sábado, 28 de dezembro de 2024

O LIVRO SUA MAJESTADE CIII (103) - POETAS DE LISBOA

Ler poesia é uma experiência incrível, capaz de ampliar nossa visão de mundo e conectar-nos com diferentes culturas, emoções e perspectivas.

Os versos, cuidadosamente escritos, têm o poder de nos transportar para outras realidades e alimentar a alma.

 Meu último post de 2024 é muito especial.
Trata-se de um livro ganho da minha filha Laura, que recentemente esteve em Portugal e o trouxe de presente para mim. 

O livro chama-se "Poetas de Lisboa" e foi comprado na Livraria Bertrand, em Lisboa, que segundo eles é a livraria mais antiga do mundo. 

Inclusive, os livros lá comprados ganham um carimbo na primeira página, alusivo a este título.

Carimbo da Livraria Bertrand
É uma edição bilingue (português/espanhol) muito bonita com gravuras dos cinco poetas que o livro traz.


Desde os célebres Luis de Camões e Fernando Pessoa, acompanhados de alguns heterônimos deste último, se unem outros três poetas amplamente admirados no mundo de língua portuguesa: Cesário Verde, Mário de Sá Carneiro e Florbela Espanca.



Você já leu Camões? Pois é, o livro começa com este que é uma das maiores figuras da literatura ocidental. São dez poesias deste incrível poeta. Trago uma de suas poesias: 
Luís de Camões (1524 - 1580)

"O amor é fogo que arde sem se ver,
É ferida que dói e não se sente,
É um contentamento descontente,
É dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer,
É um andar solitário entre a gente,
É nunca contentar-se de contente,
É um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade,
É servir a quem vence o vencedor,
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humano amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?"




O segundo poeta do livro é Cesário Verde. Mestre de Fernando Pessoa, é considerado o fundador da Poesia Modernista em Portugal. Morreu muito jovem, com apenas 31 anos. Leiam um trecho de uma de suas poesias chamada "Impossível":

"Nós podemos viver alegremente,
Cesário Verde (1855-1886)
Sem que venham, com fórmulas legais,
Unir as nossas mãos, eternamente,
As mãos sacerdotais.

Eu posso ver os ombros teus desnudos,
Palpá-los, contemplar-lhes a brancura,
E até beijar teus olhos tão ramudos,
Cor de azeitona escura.

Eu posso dar-te tudo, tudo,
Dar-te a vida, o calor, dar-te cognac
Hinos de amor, vestidos de veludo,
E botas de duraque.

Posso ser teu amigo até à morte,
Sumamente amigo! Mas por lei,
Ligar a minha sorte à tua sorte,
Eu nunca poderei!

Eu posso amar-te como o Dante amou,
Seguir-te sempre como a luz ao raio,
Mas ir, contigo, à igreja, isso não vou,
Lá nessa é que eu não caio!"


Seguimos com Mário de Sá Carneiro. Fundador da Revista Orpheu, que marca a introdução do movimento modernista em Portugal, também morreu muito jovem, com apenas 25 anos. A sua poesia, quase que autobiográfica denotava uma especie de depressão que somada à dificuldades financeiras, infelizmente o levaram ao suicídio. Vejam um trecho da poesia chamada "Dispersão":

Mário de Sá Carneiro (1890-1916)
"Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto,,
E hoje, quando me sinto, 
É com saudades de mim.

Para mim é sempre ontem,
Não tenho amanhã nem hoje:
O tempo que aos outros foge
Cai sobre mim feito ontem.

As minhas grandes saudades
São do que nunca enlacei.
Ai, como eu tenho saudades
Dos sonhos que não sonhei!

E tenho pena de mim,
Pobre menino ideal...
Que me faltou afinal?
Um elo? Um rastro?... Ai de mim!..." 




As próximas poesias do livro são de Florbela Espanca. Também da geração da Revista Orpheu, Sua poesia desfrutou de uma popularidade duradoura, alcançando um amplo público e influenciando a obra de vários autores, músicos e cantores. Infelizmente, como Mário de Sá Carneiro, de quem foi contemporânea, também suicidou-se, exatamente no dia de seu aniversário de 36 anos. Leiam "Os versos que te fiz":

Florbela Espanca (1894-1930)

"Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer!
São talhados em mármore Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.

Têm dolências de veludos caros,
São como seda pálidas a arder...
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer!

Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda...
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz!

Amo-te tanto! E nunca te beijei...
E nesse beijo, Amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!"





Para fechar o livro com chave de ouro, nada mais nada menos que Fernando Pessoa. Um dos mais relevantes escritores portugueses é um dos maiores poetas da era moderna. Também pertenceu a geração da Revista Orpheu que introduziu o movimento modernista português. Fernando Pessoa criou três heterônimos: Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos, cada um com sua própria personalidade.

 Fernando Pessoa imortalizou-se por uma de suas frases na poesia chamada "Mar Português":
Fernando Pessoa (1888-1935)
"Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena."

Uma das poesias do livro é "Autopsicografia":
"O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm,

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama o coração."


