (1971- ) português de Figueira da Foz, mostrou toda sua magistralidade como escritor.

O protagonista Elias Bonfim perdeu o pai ainda antes de nascer. O pai, Vivaldo Bonfim, era um leitor voraz. Levava livros e mais livros escondidos ao trabalho para ler durante o dia todo. Até que um dia ele desapareceu. De tão entretido, de tão concentrado na leitura, adentrou um livro e desapareceu.

Quando Elias completou 12 anos a avó dele o chamou para uma conversa e lhe deu a chave do sótão, como herança, onde ficava a enorme biblioteca do pai. E aí, meus caros, começa a "viagem".


Elias na ânsia de encontrar seu pai, começa uma maratona de leituras, na busca de uma pista para encontrar o pai. Elias começa sua aventura pelos grandes clássicos, percorrendo obras repletas de assassinos, paixões devastadoras, feras e outros perigos feitos de letras.

Elias começou a "entrar" nos livros.

A primeira pista de Elias é o livro "A ilha do Dr. Moreau", que foi o último livro que seu pai leu, antes de desaparecer, pois o pai costumava deixar anotações nos livros.

Obras como a "Odisséia", "O médico e o monstro", "A divina comédia", "Crime e Castigo", "A revolução dos bichos", entre outras são percorridas por Elias onde ele trava diálogos com os personagens na incessante busca pelo paradeiro de seu pai.

Elias é apaixonado por Beatriz, colega de colégio, porém não era correspondido, pois Beatriz gostava de um amigo seu, Bombo. Aqui também acontece a convergência com a obra de Dante, "A divina comédia"que também tinha a Beatriz como a mulher a ser amada.

Em certa ocasião a mãe de Elias deixou-o de castigo porque ele sempre se atrasava para o jantar, por conta das intermináveis leituras. Neste episódio, Elias diz à mãe que irá fazer como o "Barão nas árvores" livro de Italo Calvino, cujo personagem foi morar em árvores após um desentendimento com o pai. E assim vai a história com Elias adentrando nos livros, conversando com os personagens na busca de pistas de seu pai.

São muitos diálogos e passagens por vários livros que não cabem neste pequeno texto. Um dos pontos chaves da história é quando Elias encontra Raskolnikov. Emblemático personagem assassino do romance "Crime e Castigo" de Dostóievski. Raskolnikov conheceu seu pai Vivaldo Bonfim e dele só tinha boas lembranças. O frio assassino se comove com a história de Elias, chora e diz:


"As pessoas tornam-se livros. Esses livros são verdadeiramente vivos. E isso foi minha salvação. Seguindo conselho de seu pai, decorei o livro "Crime e Castigo" de Dostóievski, não com o intuito de contá-lo tal qual foi escrito, mas, acima de tudo entendê-lo. Isso significaria entender-me".

Inteligentíssimo, isso. Muito criativo.

Mas, enfim, será que o jovem Elias encontrará seu pai?

Que pistas "A Divina Comédia", "O médico e o monstro", "Crime e Castigo" darão a Elias para resgatar seu pai?

Só posso dizer o seguinte (que já disse de outros livros): "Os livros que devoraram meu pai" é um dos melhores, mais inteligentes, criativos e formidáveis de todos os livros que já li.

Professor Mario Mello

segunda-feira, 6 de setembro de 2021

O LIVRO SUA MAJESTADE LXXIV - OS SETE ENFORCADOS

A décima novela que li, das dez "Novelas Imortais", organizadas pelo escritor Fernando Sabino, chama-se "Os sete enforcados". 


Escrita por Leonid Andreiev (1871-1919), um dos mais importantes autores de contos da 
literatura russa, também foi um dos mais emblemáticos escritores pessimistas. Sua obra literária é povoada de infelizes personagens que inspiram compaixão. 

Leonid Andreiev

Os sete enforcados é uma trama sobre homens e mulheres presos, à espera do fim iminente - da morte!

Andreiev discute na novela o sentido da vida a partir da prisão, e, muito mais que isso, a dúvida sobre a legitimidade da pena de morte.

A novela conta a rápida trajetória de sete condenados ao enforcamento, que vão para uma prisão de segurança máxima para aguardar a temida hora da execução. 

Desses sete condenados, cinco são jovens ativistas que planejaram a morte de um ministro. Foram delatados por alguém e assim impedidos de praticar o atentado sendo presos, julgados e condenados. Dos outros dois condenados um era um ladrão e outro um assassino confesso.

Colocados na prisão, em celas individuais, aguardavam angustiados e torturados psicologicamente (por eles mesmos) à espera da morte. Em uma passagem da novela, uma dos condenados reflete:

"Nunca pensara na morte, e não fazia dela uma imagem clara - mas agora percebia-a nitidamente; via-a, sentia que ela penetrara na cela e tateava à procura dele. Para salvar-se, pôs-se a correr pela cela exígua, enlouquecido."

Com doses perfeitas de realismo o autor mostra as incertezas e inseguranças do homem diante do anunciado fim. Dia e noite o único som ouvido nas celas era de um relógio que badalava seu sino de 15 em 15 minutos com toques longos e melancólicos. Isso provocava um tormento sem fim nos condenados.
Enfim, uma noite chegou a hora de partir da prisão para o enforcamento. Novas angústias e tormentos se apossaram dos condenados. O personagem principal era a morte.

Quero finalizar dizendo que ao ler a última das dez novelas que Fernando Sabino, com maestria selecionou na literatura mundial, fico com a sensação de que esta foi a melhor. Mas já tinha falado isso antes sobre outras das novelas. Não sei......
Só sei que é uma leitura imperdível para conhecer as fraquezas humanas e o suplício no aguardo da morte.
Surpreendente, excepcional, admirável!!!!

Professor Mario Mello