domingo, 1 de março de 2026

O LIVRO SUA MAJESTADE CXXIII (123) - OUÇA A CANÇÃO DO VENTO - PINBALL, 1973

 Nas férias escolares, com um pouco mais de tempo para leituras, fui atrás de "maratonar" o autor Haruki Murakami. Virei fã do autor lendo uma de suas obras. Depois de ter lido três de suas obras (todas estão aqui no Blog):

1. Sono - (incrível este livro)

2. Do que eu falo quando falo de corrida - (espetacular sua história real de superação)

3. Sul da fronteira, oeste do sol - (o melhor deles)

Belíssima edição de capa dura

Resolvi encontrar as duas primeiras novelas de Murakami, pois ele se referia a elas muitas vezes. É sobre esse livro, que trago o comentário de hoje. O livro traz as duas histórias: "Ouça a canção do vento" e "Pinball, 1973". São janelas para o mundo fascinante de Murakami. É o início dele como escritor e do fenômeno da literatura contemporânea que ele se tornou. Ainda dono de bar, Murakami escreveu estas duas novelas de madrugada, na mesa da cozinha, depois que o bar fechava.

"Ouça a canção do vento" é uma obra curta, escrita em 1978, mais próxima de uma novela do que de um romance. Mas, segundo Murakami, ele "penou" muito para conseguir terminá-la, pois não tinha a menor noção de como se escrevia um romance. Murakami escreveu, enviou a uma revista literária e meses depois recebeu um telefonema que a obra tinha sido selecionada como finalista do prêmio para novos escritores. Nada mal, por ser seu primeiro texto.

A história é de um estudante de biologia que passa as férias em sua cidade natal e relembra os amores da adolescência, enquanto tenta entrar em uma nova e inusitada relação.

O protagonista, sem nome, encontra uma amigo que ele chama de Rato e passam horas por dia bebendo em um bar da cidade. Percebe-se em Murakami uma certa dose de melancolia e solidão. Como um dos traços característicos dele, nesta obra a presença de livros, jazz e bebida, é muito forte. Por ser sua primeira obra, a narrativa é um pouco desarticulada, pois muda de assunto com bastante frequência. Isso, de forma alguma, tira o brilho do texto, apenas exige um pouco mais de atenção na leitura.

A história tem passagens muito legais. Separei esta num diálogo dele com a namorada:

"Às vezes eu minto. A última vez que menti foi no ano passado. Mentir é um negócio tremendamente desagradável. Pode-se dizer que as mentiras e o silêncio são dois pecados que se alastram pela sociedade atual (isso escrito em 1978 e atual até hoje). Sem dúvida nós mentimos muito e nos calamos com frequência. Porém, se falássemos sem parar e disséssemos apenas a verdade, talvez ela acabasse perdendo seu valor."

E assim a história se desenrola com o Rato, o proprietário do J's Bar e a namorada que conheceu numa loja de discos, até chegar o dia do nosso protagonista voltar para Tóquio e seguir os estudos. Antes de partir passou no bar para se despedir, ganhou umas cervejas (sem pedir) e leu o seguinte:

"Aquilo que damos sem nos arrepender é o mesmo que costumamos receber."

A outra história chamada "Pinball, 1973", já não é tão fragmentada e é mais lógica. 

Nosso protagonista, um tradutor, se vê obcecado por uma máquina de fliperama. Ele vai atrás dessa máquina que foi importante na sua trajetória de jogador até o limite para encontrá-la novamente e revisitar seu passado. A história parece uma continuação da primeira, pois apresenta os mesmos personagens: o Rato e o barmen J. Morando sozinho, em um pequeno apartamento, nosso protagonista ao chegar em casa um dia, depois do trabalho, encontra duas gêmeas dormindo em sua cama. As gêmeas são idênticas e completamente indistinguíveis. A partir daí passam a conviver com ele. Fazem café, passam roupas, saem à passear, dormem na mesma cama, ou seja, passam a conviver juntos.

As gêmeas não têm uma história concreta na história. Elas são figuras misteriosas sem passado ou presente definidos. Assim como elas chegaram, se foram. A presença das gêmeas na história, pode-se dizer que está inserida dentro de temas típicos de Murakami como a nostalgia e a solidão.