Assim, neste fantástico livro "Poetas de Lisboa", ao folhear suas páginas, encontramos não apenas palavras, mas também sentimentos, histórias e verdades universais que ressoam em nossas próprias vivências.

Ler poesia é, portanto, um ato de descobrimento e contemplação, que nos enriquece intelectualmente e nos eleva espiritualmente. Além disso, a poesia nos ensina a apreciar a beleza das palavras e a profundidade dos significados, cultivando nossa sensibilidade e criatividade.

Boa leitura e que venha 2025!

Professor Mario Mello

Obrigado Laura Zago de Mello e Rodrigo Martins pelo belo presente. 
Este livro estará na galeria dos meus preferidos. 😍




segunda-feira, 23 de dezembro de 2024

O LIVRO SUA MAJESTADE CII (102) - FOCO ROUBADO

 

O livro "Foco Roubado" foi eleito um dos melhores do ano de 2024 pela Amazon e pela Financial Times.

Abordando o tema dos ladrões de atenção da vida moderna, traz reflexões para nos ajudar a fazer mudanças pessoais e também aborda os riscos para a sociedade.

E um livro de Johann Hari que explora o declínio da capacidade de concentração das pessoas na era moderna.

Hari investiga as razões pelas quais nossa atenção está cada vez mais fragmentada, apontando para fatores como o design das tecnologias digitais, as redes sociais, o excesso de informações e a pressão do mundo do trabalho.

O autor defende que a perda de foco não é apenas um problema individual, mas um fenômeno sistêmico, provocado por estruturas econômicas e sociais que priorizam o lucro em detrimento do bem-estar humano.

Hari também destaca os impactos negativos disso na criatividade, produtividade e nos relacionamentos interpessoais.

Uma passagem marcante de Foco Roubado é quando Johann Hari descreve sua experiência pessoal em uma tentativa de "reconquistar sua atenção".
Johann Hari

Ele decide passar três meses desconectado da internet em uma ilha, sem e-mails, redes sociais ou notificações. Durante esse período, ele percebe o quanto seu pensamento estava condicionado à distração constante. Ele relata que, inicialmente, sua mente parecia "gritar" por estímulos, mas, aos poucos, ele conseguiu acessar níveis mais profundos de reflexão e criatividade.

Hari usa essa experiência para ilustrar como o ambiente moderno é projetado para capturar e manter nossa atenção, impedindo-nos de alcançar estados de foco prolongado. 

Ele argumenta que a perda de foco não é uma falha moral ou falta de disciplina pessoal, mas uma consequência de sistemas intencionalmente criados para fragmentar nossa atenção em benefício das empresas de tecnologia. A passagem é um chamado à ação, ressaltando que recuperar o foco exige mudanças estruturais e não apenas esforços individuais.

Outra passagem marcante é quando Hari menciona a ideia da semana de 4 dias de trabalho como uma solução promissora para recuperar a atenção e o equilíbrio na vida moderna.

Ele cita estudos e exemplos de empresas que adotaram a prática, mostrando como a redução da jornada de trabalho pode aumentar a produtividade, melhorar a saúde mental e permitir que os funcionários tenham mais tempo para atividades que exigem foco profundo, como ler, refletir e se conectar com outras pessoas.

Ele aponta que a sobrecarga de trabalho e a pressão para estar sempre ocupado são grandes vilões da atenção. Com menos horas de trabalho, as pessoas conseguem desacelerar, o que cria condições para um pensamento mais claro e focado.

Enfim, quase finalizando o ano de 2024, é uma leitura marcante, pois leva o leitor a refletir sobre o "bombardeio" de informações e redes sociais a que está sujeito todo dia.

Um jornal de São Francisco (EUA) escreveu sobre o livro: "Outros livros tendem a se fixar na responsabilidade pessoal, enfatizando a importância do autocontrole, mas Foco Roubado, vai além e examina o ecossistema que criou o problema".

Ao final Hari apresenta soluções práticas e coletivas, como a regulação das grandes empresas de tecnologia, a redefinição de prioridades sociais e o cultivo de hábitos que promovam um foco mais profundo e intencional. 
É uma leitura que convida à reflexão sobre como recuperar nossa atenção em um mundo cada vez mais acelerado e distraído.

Boa leitura!!

Professor Mario Mello


sábado, 2 de novembro de 2024

O LIVRO SUA MAJESTADE CI (101) - AS PIORES DECISÕES DA HISTÓRIA E AS PESSOAS QUE AS TOMARAM

 Começo o post dizendo: livro sensacional e intrigante.

O livro descreve inúmeras situações de erros memoráveis e quem os cometeu. Muitos vezes os erros foram cometidos por pessoas bem intencionadas, mas foram erros históricos.

O livro parte da antiguidade e chega aos tempos modernos. São 50 descrições das piores decisões tomadas por alguém ao longo dos tempos.

O bacana, também, no livro e que ele traz uma "medida" para os erros cometidos. A medida traz a motivação por: ganância, ira, caridade, inveja, orgulho, fé e preguiça. Ou seja, cada decisão trágica tomada ao longo da história, tem sua medida do erro.

