sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

O LIVRO SUA MAJESTADE CXXI (121) - SUL DA FRONTEIRA, OESTE DO SOL

 Após já ter lido 2 livros do Haruki Murakami ("Sono" e "Do que eu falo quando falo de corrida") resolvi seguir lendo este renomado autor.

Como estou de férias escolares, tem sobrado mais tempo para a leitura. Fui buscar então, por indicação do meu filho Arthur, "Sul da fronteira, oeste do sol". Esta é uma das obras mais aclamadas de Murakami. O nome do livro foi baseado na música de Nat King Cole chamada "South of the border"

É um livro que considero um dos melhores que já li. 

O The New York Times, fez o seguinte comentário: "um mergulho na fragilidade humana, nas armadilhas da obsessão e no enigma impenetrável e sensual que o outro representa". É bem isso: um enigma impenetrável.

O protagonista Hajime, filho único de uma família tradicional de uma província do Japão, faz uma amizade na infância com uma menina também filha única, chamada Shimamoto. A afinidade deles por música e literatura os aproxima muito fortemente. Estudando no mesmo colégio estão sempre juntos. Se tornaram grandes amigos.

Uma particularidade da história que gostei muito é de que Shimamoto tinha em casa dezenas de discos de vinil e todas as tardes os dois escutavam vários discos. Outro traço característico de Murakami é o esporte. Hajime nadava todos os dias para se manter em forma.

Pois bem, o tempo passou Hajime trocou de colégio e o afastamento dos dois foi ocorrendo naturalmente. Hajime mudou-se para Tóquio e nunca mais encontrou com Shimamoto, porém nunca a esquecera.

Muitos anos depois, Hajime com a vida bem estabelecida, pois se casou com uma bela jovem Yukiko, e se tornou proprietário de dois bares em Tóquio que lhe davam uma excelente renda e estabilidade. Era muito feliz com Yukiko e suas duas filhas além de fazer o que gostava, administrando os bares que eram chamados de Clube de Jazz, pois tinha músicos tocando jazz a noite toda. Eles tinham casa de campo, uma BMW que era símbolo de gente endinheirada, o pai de Yukiko era um empresário de sucesso. Enfim, uma boa vida.

Porém, um belo dia Hajime imaginou ter visto na rua Shimamoto. Shimamoto tinha um pequeno problema na perna esquerda que fazia ela caminhar com certa dificuldade e que a tornava quase que única. Hajime a seguiu mas ficou com medo de abordá-la, pois não certeza de que era ela, e assim ela sumiu. Isso reacendeu nele lembranças que já haviam ficado para trás.

Hajime ficava até tarde da noite em seus bares e Shimamoto não lhe saía da cabeça. Até que um dia, chuvoso, apareceu uma linda mulher no bar. Ele estava sentado à frente do balcão tomando um drink e a mulher sentou-se a seu lado e pediu para acender um cigarro. Era Shimamoto. Shimamoto tem uma beleza de tirar o fôlego. A partir daí Hajime não consegue mais permanecer em seu cotidiano de estabilidade com o qual se acostumou. Shimamoto estabeleceu uma condição para seguir visitando Hajime: ele não devia fazer nenhuma pergunta a ela em relação ao passado. Ficou claro para Hajime que Shimamoto tinha um segredo de vida. No fim do livro este segredo aparece (óbvio que não vou contar aqui).

E assim, passaram-se meses. Shimamoto aparecia e sumia, enlouquecendo Hajime. Lógico que Yukiko desconfiou da mudança em Hajime.

Um belo dia, Shimamoto pediu a Hajime para levá-la a outra cidade, pois ela tinha uma missão a cumprir. A cidade deveria ter um rio que desembocasse no mar. Na cidade onde Hajime tinha a casa de campo, tinha um rio perto. Eles foram. E aí vem toda a surpresa da história e o mistério de Shimamoto.