O outro viés da história é de novo a amizade com o Rato e a presença constante no J's Bar para ouvir jazz, conversar e beber. Um dia nosso protagonista foi seduzido pelo feitiço do pinball. Ao anoitecer, vestia um casaco e ía passar horas num fliperama. Ele foi se especializando numa máquina chamada Spaceship de três flippers que emitia vários sons e acendia várias luzes. Dominou todas as técnicas e foi batendo seu recorde seguidamente. Até que um dia a máquina desapareceu do fliperama, pois foi substituída por máquinas mais novas e modernas. Ele enlouqueceu. Começou uma busca frenética pela cidade em busca da máquina do coração.

Contatou dezenas de pessoas ligadas ao ramo, um professor de uma universidade que era especialista em máquinas de fliperama, até que um dia descobriu uma pista de onde a máquina poderia estar.

Bom, óbvio, não vou contar o final da história mas ele é bem intrigante. Escreve o autor em umas das últimas páginas da história: 

"Sobre o passado e o presente falamos: é assim. Mas sobre o futuro só podemos dizer "talvez". Porém quando me volto para olhar meu trajeto escuro até aqui, creio que o que existe ali não é nada além de um incerto "talvez". A única coisa que nossos sentidos podem de fato captar claramente é o instante que chamamos de presente, mas ele apenas passa roçando por nós."

Enfim, a história é um misto de uma narrativa breve sobre solidão, memória e a busca sobre algo perdido.

Como disse acima, sou fã do Murakami. Como ele mesmo disse as obras são "romances de mesa de cozinha", mas são elas que marcam seu verdadeiro começo da carreira de escritor, pois foram presença preciosa e insubstituível.

Fale muito a leitura.

Professor Mario Mello

sábado, 28 de fevereiro de 2026

O LIVRO SUA MAJESTADE CXXII (122) - A INCRÍVEL LAVANDERIA DOS CORAÇÕES


Hoje o comentário é sobre um livro um tanto curioso, eu diria.
"A Incrível Lavanderia dos Corações" é o primeiro livro da autora coreana Yun Jungeun
publicado no Brasil. Logo que vi o título (e a capa: adoro capas) fiquei com muita vontade
de lê-lo.

É um livro supernovo, publicado em 2024 e por isso traz uma linguagem bem atual, se
referindo aos smartfones, canal no Youtube entre outros "apetrechos" atuais.

A indagação principal do livro é a seguinte:
"Aqui vai uma hipótese:
se você pudesse consertar algo de que se arrepende;
se pudesse se livrar da dor de uma ferida entalhada no coração, como se fosse uma
mancha incrustada, você seria feliz?
Se pudesse se livrar daquela única dor, você encontraria a felicidade? "

Quem não gostaria de se livrar de alguma dor do passado não é mesmo?
Para tentar resolver estes problemas nasce a Lavanderia dos Corações. Neste local tão
curioso, nossa protagonista, uma mulher enigmática chamada Jieun, aguarda seus
visitantes, sempre com um chá quentinho e a promessa de saírem com o espírito renovado.


A história começa com uma menina (Jieun) ouvindo escondida seus pais dizerem que ela possuía dons diferentes dos humanos normais. Ela tinha o dom de realizar desejos e de apaziguar o sofrimento das pessoas. E assim, foi passando o tempo e um belo dia a menina não encontrou mais os pais. Utilizando seus dons viajou por séculos procurando por eles mas nunca mais os encontrou.
Essa saudade ficou como uma "mancha" no coração da menina.

Cansada e de certa forma conformada com a situação, num belo dia, na calada da noite, no topo da colina mais alta da Vila dos Cravos, uma construção surge em meio a um redemoinho de pétalas vermelhas.
Assim nasceu a Lavanderia dos Corações. Um lugar mágico onde as pessoas vão em busca de um momento de conforto. 


Uma das primeiras clientes foi Yeonhee que sofria violência doméstica do seu companheiro (tema bastante discutido hoje em dia). Ela não conseguia se libertar e de tempos em tempos voltava para ele. Até um dia que conseguiu dar um basta, porém seu coração ficou com uma "mancha" enorme pelo sofrimento causado pelo companheiro.
A proposta da Lavanderia dos Corações era lavar essas manchas a apaziguar os corações das pessoas. Jieun tinha esse dom.