Outra coisa legal no livro, são as ilustrações. Cada história tem seu personagem e ilustrações de mapas, fatos ou fotos de sua época.

O livro começa trazendo as decisões de Adão e Eva e vai viajando por  Cleópatra, O cavalo de Tróia, O Rei Leopoldo e a partilha da África, o erro de Chernobyl, Wall Street entre outros tantas decisões catastróficas.

Vou trazer aqui algumas decisões que me chamaram mais a atenção.


Começo por Nero (37-68 d.C.) e o incêndio de Roma. Sua motivação foi por ganância e luxúria. O dano resultante foi a destruição de sua própria cidade, para abrir espaço para um novo palácio. 

Durante seis dias e sete noites grassou a destruição, enquanto o povo era conduzido em monumentos e tumbas. Nero jamais se recuperou totalmente do grande incêndio. Os danos foram imensos e os ônus sobre a população, gravíssimos. 

Nero matou-se quando um esquadrão de execução se aproximava dele, e disse suas últimas palavras: "Que artista o mundo está perdendo."




Outro capítulo do livro é sobre Stalin e o grande expurgo que aconteceu de 1936 até 1938. O principal culpado foi Joseph Stalin (1879-1953) cujo principal dano resultante foi a destruição da elite do exército soviético, assim como de milhões de russos. 

A motivação foi por orgulho e paranoia do todo-poderoso. Esse fato foi um dos fatos que inspiraram George Orwell a escrever o lendário livro "A revolução dos bichos". Stalin receava constituir um quadro militar profissional capaz de desafiar os questionar a revolução e, assim, por orgulho destruiu a elite do exército. 

Esse erro com a destruição do exército, despertou em Hitler a oportunidade de ter vitórias avassaladoras sobre o exército vermelho. O fato de os danos não terem sido fatais para a revolução soviética, decorreu da disposição dos russos de morrer pela pátria.


Outra das piores decisões da história, foi tomada por Winston Churchill (1874-1965). Embora Churchill seja considerado um dos heróis da Segunda Guerra Mundial, também tomou uma decisão equivocada com sérias consequências. 

Chamada no livro como "Winston Churchill e o desastre de Gallipoli" teve um dano resultante com mais de 400.000 mortos. Gallipoli é uma península na Turquia, banhada pelo Mar Egeu e pelo estreito de Dardanelos. Seu nome vem do grego significando cidade bonita. 

O dano causado por orgulho, vaidade e ataque insensato contra uma península quase que inexpugnável, destruiu mais de um terço das Forças Armadas da Australia e Nova Zelândia. Churchill, ainda jovem, era o primeiro lorde do almirantado do Reino Unido e estava ansioso por entrar na guerra. 

Porém, a guerra era terrestre e não naval. O ataque com uma flotilha de 16 navios, tentou entrar no estreito de Dardanelos e sofreu grandes perdas sem nenhum progresso. Disse um dos comandantes da frota sobre Churchill: "Toda essa manobra tem forte cheiro de Gallipoli e, aparentemente, o amador ainda está no banco do treinador." Esse episódio entrou na história de Austrália e Nova Zelândia, pois foi a primeira vez que esses novos países independentes entraram em batalha e sofreram um revés tão grande.

Enfim, o livro e interessantíssimo, pois conta esses erros memoráveis da história. O livro mostrou, também, que grandes erros aliados a motivações duvidosas só podem terminar mal.

Como diz George Santayana, filósofo e escritor:

"Aqueles que não conseguem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo."

Boa leitura!

Professor Mario Mello


quinta-feira, 22 de agosto de 2024

O LIVRO SUA MAJESTADE C (Cem) - Pequenos trechos de 10 livros entre os 100 aqui publicados

 





Ao completar minha CENTÉSIMA postagem sobre O LIVRO SUA MAJESTADE, vou trazer neste post alguns pequenos trechos de 10 livros. Teria passagens interessantes de todos os 100 livros, mas para não ficar "textão", escolhi 10 que gostei muito. Não estão em ordem de preferência nem de postagem, pois não saberia ranqueá-los. Lá vai, então:






1. O Conde de Monte Cristo: "Aprender não é saber; há sabidos e sábios; é a memória que faz os primeiros, é a filosofia que faz os outros". "As feridas morais têm uma particularidade: elas se escondem, mas não se fecham. Sempre dolorosas, prontas a sangrar quando tocadas, elas permanecem vivas e abertas no coração."


2. Musashi: "Não perca tempo e energia querendo ser igual a esse ou aquele homem. Em vez disso, veja se consegue ser uma personalidade sólida, inabalável como o monte Fuji. Se conseguir, não terá de se preocupar em impressionar as pessoas, pois elas o olharão com respeito naturalmente."                                                                                          "O sol já se punha a meio no extremo da campina. Gonnosuke apressou-se a seguir caminho, puxando o cavalo pela rédea: o animal tinha sido emprestado ao seu mestre, e não a ele. Ninguém estava ali para conferir, mas ele jamais o cavalgaria."
3. A Desobediência Civil: "O que faz falta são homens constituídos não de astúcia, mas de probidade."
"Quando queremos mais cultura do que batatas, e mais esclarecimentos do que guloseimas, então os verdadeiros grandes recursos de um mundo são explorados e extraídos, e o resultado, não são escravos ou operários, mas homens."