Haruki Murakami (1949 - )

É um final surpreendente, emocionante e enigmático. É cheio de significados e de reflexões sobre nossa vida. 

O que queremos dela? 

Como disse antes, foi um dos melhores livros que li, pois traz uma história realista e de muito significado.

Vale muito a leitura!!! Eu diria: imperdível.

Professor Mario Mello


sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

O LIVRO SUA MAJESTADE CXX (120) - DO QUE EU FALO QUANDO EU FALO DE CORRIDA

 Haruki Muramaki é considerado um dos mais importantes autores da atual literatura japonesa. Nasceu em Kyoto no Japão em 1949 e suas obras já foram traduzidas para 50 idiomas.

Haruki Murakami
Murakami foi (é) corredor de maratonas e atleta de triatlo e esse livro chamado "Do que eu falo quando eu falo de corrida" é um livro diferente de Murakami. Nele o escritor fala sobre sua experiência como corredor de longas distâncias - com os treinos duros, a força de vontade, a tentativa de superar as próprias marcas - e como a atividade física influencia sua vida e sua obra.

O livro trata do momento-chave que ele decidiu se tornar escritor, suas vitórias e seus desapontamentos, sua paixão por LPs e seu ritual para escrever e correr. Murakami foi dono de uma bar e em determinado momento resolveu escrever romance. Como dono de bar, dormia tarde e acordava tarde. Uma vida diferente da que ele imaginava para si e sua esposa. Escreveu seus dois primeiros romances (ou novelas como ele mesmo diz) nas madrugadas na mesa da cozinha do bar. 

Assim que vendeu o bar, começou a correr e não parou mais. Cada dia corria um pouco mais. Num trecho do livro, diz Murakami: "As pessoas às vezes zombam de quem corre todo dia, alegando que é uma tentativa desesperada de viver mais. Mas não acho que este seja o motivo pela qual a maioria corre. A maioria dos corredores corre não porque queira viver mais, mas porque quer viver a vida ao máximo."

O livro é dividido em 9 histórias contadas a partir de suas experiências com as maratonas e triatlos que foi participando. Uma passagem interessante é ele ter percorrido, na Grécia, o caminho da Maratona.

Lembrando que este nome Maratona vem da Grécia antiga quando um soldado correu da cidade de Maratona até Atenas para anunciar a vitória do exército Ateniense sobre os Persas. A distância oficial é de 42,195 km e diz a lenda que após completar o percurso o soldado morreu de exaustão.

Pois bem, Murakami se desafiou e fez o percurso dos 42,195 km na Grécia, só que ao contrário. Saiu de Atenas até Maratona. Ele correu sozinho no verão de Atenas com um calor inacreditável, segundo Murakami. Ele nunca tinha corrido mais que 35 km e a partir desse km ele começou a sentir muito. Sua energia estava batendo no fundo, mas a determinação e persistência o levou até o final, até o monumento de Maratona.

O livro todo traz boas reflexões sobre decidir e fazer as coisas. Não para os outros, mas para você. Diz Murakami: "A barreira que divide a confiança salutar do orgulho prejudicial é muito fina."

Murakami conta que correr uma maratona durante os meses frios e participar de um triatlo durante o verão se tornou o ciclo de sua vida. Isso lhe trouxe imensa felicidade, pois correr por 25 anos (até a escrita do livro em 2007) traz um monte de boas lembranças.

Murakami em suas corridas diárias

Ele ficou 10 anos pensando em escrever um livro sobre corridas, pois ele achava que "correr" é meio que um tema vago. Porém decidiu que deveria apenas escrever honestamente sobre o que pensava e sentia sobre correr.

O livro revela lições pessoais que o autor aprendeu colocando seu corpo efetivamente em movimento, descobrindo assim, que sofrer é opcional, pois um corredor de elite disse a ele certa vez: 

"A dor nas maratonas é inevitável. Sofrer é opcional. Suportar a dor é algo que cabe ao corredor."