Jieun ouviu Yeonhee com paciência e atenção e disse: 
"Vista esta camiseta branca e pense com todo o coração na lembrança que deseja limpar. Assim, a mancha vai aparecer na camiseta."
Depois disso a camiseta era lavada e a mancha da camiseta e do coração desaparecia.
Assim, se sucederam vários atendimentos com outros personagens e com dores diferentes. 
Na Lavanderia diversas realidades se encontram, arrependimentos antigos, desilusões amorosas, infância sofrida e sonhos deixados de lado.

Porém, Jieun ainda tinha sua dor. Ela era eterna não morria. Viveu por séculos e isso a estava deixando triste.
Ou seja, ela conseguia com sua Lavanderia, lavar as manchas dos outros, mas e a sua mancha?

Pois é, depois de tantas histórias, "manchas" lavadas das outras pessoas o livro vai para o final tratando mais de Jieun. A história aborda como a tristeza e a alegria estão conectadas e como as mágoas que carregamos transformam cada um de nós.
Obviamente não vou contar o final. 
Embora seja uma obra de fantasia, a Lavanderia dos Corações nos faz repensar nossas escolhas e também apresenta uma lição de empatia. 
É um bom livro, com boa dose de fantasia mas com enorme dose de realidade.

Professor Mario Mello

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

O LIVRO SUA MAJESTADE CXXI (121) - SUL DA FRONTEIRA, OESTE DO SOL

 Após já ter lido 2 livros do Haruki Murakami ("Sono" e "Do que eu falo quando falo de corrida") resolvi seguir lendo este renomado autor.

Como estou de férias escolares, tem sobrado mais tempo para a leitura. Fui buscar então, por indicação do meu filho Arthur, "Sul da fronteira, oeste do sol". Esta é uma das obras mais aclamadas de Murakami. O nome do livro foi baseado na música de Nat King Cole chamada "South of the border"

É um livro que considero um dos melhores que já li. 

O The New York Times, fez o seguinte comentário: "um mergulho na fragilidade humana, nas armadilhas da obsessão e no enigma impenetrável e sensual que o outro representa". É bem isso: um enigma impenetrável.

O protagonista Hajime, filho único de uma família tradicional de uma província do Japão, faz uma amizade na infância com uma menina também filha única, chamada Shimamoto. A afinidade deles por música e literatura os aproxima muito fortemente. Estudando no mesmo colégio estão sempre juntos. Se tornaram grandes amigos.

Uma particularidade da história que gostei muito é de que Shimamoto tinha em casa dezenas de discos de vinil e todas as tardes os dois escutavam vários discos. Outro traço característico de Murakami é o esporte. Hajime nadava todos os dias para se manter em forma.

Pois bem, o tempo passou Hajime trocou de colégio e o afastamento dos dois foi ocorrendo naturalmente. Hajime mudou-se para Tóquio e nunca mais encontrou com Shimamoto, porém nunca a esquecera.

Muitos anos depois, Hajime com a vida bem estabelecida, pois se casou com uma bela jovem Yukiko, e se tornou proprietário de dois bares em Tóquio que lhe davam uma excelente renda e estabilidade. Era muito feliz com Yukiko e suas duas filhas além de fazer o que gostava, administrando os bares que eram chamados de Clube de Jazz, pois tinha músicos tocando jazz a noite toda. Eles tinham casa de campo, uma BMW que era símbolo de gente endinheirada, o pai de Yukiko era um empresário de sucesso. Enfim, uma boa vida.

Porém, um belo dia Hajime imaginou ter visto na rua Shimamoto. Shimamoto tinha um pequeno problema na perna esquerda que fazia ela caminhar com certa dificuldade e que a tornava quase que única. Hajime a seguiu mas ficou com medo de abordá-la, pois não certeza de que era ela, e assim ela sumiu. Isso reacendeu nele lembranças que já haviam ficado para trás.

Hajime ficava até tarde da noite em seus bares e Shimamoto não lhe saía da cabeça. Até que um dia, chuvoso, apareceu uma linda mulher no bar. Ele estava sentado à frente do balcão tomando um drink e a mulher sentou-se a seu lado e pediu para acender um cigarro. Era Shimamoto. Shimamoto tem uma beleza de tirar o fôlego. A partir daí Hajime não consegue mais permanecer em seu cotidiano de estabilidade com o qual se acostumou. Shimamoto estabeleceu uma condição para seguir visitando Hajime: ele não devia fazer nenhuma pergunta a ela em relação ao passado. Ficou claro para Hajime que Shimamoto tinha um segredo de vida. No fim do livro este segredo aparece (óbvio que não vou contar aqui).