4. Duas Mulheres da Galileia: "A verdade era que eu não tinha intenção de ouvir os discursos ou conhecer os ensinamentos de Jesus. Queria apenas que ele salvasse minha vida. Uma vergonha momentânea tomou conta de mim, algo incomum para a esposa do procurador de Herodes."


5. O Cavaleiro Inexistente: "Muitas vezes o poder absoluto faz perder todo o freio mesmo aos monarcas mais justos, gerando, assim, o arbítrio.""


6. O Barão nas Árvores: "A loucura é uma força da natureza, no mal ou no bem, enquanto a cretinice é uma fraqueza da natureza, sem contrapartida."

Livros 4, 5 e 6


7. Ariadne contra o Minotauro:
"Muitas pessoas conhecem a existência desse subterrâneo? Somente eu e o rei Minos. E os operários? Os escravos que os cavaram? Não seja ingênua. Em casos como este, eles são mortos após a conclusão da obra. Segredo de estado."
"O mito fica a meio caminho entre a fé e a razão, entre fantasia e a informação."


8. A Boneca de Kokoschka: "Não é o tempo que nos envelhece, é o tempo mal gasto. É o contexto que cria a arte e o drama, a desgraça e a felicidade."  "A memória é como uma boneca russa, cheia de camadas, cada uma delas escondendo outra parte da nossa história." 
 "No fundo, todos somos bonecas, modelados pelas mãos do tempo e da experiência, carregando as marcas de quem nos moldou."
9. A Divina Comédia:

"Não há maior dor do que recordar a felicidade nos tempos de miséria."
"Quem és tu que queres julgar, com vista que só alcança um palmo, coisas que estão a mil milhas?"

"A vontade, se não quer, não cede, é como a chama ardente,
que se eleva com mais força quanto mais se tenta abafá-la."

"A contradição não consente o arrependimento e o pecado ao mesmo tempo." 

"A fama que se adquire no mundo não passa de um sopro de vento, que ora vem de uma parte, ora de outra, e assume um nome diferente segundo a direção de onde sopra."








10. A Livraria Mágica de Paris: "As burrices do amor são as mais bonitas. Mas, se paga muito caro por elas." 

"O hábito é um deus perigoso, vaidoso. Não permite que nada interrompa seu reinado. Mata um desejo atrás do outro." 
"Perdu utilizava os ouvidos, os olhos e o instinto. A partir de uma simples conversa, era capaz de identificar em uma alma o que lhe faltava."

"Eu vendo livros como remédios. Existem livros que servem para um milhão de pessoas; outros para uma centena apenas. Há até remédios, perdão, livros que são escritos para uma única pessoa."

"Ouvir em silêncio era a base para a avaliação profunda da alma."


Assim, depois desta pequena retrospectiva, quero agradecer meus amigos que ao longo dos últimos 10 anos prestigiaram, com sua visita e leitura, este Blog.



Já são mais de 54.000 visitas desde que o Blog foi criado.

Estou muito contente, pois o objetivo do blog é proporcionar informações e entretenimento aos leitores, ao mesmo tempo em que me permite desfrutar do processo criativo. É uma alegria poder compartilhar conteúdos que possam agregar valor a quem os consome, enquanto também encontro satisfação e prazer na escrita.
Assim, o blog se torna um espaço de troca mútua, onde cada postagem é uma oportunidade de aprendizado e diversão, tanto para mim quanto para quem o acompanha.


Obrigado!!!!

Professor Mario Mello

sábado, 17 de agosto de 2024

O LIVRO SUA MAJESTADE XCIX - O GUARDIÃO DE LIVROS

 Sempre que vejo livros falando sobre livros tenho uma enorme curiosidade e atração para lê-los. Descobri este livro por uma "dica" de minha sobrinha Carla Cielo, que como eu adora livros.

Assim foi com o livro "O Guardião de Livros" escrito em 2010 por Cristina Norton. Trata-se de um livro de não ficção ficcionada, como diz a autora. São personagens reais que tiveram um pouco de ficção, porém a autora diz não revelar. Diz a autora: guardo o segredo de quais são as partes ficcionadas e quais não são. 

O livro trata da chegada da Família Real ao Brasil em 1808, ou melhor da saída da Família Real de Portugal. Com a invasão de Napoleão Bonaparte em Portugal, D. João VI se viu obrigado a abandonar Portugal.

D. João VI sempre foi interessado por livros e tinha a Real Biblioteca do Palácio da Ajuda em Lisboa. Mandou seus bibliotecários acondicionarem toda a valiosa biblioteca em caixas para serem transportadas ao Brasil. O que aconteceu foi que a pressa da partida em 1808, fez com que as caixas com todos os livros e documentos da biblioteca, ficassem esquecidas no cais do porto durante a apressada saída da corte portuguesa.