Enfim, gostei muito do livro. Descoberto pelo meu filho Arthur (já escrevi aqui que ele tem um dom especial em descobrir excelentes livros) que também gosta de correr, o livro é bem-humorado e ao mesmo tempo sensível. 

É tanto boa leitura quanto incentivo para treino de corrida. É um livro de valor.

Professor Mario Mello

sábado, 3 de janeiro de 2026

O LIVRO SUA MAJESTADE CXIX (119) - LA CONQUISTA DE LA SOLEDAD

 Começo o ano de 2026 lendo um livro em espanhol.  Faz parte dos meus desafios como leitor e aprendiz, ler ao longo do ano alguns livros em espanhol.

O livro que trago hoje é de um autor uruguaio, Juan José Morosoli (1899 - 1957), chamado "La Conquista de la Soledad". É um livro de contos escolhidos do autor e publicado após sua morte. 

Morosoli, considerado autodidata, pois estudou somente até a segunda série, é considerado pela crítica literária do Uruguai como um dos principais "cronista de almas". É um escritor que parecia com seus personagens.

Os contos tratam da vida simples e de gente simples do interior do Uruguai. Uma marca registrada em praticamente todos os contos, é a solidão dos personagens. 

Morosoli nasceu, se criou e morreu na mesma cidade uruguaia de Minas. Isso certamente influenciou sua escrita simples e de personagens reais e interioranos.

A prosa de Morosoli, quase sempre de aspecto duro e afiado, também guarda momentos de intensa beleza e franqueza com que o autor envolve seus personagens.

Contos como "Un gaucho" conta a história de um rapaz que não conseguia parar em lugar nenhum, em serviço nenhum. O protagonista Montes dizia: "Mi pago (local) es donde yo ando".

Na última fazenda que trabalhou teve uma filha com uma empregada do local, mas nem isso fez Montes permanecer. Assim como chegou um dia, se foi em outro. Anos depois, foi visto no Chuy (fronteira com o Brasil) fazendo contrabandos. E, assim era Montes. Sem paradeiro. Até que um dia, num cortejo um moço viajante se aproximou e perguntou: é Montes? Sim confirmaram alguns. Você o conhecia? Não - disse o moço viajante - mas era meu pai.

Outro conto interessante é "El campo". Tem dois protagonistas: como diz no conto "el negro Sabino" e su patrón Correa.

Tudo mundo sabia como vivia Correa. Toda "plata" que caía em suas mãos era guardada para comprar novas terras. Correa já possuía uma interminável fazenda, mas sempre queria mais.

Um dia faleceu um vizinho Antúnez que deixara a mulher e duas filhas pequenas, com dívidas e desamparadas. Correa sem pena delas foi lá e comprou mais terras para seu deleite. E assim, foi passando o tempo. Correa não gastava dinheiro em nada. Seus mantimentos quando precisavam ser comprados era sempre em troca de alguma coisa que a fazenda produzia. Sabino era encarregado das compras. Até que um dia Correa não fazia mais trocas e começou a ficar devendo no armazém.

Correa era sozinho. Só habitavam a fazenda ele e Sabino. A doença chegou para Correa. Um dia Sabino encontrou o patão nu na porta olhando para a imensidão das terra. Foi só aí que Sabino percebeu como ela estava magro, sem músculos e com o ventre saltado. "Patrón, vaya pa dentro". Porém o patrão parecia nem ouvi-lo e nem vê-lo. Pareceu para Sabino pareceu que ele tinha olhos de vidro com reflexos para todos os lados, como se estivessem quebrados por dentro. Assim, o patrão morreu.

Tá, mas o que aconteceu depois com as terras e o negro Sabino? Essa é outra característica dos contos de Morosoli: o leitor é livre para imaginar a sequência a partir de um fato determinante.

Enfim, o livro traz 16 contos todos com muita perspicácia e com muita realidade. Há na obra do autor uma exaltação ao homem, mas não um herói corajoso com a faca na mão. São personagens capazes de entender o silêncio.