E assim, passaram-se meses. Shimamoto aparecia e sumia, enlouquecendo Hajime. Lógico que Yukiko desconfiou da mudança em Hajime.

Um belo dia, Shimamoto pediu a Hajime para levá-la a outra cidade, pois ela tinha uma missão a cumprir. A cidade deveria ter um rio que desembocasse no mar. Na cidade onde Hajime tinha a casa de campo, tinha um rio perto. Eles foram. E aí vem toda a surpresa da história e o mistério de Shimamoto.

Haruki Murakami (1949 - )

É um final surpreendente, emocionante e enigmático. É cheio de significados e de reflexões sobre nossa vida. 

O que queremos dela? 

Como disse antes, foi um dos melhores livros que li, pois traz uma história realista e de muito significado.

Vale muito a leitura!!! Eu diria: imperdível.

Professor Mario Mello


sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

O LIVRO SUA MAJESTADE CXX (120) - DO QUE EU FALO QUANDO EU FALO DE CORRIDA

 Haruki Muramaki é considerado um dos mais importantes autores da atual literatura japonesa. Nasceu em Kyoto no Japão em 1949 e suas obras já foram traduzidas para 50 idiomas.

Haruki Murakami
Murakami foi (é) corredor de maratonas e atleta de triatlo e esse livro chamado "Do que eu falo quando eu falo de corrida" é um livro diferente de Murakami. Nele o escritor fala sobre sua experiência como corredor de longas distâncias - com os treinos duros, a força de vontade, a tentativa de superar as próprias marcas - e como a atividade física influencia sua vida e sua obra.

O livro trata do momento-chave que ele decidiu se tornar escritor, suas vitórias e seus desapontamentos, sua paixão por LPs e seu ritual para escrever e correr. Murakami foi dono de uma bar e em determinado momento resolveu escrever romance. Como dono de bar, dormia tarde e acordava tarde. Uma vida diferente da que ele imaginava para si e sua esposa. Escreveu seus dois primeiros romances (ou novelas como ele mesmo diz) nas madrugadas na mesa da cozinha do bar. 

Assim que vendeu o bar, começou a correr e não parou mais. Cada dia corria um pouco mais. Num trecho do livro, diz Murakami: "As pessoas às vezes zombam de quem corre todo dia, alegando que é uma tentativa desesperada de viver mais. Mas não acho que este seja o motivo pela qual a maioria corre. A maioria dos corredores corre não porque queira viver mais, mas porque quer viver a vida ao máximo."

O livro é dividido em 9 histórias contadas a partir de suas experiências com as maratonas e triatlos que foi participando. Uma passagem interessante é ele ter percorrido, na Grécia, o caminho da Maratona.

Lembrando que este nome Maratona vem da Grécia antiga quando um soldado correu da cidade de Maratona até Atenas para anunciar a vitória do exército Ateniense sobre os Persas. A distância oficial é de 42,195 km e diz a lenda que após completar o percurso o soldado morreu de exaustão.

Pois bem, Murakami se desafiou e fez o percurso dos 42,195 km na Grécia, só que ao contrário. Saiu de Atenas até Maratona. Ele correu sozinho no verão de Atenas com um calor inacreditável, segundo Murakami. Ele nunca tinha corrido mais que 35 km e a partir desse km ele começou a sentir muito. Sua energia estava batendo no fundo, mas a determinação e persistência o levou até o final, até o monumento de Maratona.

O livro todo traz boas reflexões sobre decidir e fazer as coisas. Não para os outros, mas para você. Diz Murakami: "A barreira que divide a confiança salutar do orgulho prejudicial é muito fina."

Murakami conta que correr uma maratona durante os meses frios e participar de um triatlo durante o verão se tornou o ciclo de sua vida. Isso lhe trouxe imensa felicidade, pois correr por 25 anos (até a escrita do livro em 2007) traz um monte de boas lembranças.

Murakami em suas corridas diárias

Ele ficou 10 anos pensando em escrever um livro sobre corridas, pois ele achava que "correr" é meio que um tema vago. Porém decidiu que deveria apenas escrever honestamente sobre o que pensava e sentia sobre correr.