Porém, três anos depois D. João VI ordenou que novamente tudo fosse encaixotado e remetido ao Brasil e quem deveria acompanhar o tesouro era o jovem bibliotecário Luís Joaquin do Santos Marrocos, que é nosso protagonista da história. 

Marrocos vem contra sua vontade ao Brasil. Nos primeiros meses se comunica com o pai (e família), também bibliotecário em Lisboa, sempre denegrindo a imagem do Rio de Janeiro dizendo que que vinha de Lisboa desmaiava e esmorecia, pela cidade fétida e cheia de "pretos". Marrocos adoece logo em seguida e passa muito mal. Antes disso já tinha comprado um escravo que foi quem o ajudou a superar as enormes dificuldades de adaptação. 

Com o passar do tempo, Marrocos foi apresentado a uma família que veio de Portugal, mas os filhos eram brasileiros. Conheceu Ana por quem se apaixonou loucamente. Ana engravidou antes do casamento o que era uma desonra para toda a família. A história gira muito em cima deste episódio que modifica a vida de Marrocos e da família de Ana.

Aí vem passagens como uma escrava muda que revela um segredo de 200 anos, um escravo que se apaixona por quem não deveria, a família de Marrocos em Portugal que não aceita ele se casar com uma brasileira, a amizade de Marrocos com D. Pedro I, que o impede de regressar a Portugal, as aventuras amorosas de D. Pedro I e as providências de seu pai para esconder os escândalos. 

Cristina Norton
Enfim, a autora que a partir de uma profunda pesquisa nos arquivos das bibliotecas do Brasil e Portugal, analisou 186 cartas que Marrocos escrevia ao pai e cujas respostas foram mínimas a estas cartas gerando um grande e irrecuperável desgosto em Marrocos, nos traz este romance incrível, apaixonante e que resgata uma parte importante da história do Brasil.

Um livro super interessante que traz muitos fatos históricos tanto do Brasil como de Portugal e que também mostra o desassossego de pessoas, como do protagonista Marrocos, com a saída compulsória de Portugal. Mostra ainda a arrogância e a discriminação de alguns portugueses da época com o Brasil.

É uma leitura imperdível tanto para entretenimento como para relembrar fatos históricos do nosso Brasil colônia.

Boa leitura!!!

Professor Mario Mello


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sábado, 1 de junho de 2024

O LIVRO SUA MAJESTADE XCVIII - A VERGONHA

 Annie Ernaux (1940 - ) foi ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura em 2022, pelo conjunto da sua obra.

Trago aqui, minha visão sobre o terceiro livro que leio da premiada autora.

"A vergonha" trata de uma parte da vida de Annie. Retrata suas lembranças de quando tinha 12 anos.

É uma história de certa forma triste, pois na França dos anos 1950, 1960, as classes sociais eram bem distintas e Annie não era de uma classe social privilegiada.

"Toda a nossa existência se tornou sinal de vergonha. O mictório que ficava no pátio, o quarto compartilhado - no qual eu dormia com meus pais, devido à falta de espaço, os tapas e palavrões da minha mãe..." Assim, é parte da narrativa de Annie sobre sua vida à época.

Eles tinham um pequeno mercado na cidade de Y na região da Normandia, porém pouco lucrativo, pois as vendas "fiado" para famílias pobres, trazia problemas de sustentabilidade para o negócio.

A passagem mais forte no livro, segundo minha interpretação, é quando a autora descreve que num domingo de junho, no começo da tarde o pai tentou matar a mãe dela. Conta Annie, que após uma discussão dos dois, a mãe gritou por socorro e quando Annie chegou, viu o pai convulsivo e ofegante com uma foice na mão aos gritos que a mataria.

Com a chegada de Annie o fato não se consumou e não tocaram mais no assunto nos dias e anos seguidos. A cena nunca mais se repetiu e o pai de Annie, morreu justamente num domingo de junho, quinze anos depois.

A Annie de hoje
"Era normal sentir vergonha", escreve Annie, sentimento esse que a acompanharia para o resto da vida. A vergonha é uma obra profundamente introspectiva e reveladora, onde a autora explora as complexas emoções associadas à vergonha e ao trauma pessoal.

Outra passagem interessante do livro é parte onde a autora descreve a escola particular que frequentou até certo tempo. A forte influência religiosa na escola (era administrada por padres e freiras), a rigidez dos tratamentos, a segregação das alunas (mais ricas-menos ricas) até mesmo no pátio da escola. Tinha pátios diferentes para quem pagava mais pelo ensino. 

Com uma prosa crua e direta, Annie disseca suas próprias experiências e sentimentos, oferecendo ao leitor uma visão nua e honesta de como eventos passados moldam nossa identidade e nossa compreensão do mundo.

Enfim, "A vergonha" é uma leitura que convida os leitores a refletirem sobre as suas próprias vivências de vergonha e os impactos duradouros dessas emoções. O livro é um testemunho poderoso da capacidade da literatura de iluminar aspectos íntimos e universais da experiência humana, e da coragem necessária para entender verdades pessoais.