Esta edição do livro é uruguaia e foi presente do meu filho Arthur, quando da sua última viagem à Montevideo. Arthur (já escrevi em outros posts) tem uma incrível capacidade de encontrar livros excepcionais. Este é mais um dos vários que ele já "garimpou". 

Como (ainda) não existe esta edição no Brasil, faço votos de que quando forem ao Uruguai, possam adquirir o mesmo, pois vale muito a pena.

Professor Mario Mello


domingo, 28 de dezembro de 2025

O LIVRO SUA MAJESTADE CXVIII (118) - O PASSEADOR DE LIVROS

 Começo com a seguinte expressão: 

Que livro!!!

"Dizem que os livros encontram seus leitores, mas às vezes é preciso que alguém lhes indique o caminho".

Já faz alguns anos que me interesso muito por livros que falam de livros. Esse meu interesse foi despertado basicamente por um livro, "Os livros que devoraram meu pai" seguido pela "Livraria Mágica de Paris".

Hoje vou falar do livro "O Passeador de Livros". Regalo de Natal da minha nora Grazi Fachim, não esperei um dia para começar a lê-lo, pois só de ver o título sabia que fazia parte dos meus preferidos. A Grazi acertou em cheio.

É um livro novo, escrito em 2020 e só chegou ao Brasil em 2022. Escrito pelo alemão Carsten Henn (1973 - ) em seguida tornou-se um livro traduzido em mais de 25 países.

A história se passa numa cidade interiorana da Alemanha onde uma livraria tradicional da cidade, tinha o Sr. Carl Kollhoff, de 72 anos, como o funcionário mais antigo que fazia pessoalmente entregas, na cidade, de livros adquiridos por alguns clientes. Como tudo vai se "modernizando" e com a aposentadoria do proprietário Sr. Gustav, assumiu a gerência a filha Sabine que não tinha aptidão literária e muito menos simpatia para a função. Sabine, muito antipática, começou a implicar com Carl, pois muitos clientes iam à livraria e só procuravam por ele. Ou seja, seu emprego começou a ficar ameaçado. Ou melhor, a sua vida começou a ficar ameaçada, pois era na livraria que trabalhou a vida toda.

Todos os dias Carl embrulhava cuidadosamente os livros e saía para as entregas. Carl tinha seus clientes preferidos aos quais dera um nove fantasia relacionado a algum personagem dos livros que lia. 

Entre eles o Mister Darcy, muito reservado morando em uma mansão; a sra. Effi que era espancada pelo marido (isso foi descoberto pelo livreiro); a irmã beneditina Amarílis, que resistia em abandonar o convento só habitado por ela; o Doutor Fausto que se dizia professor, embora nunca tinha pisando em uma universidade; mais um personagem curioso: O Leitor era um rapaz que trabalhava numa fábrica de charutos e sua função era passar 8 horas por dia lendo livros para os funcionários que trabalhavam na produção.

Enfim, cada personagem tinha suas preferências e Carl dava suas dicas para os novos livros a serem adquiridos. 

Um belo dia, no seu habitual trajeto, Carl é seguido por uma menina de 9 anos chamada Schascha. A menina queria acompanhá-los nas entregas o que Carl não permitiu inicialmente. Porém a insistência e a esperteza de Schascha demoveu Carl da negativa. A partir daí se formou uma amizade sólida e intensa entre os dois. No choque de gerações (embora Schascha gostasse de livros) um dia Carl disse a ela:

"Cada dia mais pessoas estão lendo menos. No entanto, existem pessoas dentro das páginas. É como se cada livro contivesse um coração que só começa a bater quando é lido, porque nosso coração o impulsiona."

Várias semanas se passaram até que um dia Schascha não apareceu para acompanhar Carl. Ele não sabia onde ela morava e ficou desesperado, pois ela simplesmente não apareceu mais. Carl começou a procurá-la em escolas, porém sem sucesso.