O livro revela lições pessoais que o autor aprendeu colocando seu corpo efetivamente em movimento, descobrindo assim, que sofrer é opcional, pois um corredor de elite disse a ele certa vez: 

"A dor nas maratonas é inevitável. Sofrer é opcional. Suportar a dor é algo que cabe ao corredor."


Enfim, gostei muito do livro. Descoberto pelo meu filho Arthur (já escrevi aqui que ele tem um dom especial em descobrir excelentes livros) que também gosta de correr, o livro é bem-humorado e ao mesmo tempo sensível. 

É tanto boa leitura quanto incentivo para treino de corrida. É um livro de valor.

Professor Mario Mello

sábado, 3 de janeiro de 2026

O LIVRO SUA MAJESTADE CXIX (119) - LA CONQUISTA DE LA SOLEDAD

 Começo o ano de 2026 lendo um livro em espanhol.  Faz parte dos meus desafios como leitor e aprendiz, ler ao longo do ano alguns livros em espanhol.

O livro que trago hoje é de um autor uruguaio, Juan José Morosoli (1899 - 1957), chamado "La Conquista de la Soledad". É um livro de contos escolhidos do autor e publicado após sua morte. 

Morosoli, considerado autodidata, pois estudou somente até a segunda série, é considerado pela crítica literária do Uruguai como um dos principais "cronista de almas". É um escritor que parecia com seus personagens.

Os contos tratam da vida simples e de gente simples do interior do Uruguai. Uma marca registrada em praticamente todos os contos, é a solidão dos personagens. 

Morosoli nasceu, se criou e morreu na mesma cidade uruguaia de Minas. Isso certamente influenciou sua escrita simples e de personagens reais e interioranos.

A prosa de Morosoli, quase sempre de aspecto duro e afiado, também guarda momentos de intensa beleza e franqueza com que o autor envolve seus personagens.

Contos como "Un gaucho" conta a história de um rapaz que não conseguia parar em lugar nenhum, em serviço nenhum. O protagonista Montes dizia: "Mi pago (local) es donde yo ando".

Na última fazenda que trabalhou teve uma filha com uma empregada do local, mas nem isso fez Montes permanecer. Assim como chegou um dia, se foi em outro. Anos depois, foi visto no Chuy (fronteira com o Brasil) fazendo contrabandos. E, assim era Montes. Sem paradeiro. Até que um dia, num cortejo um moço viajante se aproximou e perguntou: é Montes? Sim confirmaram alguns. Você o conhecia? Não - disse o moço viajante - mas era meu pai.

Outro conto interessante é "El campo". Tem dois protagonistas: como diz no conto "el negro Sabino" e su patrón Correa.

Tudo mundo sabia como vivia Correa. Toda "plata" que caía em suas mãos era guardada para comprar novas terras. Correa já possuía uma interminável fazenda, mas sempre queria mais.

Um dia faleceu um vizinho Antúnez que deixara a mulher e duas filhas pequenas, com dívidas e desamparadas. Correa sem pena delas foi lá e comprou mais terras para seu deleite. E assim, foi passando o tempo. Correa não gastava dinheiro em nada. Seus mantimentos quando precisavam ser comprados era sempre em troca de alguma coisa que a fazenda produzia. Sabino era encarregado das compras. Até que um dia Correa não fazia mais trocas e começou a ficar devendo no armazém.

Correa era sozinho. Só habitavam a fazenda ele e Sabino. A doença chegou para Correa. Um dia Sabino encontrou o patão nu na porta olhando para a imensidão das terra. Foi só aí que Sabino percebeu como ela estava magro, sem músculos e com o ventre saltado. "Patrón, vaya pa dentro". Porém o patrão parecia nem ouvi-lo e nem vê-lo. Pareceu para Sabino pareceu que ele tinha olhos de vidro com reflexos para todos os lados, como se estivessem quebrados por dentro. Assim, o patrão morreu.

Tá, mas o que aconteceu depois com as terras e o negro Sabino? Essa é outra característica dos contos de Morosoli: o leitor é livre para imaginar a sequência a partir de um fato determinante.

Enfim, o livro traz 16 contos todos com muita perspicácia e com muita realidade. Há na obra do autor uma exaltação ao homem, mas não um herói corajoso com a faca na mão. São personagens capazes de entender o silêncio.

Esta edição do livro é uruguaia e foi presente do meu filho Arthur, quando da sua última viagem à Montevideo. Arthur (já escrevi em outros posts) tem uma incrível capacidade de encontrar livros excepcionais. Este é mais um dos vários que ele já "garimpou". 