Repito o que escrevi em outra postagem sobre os livros de Annie: é uma "jóia".

Boa leitura!

Professor Mario Mello

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quarta-feira, 22 de maio de 2024

O LIVRO SUA MAJESTADE XCVII - ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS

 Resolvi revisitar algumas fábulas como Alice no País das Maravilhas. Li este livro pela primeira vez há muitos anos atrás e não lembrava direito da história e dos personagens.

Lewis Carroll
A história escrita por Lewis Carroll (pseudônimo de Charles Lutwidge Dodgson, 1832-1898) foi publicada em 1865 e tornou-se uma das obras mais célebres da literatura "nonsense".

A menina Alice, da fábula, é uma "pessoa de verdade" chamada Alice Liddell (1852-1934) que conviveu com o escritor por vários anos de sua infância, pois Lewis Carroll era um reverendo anglicano britânico e professor de matemática. Além disso foi um excelente fotógrafo. Sua ligação com a família Liddell era muito próxima. Começou a despertar desconfiança na mãe de Alice, e houve então um rompimento das relações com a família. 

Até hoje pesquisadores da vida de Lewis Carroll, que tinha uma paixão platônica pela menina, não têm respostas para esta dúvida sobre a vida de Carroll.

Porém, como diz a tradutora da obra, Marcia Heloisa, sobre a vida de Carroll: "no terreno desconfortável da dúvida, entendi o que deveria fazer nesta introdução: deixar Dodgson, na sombra, lugar que ele sempre preferiu, e levar Alice para a luz."

Linda edição da Darkside
A história, cheia de personagens únicos que habitam um lugar peculiar, para onde Alice foi transportada após cair numa toca de coelho.

A trama é uma mistura de aventuras e desafios, onde Alice tenta navegar e entender as regras do País das Maravilhas, um lugar onde nada é o que parece.

Ao longo da narrativa, Alice encontra personagens icônicos como o Gato Risonho, a Lagarta Azul, o Chapeleiro Maluco, a Lebre de Março, o Coelho Branco, a Tartaruga de Mentira, a Rainha de Copas, entre outros.

Cada encontro com esses personagens é marcado por diálogos enigmáticos (característica do escritor que revela uma lógica do absurdo) e situações irracionais que desafiam a lógica e as convenções do mundo real.

Alice, a Lebre de Março e o Chapeleiro

Uma passagem interessante do Chapeleiro é que ele passava o tempo inteiro tomando chá (uma alusão aos britânicos). Só, que ele não lavava a louça, porque não tinha tempo, e então, ficava fazendo rodízio na mesa onde tinha xícaras limpas (dá para ver na figura ao lado várias xícaras posicionadas). Achei genial esta passagem.

Aliás, o livro é todo ilustrado para mostrar os bizarros personagens que conviveram com Alice. 

O capítulo que mais gostei, foi quando Alice entra no jardim da Rainha e encontra três jardineiros pintando rosas brancas com tinta vermelha. 

Chegando perto Alice presenciou o seguinte diálogo: "Preste atenção, Cinco! Está me sujando de tinta. Foi sem querer, pois o Sete me deu uma cotovelada. Sempre botando a culpa nos outros, disse Dois."

A Rainha, O Rei, O Valete e seus súditos eram cartas de um baralho. Por isso no diálogo anterior os personagens se chamavam pelos números. Outra "sacada" genial do autor.

Enfim, o livro é uma grande obra de difícil interpretação, pois tem dois livros em um só: um para crianças e outro para adultos.

Para as crianças, Alice no País das Maravilhas é uma aventura mágica, pois Alice percorre uma jornada repleta de personagens bizarros e cenários extraordinários, cheios de surpresas.

Para os adultos, o livro oferece uma certa profundidade, pois através do humor sutil, dos trocadilhos inteligentes, pode-se perceber as nuances filosóficas e psicológicas presentes na história. Outro ponto interessante é a subversão das normas e a natureza da realidade.

Alice quando criança
Falando um pouco da edição, o livro é belíssimo. 
Todo ilustrado para o leitor conhecer os personagens, além de trazer rascunhos do original escrito por Carroll. 
Tem também, muitas fotos da Alice, à época que o livro foi escrito. Muito interessante!!!
Essa edição da Editora Darkside é simplesmente encantadora.

É sem dúvida uma obra-prima atemporal da literatura.
Quem já leu há tempo, sugiro ler novamente.
Quem ainda não leu, não perca a oportunidade. 

Para finalizar deixo um só adjetivo para o livro:
"Enigmático"

Boa leitura!

Professor Mario Mello

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sábado, 13 de abril de 2024

O LIVRO SUA MAJESTADE XCVI - O MÁGICO DE OZ

 Simplesmente mágico!!!

Assim começo a descrever esta fábula que encanta gerações desde 1900.

Escrito por Lyman Frank Baum (1856-1919) "O Mágico de Oz" é uma história tão original, autêntica, bela, e traz a reflexão de que por mais que existam lugares fantásticos e reinos de faz de conta, "não há lugar melhor que nossa casa". 