Ela um dia reapareceu (não vou contar como para não estragar o suspense da história). 

Pois bem, muitas aventuras se passam no decorrer da história, até Carl ser despedido da livraria por Sabine. A vida dele desaba.

Quando Schascha descobre, esperta como era, a história dá uma reviravolta incrível. Menina de coração gigantesco e generoso. O final da história é muito emocionante. Aos mais emotivos, como eu, leva às lágrimas.

É um livro genial, de leitura simples que traz incríveis reflexões sobre a leitura e chama que não podemos deixar apagar dos livros. Eu acrescento: dos livros físicos. Que tenhamos ainda, muitos passeadores de livros!

Para os amantes de livros (para os iniciantes também) é uma leitura imperdível.

Obrigado Grazi, pelo presente. Sabe aquele presente certeiro? Pois este é.

Professor Mario Mello


terça-feira, 23 de dezembro de 2025

O LIVRO SUA MAJESTADE CXVII (117) - MEDITAÇÕES

 O livro trata de anotações pessoais do Imperador Romano Marco Aurélio, que foram escritas entre os anos 170 e 180 d.C. Impressiona como essas anotações em sua maioria se aplicam até os dias de hoje.

Dividido em 12 chamados livros, a obra tornou-se um dos escritos mais reveladores e inspiradores a respeito do pensamento de um grande líder.

O livro não é propriamente uma obra literária ou filosófica, mais sim uma espécie de diário em que Marco Aurélio registrou reflexões registradas a si mesmo.

Marco Aurélio, ou Marcus Aurelius Antoninus, nasceu em 26 de abril de 121 d.C. foi um "homem bom". Ele foi um dos Imperadores mais cultos, inteligentes e estudioso em filosofia. Toda sua educação foi diversificada e obtida de professores particulares. Marco Aurélio nunca foi seduzido pelo poder para humilhar os mais fracos.

Após a morte do pai, Annius Verus, Marco Aurélio ficara aos cuidados da mãe e do avô paterno, mas ainda adolescente foi adotado pelo Imperador Antonino Pio e assim, como herdeiro, assumiu o governo do Império Romano aos 40 anos, em 162 d.C., após a morte de Antonino. O Imperador Antonino, pai adotivo de Marco Aurélio é considerado por muitos historiadores como o mais digno de todos os imperadores de Roma.

Marco Aurélio reinou de 161 d.C. a 180 d.C. Além dos horrores da guerra e do combate aos inimigos do Império, uma epidemia veio a ceifar a vida de seus comandados e soldados. Atingido por este mal, o devotado imperador, que jamais gozara de vigor físico, extenuado e condenado ao leito faleceu em 9 de abril de 180 d.C., deixando como principal marca a bondade de um imperador e a manutenção das fronteiras do poderoso Império Romano.

Estátua de Marco Aurélio em Roma
A postura filosófica de Marco Aurélio está sintetizada em três princípios:

1-Prática das virtudes, que significa repúdio aos vícios e ao mal em geral;

2-Devoção religiosa, culto aos deuses e obediência às leis;

3-Em todas ações virtuosas, ter em vista sempre o interesse da comunidade e não o individual.



Trago aqui algumas passagens que mais me chamaram a atenção no livro.

"Acolhe a alvorada já dizendo, antecipadamente, para ti mesmo: vou topar com o indiscreto, com o ingrato, com o insolente, com o pérfido, com o invejoso, com o insociável. Todas essas qualidades negativas lhes ocorrem por conta da sua ignorância do bem e do mal. Não sou capaz de enraivecer contra meu semelhante nem de odiá-lo, pois nascemos para mútua cooperação e assistência."

"Corpo, alma, inteligência, no corpo as sensações, na alma os impulsos, na inteligência os princípios."

"A melhor forma de se defender das pessoas hostis é não se tornar semelhante a elas."