Como (ainda) não existe esta edição no Brasil, faço votos de que quando forem ao Uruguai, possam adquirir o mesmo, pois vale muito a pena.

Professor Mario Mello


domingo, 28 de dezembro de 2025

O LIVRO SUA MAJESTADE CXVIII (118) - O PASSEADOR DE LIVROS

 Começo com a seguinte expressão: 

Que livro!!!

"Dizem que os livros encontram seus leitores, mas às vezes é preciso que alguém lhes indique o caminho".

Já faz alguns anos que me interesso muito por livros que falam de livros. Esse meu interesse foi despertado basicamente por um livro, "Os livros que devoraram meu pai" seguido pela "Livraria Mágica de Paris".

Hoje vou falar do livro "O Passeador de Livros". Regalo de Natal da minha nora Grazi Fachim, não esperei um dia para começar a lê-lo, pois só de ver o título sabia que fazia parte dos meus preferidos. A Grazi acertou em cheio.

É um livro novo, escrito em 2020 e só chegou ao Brasil em 2022. Escrito pelo alemão Carsten Henn (1973 - ) em seguida tornou-se um livro traduzido em mais de 25 países.

A história se passa numa cidade interiorana da Alemanha onde uma livraria tradicional da cidade, tinha o Sr. Carl Kollhoff, de 72 anos, como o funcionário mais antigo que fazia pessoalmente entregas, na cidade, de livros adquiridos por alguns clientes. Como tudo vai se "modernizando" e com a aposentadoria do proprietário Sr. Gustav, assumiu a gerência a filha Sabine que não tinha aptidão literária e muito menos simpatia para a função. Sabine, muito antipática, começou a implicar com Carl, pois muitos clientes iam à livraria e só procuravam por ele. Ou seja, seu emprego começou a ficar ameaçado. Ou melhor, a sua vida começou a ficar ameaçada, pois era na livraria que trabalhou a vida toda.

Todos os dias Carl embrulhava cuidadosamente os livros e saía para as entregas. Carl tinha seus clientes preferidos aos quais dera um nove fantasia relacionado a algum personagem dos livros que lia. 

Entre eles o Mister Darcy, muito reservado morando em uma mansão; a sra. Effi que era espancada pelo marido (isso foi descoberto pelo livreiro); a irmã beneditina Amarílis, que resistia em abandonar o convento só habitado por ela; o Doutor Fausto que se dizia professor, embora nunca tinha pisando em uma universidade; mais um personagem curioso: O Leitor era um rapaz que trabalhava numa fábrica de charutos e sua função era passar 8 horas por dia lendo livros para os funcionários que trabalhavam na produção.

Enfim, cada personagem tinha suas preferências e Carl dava suas dicas para os novos livros a serem adquiridos. 

Um belo dia, no seu habitual trajeto, Carl é seguido por uma menina de 9 anos chamada Schascha. A menina queria acompanhá-los nas entregas o que Carl não permitiu inicialmente. Porém a insistência e a esperteza de Schascha demoveu Carl da negativa. A partir daí se formou uma amizade sólida e intensa entre os dois. No choque de gerações (embora Schascha gostasse de livros) um dia Carl disse a ela:

"Cada dia mais pessoas estão lendo menos. No entanto, existem pessoas dentro das páginas. É como se cada livro contivesse um coração que só começa a bater quando é lido, porque nosso coração o impulsiona."

Várias semanas se passaram até que um dia Schascha não apareceu para acompanhar Carl. Ele não sabia onde ela morava e ficou desesperado, pois ela simplesmente não apareceu mais. Carl começou a procurá-la em escolas, porém sem sucesso.

Ela um dia reapareceu (não vou contar como para não estragar o suspense da história). 

Pois bem, muitas aventuras se passam no decorrer da história, até Carl ser despedido da livraria por Sabine. A vida dele desaba.

Quando Schascha descobre, esperta como era, a história dá uma reviravolta incrível. Menina de coração gigantesco e generoso. O final da história é muito emocionante. Aos mais emotivos, como eu, leva às lágrimas.

É um livro genial, de leitura simples que traz incríveis reflexões sobre a leitura e chama que não podemos deixar apagar dos livros. Eu acrescento: dos livros físicos. Que tenhamos ainda, muitos passeadores de livros!