Talvez esteja aqui o segredo para o sucesso contínuo deste clássico, que publicado há mais de um século, desafia o tempo e se mantém uma das histórias mais queridas e emblemáticas da literatura ocidental.

Os personagens Dorothy, o Espantalho, o Homem de Lata, o Leão Covarde, o Mágico de Oz, as bruxas e os curiosos outros personagens que aparecem durante a aventura, demonstram a genialidade de Frank Baum em descrever uma história tão marcante e tão incomum. 

A fábula "O Mágico de Oz", desempenha um papel vital na literatura, pois além de proporcionar entretenimento, traz também valiosas lições morais embaladas em narrativas envolventes.

Dorothy, Espantalho, Leão Covarde, Homem de Lata e Totó

A história conta a jornada de Dorothy, que teve sua casa do Kansas (EUA), com ela e seu cachorrinho Totó dentro, levada por um ciclone para uma terra distante e desconhecida cheia de novos e diferentes seres. Assim começa a jornada aventureira de Dorothy. 

Após sua casa, depois do ciclone, "pousar" nesta terra desconhecida, Dorothy sai a caminhar e encontra uns habitantes chamados Munchkin. Dorothy pede ajuda para voltar para sua casa no Kansas e eles dizem que só quem poderia ajudar era o Mágico de Oz. 

Na busca pela cidade do Mágico de Oz, Dorothy encontra o Espantalho preso em uma plantação. Para surpresa de Dorothy o Espantalho começa a falar com ela. Dorothy liberta o Espantalho e conta sua angústia para voltar à sua casa. Seguem juntos a caminhada em busca de Oz e encontram o Homem de Lata e depois o Leão Covarde.

Cada um desses persongens tem um motivo para ir em busca da cidade onde mora o Mágico de Oz, pois ele era a única pessoa que poderia ajudá-los.

Dorothy queria voltar para sua casa no Kansas, o Espantalho queria um cérebro, o Homem de Lata queria um coração e o Leão Covarde queria ter coragem para ser o rei dos animais. Dorothy é firme, segura e determinada, o que instintivamente a estabelece como líder do grupo.

Assim, os quatro mais o Totó, partiram na busca do Mágico de Oz. A história toda é nessa caminhada incrível, desafiadora, cheia de obstáculos e persongens bizarros. Bruxas, macacos alados, flores perfumadas tóxicas, feras horrendas, homens cabeça de martelo, árvores que com seus galhos prendiam os passantes, pântanos, rios profundos, muralhas gigantescas, cidade de porcelana onde tudo era "quebrável", entre outras tantas dificuldades. Todos personagens encontrados no caminho indicavam que Oz morava na Cidade de Esmeraldas.

Porém, nada detinha os quatro amigos que seguiram firme até......... não vou estragar a história.

Será que sobreviveram aos malvados seres encontrados ao longo do caminho? Será que encontraram o Mágico de Oz? Se encontraram o Mágico de Oz, seus desejos foram atendidos? 

Cidade de porcelana


Bem, além da história incrível e fascinante, a edição do livro, desde a capa e as gravuras internas é algo muito lindo e especial.

Sempre digo que o conteúdo sempre é o principal, mas uma bela forma potencializa e muito seu conteúdo. A coleção Fábulas Dark da editora DarkSide é simplesmente espetacular.

Bem, através da jornada de Dorothy e seus companheiros em busca do Mágico de Oz, somos levados a refletir sobre temas como coragem, amizade, determinação e autoconhecimento. Dorothy através de sua jornada na terra de Oz nos ensina sobre a importância de enfrentar desafios com determinação e compaixão, enquanto buscamos nossos próprios caminhos de autoconhecimento e crescimento.

Essas histórias, muitas vezes repletas de elementos fantásticos e mágicos, nos transportam para mundos de imaginação e possibilidade, proporcionando uma pausa bem-vinda das preocupações do dia a dia. Além disso, as fábulas oferecem uma linguagem acessível e uma estrutura narrativa simples, tornando-as acessíveis a leitores de todas as idades, enquanto ainda carregam profundidade e significado.

Assim, "O Mágico de Oz" reside não apenas na sua capacidade de entreter, mas também em sua habilidade de nos encantar e inspirar, deixando uma marca profunda em nossas mentes e corações.

Obrigado Frank Baum e obrigado Dorothy por eu poder dizer: é um dos melhores livros que já li.

Boa leitura!

Professor Mario Mello

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sábado, 9 de março de 2024

O LIVRO SUA MAJESTADE XCV - O JOVEM

 "Ao lado dele, minha memória parecia infinita. Essa espessura de tempo que nos separava era de uma grande delicadeza e dava mais intensidade ao presente."

Esse é o segundo livro de Annie Ernaux (1940 - ) que leio em poucos dias. Fiquei muito curioso com os livros de Annie, pois não é sem mérito que alguém ganha o Prêmio Nobel de Literatura, como Annie ganhou em 2022.

"O Jovem", escrito entre 1998 e 2000, publicado em 2022, reflete bem o traço característico de Annie que é dizer muito com poucas palavras. 