"Nas ações, não haja de maneira precipitada nem de maneira lânguida ou negligente; nas conversas, não seja criador de confusão e de desentendimento; nas ideias não te desorientes perdendo a coerência; na tua alma, de modo algum, te contraias sob o peso das preocupações nem te distrais fugindo delas; e não ocupes tua vida inteira com negócios e dificuldades dispensando o ócio." 

"Tu és a combinação de três coisas nomeadamente: um corpo precário, um sopro de vida, uma inteligência. Dessas coisas, as duas primeiras só são tuas na medida em que te ocupes e te empenhes em cuidar delas; somente a terceira é propriamente tua, legitimamente tua."

Assim, o livro traz reflexões sobre as virtudes, a felicidade, a morte, as paixões e a harmonia com a natureza e a aceitação de suas leis. A personalidade de Marco Aurélio se impõe como marca de grandeza, coerência, benevolência e compreensão.

Como disse antes, não se trata de uma obra filosófica mas sim de uma obra atemporal e universal, pois todos os temas abordados continuam relevantes centenas de anos após a escrita.

Vale muito a pena a leitura!

Boa leitura!

Professor Mario Mello




sexta-feira, 12 de setembro de 2025

O LIVRO SUA MAJESTADE CXVI (116) - O TESOURO DO ARROIO DO CONDE

 O livro dificilmente é apenas o livro em si. Cada leitor normalmente tem uma história para adquirir um exemplar.

Muitas vezes é uma indicação de um amigo, outras vezes é a inquietação do título, ainda pode ser a época em que foi escrito, pode também ser pelo autor renomado, enfim, por vários motivos.

Pois bem, este livro que trago hoje, estava citado em outro livro cujo personagem o tinha como "uma relíquia" pela situação que ele conheceu o livro. Lendo este outro livro chamado "Histórias escritas com giz", de Vitor Biasoli, fiquei muito curioso sobre "O tesouro do Arroio do Conde" e comecei a procurá-lo na internet, em vários sebos, pois ele foi escrito em 1933 por Aurélio Porto.

Esta é uma das "graças" deste mundo da literatura. Garimpar livros, muitas vezes aleatórios mas que têm um valor imenso quando conseguimos nosso intento. E, mais ainda quando a história é boa. É o caso do Tesouro do Arroio do Conde. O livro ainda traz ilustrações quase que infantis, mas todas com muito sentido.

É uma novela histórica do Rio Grande do Sul. Consegui em um sebo, uma versão adaptada por Barbosa Lessa, escritor e historiador gaúcho publicada em 1986.

A história se passa no tempo em que portugueses e espanhóis disputam terras no sul do Brasil e Uruguai. O cenário é em Porto Alegre, Rio Pardo, Charqueadas  e no Arroio do Conde, que é um rio que desagua no Guaíba.

Com vários personagens importantes, chama a atenção alguns deles: Na casa sede da Estância Santa Isabel, havia riqueza e muita fartura nas charqueadas de Manuel Bento e Dona Isabel. Porém o casal não era totalmente feliz, pois não conseguia ter filhos. Assim, numa noite de setembro de 1762, Dona Isabel despertou com um chorinho de bebê, deixado na soleira da porta. Era uma menina que foi batizada com o nome de Maria Teresa, nossa protagonista da história.

Dona Isabel de tão agradecida, sem contar para ninguém, retirou de seus pertences um velho cofre e foi escondê-lo numa parede falsa da capela da estância. Regularmente Dona Isabel, guardava jóias e ouro, no cofre escondido para garantir o futuro de Maria Teresa, pois as guerras eram constantes.

E assim, Maria Tereza foi crescendo e seu cofre aumentando de valor, sem ela saber de nada.

No decorrer da história entram na vida de Maria Teresa um vizinho, José Raimundo, que se transformou num bandido, para vergonha de sua mãe. José Raimundo se apaixonou por Maria Teresa que o renegou, pois estava apaixonada pelo Tenente Paulo Caetano.