Para os amantes de livros (para os iniciantes também) é uma leitura imperdível.

Obrigado Grazi, pelo presente. Sabe aquele presente certeiro? Pois este é.

Professor Mario Mello


terça-feira, 23 de dezembro de 2025

O LIVRO SUA MAJESTADE CXVII (117) - MEDITAÇÕES

 O livro trata de anotações pessoais do Imperador Romano Marco Aurélio, que foram escritas entre os anos 170 e 180 d.C. Impressiona como essas anotações em sua maioria se aplicam até os dias de hoje.

Dividido em 12 chamados livros, a obra tornou-se um dos escritos mais reveladores e inspiradores a respeito do pensamento de um grande líder.

O livro não é propriamente uma obra literária ou filosófica, mais sim uma espécie de diário em que Marco Aurélio registrou reflexões registradas a si mesmo.

Marco Aurélio, ou Marcus Aurelius Antoninus, nasceu em 26 de abril de 121 d.C. foi um "homem bom". Ele foi um dos Imperadores mais cultos, inteligentes e estudioso em filosofia. Toda sua educação foi diversificada e obtida de professores particulares. Marco Aurélio nunca foi seduzido pelo poder para humilhar os mais fracos.

Após a morte do pai, Annius Verus, Marco Aurélio ficara aos cuidados da mãe e do avô paterno, mas ainda adolescente foi adotado pelo Imperador Antonino Pio e assim, como herdeiro, assumiu o governo do Império Romano aos 40 anos, em 162 d.C., após a morte de Antonino. O Imperador Antonino, pai adotivo de Marco Aurélio é considerado por muitos historiadores como o mais digno de todos os imperadores de Roma.

Marco Aurélio reinou de 161 d.C. a 180 d.C. Além dos horrores da guerra e do combate aos inimigos do Império, uma epidemia veio a ceifar a vida de seus comandados e soldados. Atingido por este mal, o devotado imperador, que jamais gozara de vigor físico, extenuado e condenado ao leito faleceu em 9 de abril de 180 d.C., deixando como principal marca a bondade de um imperador e a manutenção das fronteiras do poderoso Império Romano.

Estátua de Marco Aurélio em Roma
A postura filosófica de Marco Aurélio está sintetizada em três princípios:

1-Prática das virtudes, que significa repúdio aos vícios e ao mal em geral;

2-Devoção religiosa, culto aos deuses e obediência às leis;

3-Em todas ações virtuosas, ter em vista sempre o interesse da comunidade e não o individual.



Trago aqui algumas passagens que mais me chamaram a atenção no livro.

"Acolhe a alvorada já dizendo, antecipadamente, para ti mesmo: vou topar com o indiscreto, com o ingrato, com o insolente, com o pérfido, com o invejoso, com o insociável. Todas essas qualidades negativas lhes ocorrem por conta da sua ignorância do bem e do mal. Não sou capaz de enraivecer contra meu semelhante nem de odiá-lo, pois nascemos para mútua cooperação e assistência."

"Corpo, alma, inteligência, no corpo as sensações, na alma os impulsos, na inteligência os princípios."

"A melhor forma de se defender das pessoas hostis é não se tornar semelhante a elas."

"Nas ações, não haja de maneira precipitada nem de maneira lânguida ou negligente; nas conversas, não seja criador de confusão e de desentendimento; nas ideias não te desorientes perdendo a coerência; na tua alma, de modo algum, te contraias sob o peso das preocupações nem te distrais fugindo delas; e não ocupes tua vida inteira com negócios e dificuldades dispensando o ócio." 

"Tu és a combinação de três coisas nomeadamente: um corpo precário, um sopro de vida, uma inteligência. Dessas coisas, as duas primeiras só são tuas na medida em que te ocupes e te empenhes em cuidar delas; somente a terceira é propriamente tua, legitimamente tua."

Assim, o livro traz reflexões sobre as virtudes, a felicidade, a morte, as paixões e a harmonia com a natureza e a aceitação de suas leis. A personalidade de Marco Aurélio se impõe como marca de grandeza, coerência, benevolência e compreensão.

Como disse antes, não se trata de uma obra filosófica mas sim de uma obra atemporal e universal, pois todos os temas abordados continuam relevantes centenas de anos após a escrita.

Vale muito a pena a leitura!

Boa leitura!

Professor Mario Mello