O final da história, que obviamente não vou aqui contar para não estragar a leitura de quem conseguir o livro, está relacionado a esses três personagens. O final é surpreendente deste clássico gaúcho.

Onde foi parar o tesouro? 

Pois até hoje esta lenda persiste pelas bandas do Arroio do Conde.

Fiquei encantado e emocionado com a história. Valeu a pena correr atrás deste livro.

Professor Mario Mello

sábado, 14 de junho de 2025

O LIVRO SUA MAJESTADE CXV (115) - RESTAURANTE AUGUSTO - HISTÓRIAS DE UMA SANTA MARIA QUE NÃO EXISTE MAIS

 Ainda me deliciando com meus presentes de aniversário deste ano de 2025. Trago aqui um livro que remete à lembranças incríveis de uma Santa Maria que não existe mais.

Presente da minha nora Grazi, o livro traz muitas histórias do extinto Restaurante Augusto que por décadas serviu de ponto de encontro de pessoas comuns e anônimas, como também recebeu personalidades nacionais e internacionais.

Certamente uma grande parcela de moradores de Santa Maria e região, ao ler este livro voltará no tempo e terá recordações incríveis de suas histórias e de outras histórias. 

O Restaurante Augusto faz parte da história de Santa Maria e quando no título do livro diz "de uma Santa Maria que não existe mais", o autor Savio Ausgusto Werlang, não só infere mas deixa explícito que muitos personagens, passagens da história de Santa Maria, se relacionam direta ou indiretamente com o Restaurante Augusto.


O Restaurante conhecido no Brasil pelo prato que representa Santa Maria, o famoso galeto com polenta e radiche, prato criado pelo Augusto na década de 60 e que sempre foi o principal do restaurante até seu fechamento.

Inaugurado em maio de 1968, pelo seu Augusto, passou a ser gerenciado pelo genro Marco Fank e pelo filho Augustinho em 1987. Em outubro de 2018, em trágico acidente de trânsito, Marco Fank faleceu. Este acontecimento foi determinante para o triste fim do Restaurante Augusto, que encerrou suas atividades em 31 de janeiro de 2019.


Os garçons do Augusto é um capítulo à parte. Um deles, Severo com mais de 30 anos de casa, foi tema de uma crônica do escritor gaúcho Carpinejar que relata que jamais imaginou encontrar um garçom feliz. Severo era assim mesmo: sempre com um sorriso no rosto. No meu caso dos mais de 40 anos frequentando o restaurante eu atendido ou pelo Alemão ou pelo Derci. Sempre um atendimento cordial e atencioso.

Outro personagem marcante foi o Luis Eduardo responsável pelo caixa e por receber os pedidos de tele-entrega por longos 26 anos. Ou seja, o restaurante Augusto era aquele lugar para encontrar as mesmas pessoas e isso o tornou por anos um ambiente único.

Sempre durante o almoço ou janta, uma figura ímpar e conhecidíssima de Santa Maria, passava entre as mesas oferecendo bilhetes de loteria. Paulo Neron Rodrigues, o Paulinho Bilheteiro era portador de nanismo o que o tornava ainda mais querido por todos.

Que saudades deste bom tempo.

Enfim, o livro é cheio de histórias que nos remetem a um passado não muito distante, porém muito saudoso. Quem viveu estes anos do Restaurante Augusto em Santa Maria, certamente tem suas histórias para contar. 

Há uma saudade boa que fica quando lembramos de um restaurante que marcou gerações ao longo de décadas. Mais do que um lugar para refeições, ele foi cenário de encontros, celebrações, conversas e memórias que atravessaram o tempo. O aroma, o ambiente acolhedor e os rostos conhecidos formaram uma experiência única, que agora vive nas lembranças de todos que tiveram o privilégio de desfrutar do Restaurante Augusto.

Boa leitura!

Professor Mario Mello

PS: Mais uma vez, obrigado Grazi Fachim pelo presente, pois me fez voltar no tempo e ter boas lembranças.