O livro conta o relacionamento que teve aos 54 anos com um estudante 30 anos mais novo.

Como diz Annie no livro: era um relacionamento de conveniência. O rapaz não gostava de trabalhar, em troca lhe dava prazer e possibilidade de viver experiências que nunca imaginaria repetir.

Estão presentes no livro, reflexões sobre o desejo feminino, o relacionamento entre pessoas de classes sociais diversas, a memória, o preconceito de algumas pessoas sobre o casal de idades bem diferentes e principalmente a passagem do tempo.


Annie Ernaux utiliza uma narrativa não linear, alternando entre lembranças e reflexões do presente, para reconstruir sua jornada como jovem mulher na França dos anos 1950 e 1960. 

Ela examina não apenas suas próprias experiências, mas também a sociedade e cultura da época, oferecendo uma perspectiva única sobre a juventude francesa daquele período.

Um dos aspectos mais marcantes do livro é a habilidade de Ernaux em capturar a essência da juventude, com suas ansiedades, paixões e sonhos. Ela aborda questões universais, como a busca pela identidade e o confronto com as expectativas sociais, de uma maneira que ressoa com leitores de diferentes origens e gerações.

O livro ainda traz na contracapa, manuscritos que dão mais uma característica ímpar ao exemplar lançado, aqui no Brasil, pela Editora Fósforo.

No geral, "O Jovem" é uma obra profundamente pessoal e universal ao mesmo tempo, que convida o leitor a refletir sobre sua própria juventude e os desafios que enfrentou ao longo do caminho.

Enfim, é uma "jóia".

Boa leitura!

Professor Mario Mello


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Outro livro da mesma autora chamado: O acontecimento

sexta-feira, 8 de março de 2024

O LIVRO SUA MEJESTADE XCIV - O LUGAR



"O Lugar" é um livro escrito pela francesa Annie Ernaux (1940 - ) que a alçou a uma das mais importantes escritoras vivas da França.

Vencedor do Prêmio Renaudor em 1984, o livro se debruça sobre a vida do próprio pai, para investigar relações familiares e de classe.

Annie Ernaux foi ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura em 2022, pelo conjunto de sua obra.

Annie Ernaux - fonte: Google
Annie é uma das pioneiras do estilo autoficção, pois costuma escrever histórias autobiográficas, que fazem uma reflexão sobre os contextos sociais que ela viveu.

"O Lugar" é um livro de menos de 70 páginas, mas muito intenso e tenso. Ela conta a história de vida regida pela necessidade e não sob o ponto de vista artístico.

A história começa a poucos meses do século 20, em um vilarejo na região de Pays de Caux, interior da França.

O pai de Annie pertence a um mundo no qual o trabalho físico estabelece o valor das coisas, onde o afeto e a intelectualidade têm pouco espaço.

Trabalhando desde criança, depois em uma fábrica até montar seu próprio negócio um café mercearia, o pai sempre foi um homem rude, porém dedicado à família. Annie, por sua vez, foi crescendo e sonhando em ser professora. Isso foi afastando ela intelectualmente de seu pai.

O livro "O Lugar" é amplamente elogiado pela crítica e pelos leitores por sua narrativa envolvente e íntima. Annie Ernaux é conhecida por sua habilidade em explorar temas familiares e relacionamentos pessoais de uma maneira profunda e sensível. "O Lugar" não é exceção, oferecendo uma reflexão comovente sobre a influência do afeto paternal na vida da protagonista. A obra é elogiada por sua escrita delicada e pela capacidade de capturar as complexidades das relações familiares e as nuances da experiência humana.

Enfim, "O Lugar", para quem ainda nào leu nenhuma obra de Annie é um excelente começo para conhecer esta maneira única de escrever. Ela está sempre dentro da obra. Ela está presente do início ao fim.
Annie tem muita coagem em escrever desta forma, pois não abre espaço para sentimentalismo, no abismo que se formou entre ela e o pai, porém sem nunca ter sido dito nem por um, nem pelo outro.

É um livro fascinante!!!

Boa leitura.

Professor Mario Mello

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segunda-feira, 4 de março de 2024

O LIVRO SUA MAJESTADE XCIII - ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA

 Impactado!

É esse o adjetivo que começo o post, para descrever como me senti ao ler o livro.

É um livro intrigante e poderoso!

Após mergulhar nas páginas de "Ensaio sobre a Cegueira", de José Saramago (1922-2010), me vi profundamente envolvido em um mundo de reflexões perturbadoras e inquietantes.

José Saramago

A narrativa visceral e a escrita magistral do autor levam a uma jornada emocional intensa, na qual se confrontou com a fragilidade da condição humana e a escuridão que pode residir dentro de cada um de nós.

Cada palavra pareceu ecoar como um grito de alerta para a complexidade das relações sociais, a falta de empatia e as consequências devastadoras da negação da humanidade. A experiência da leitura foi tão marcante que deixou reflexões profundas sobre a natureza da existência e o valor da compaixão.
Ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 1998, Saramago é considerado a maior expressão da literatura portuguesa contemporânea.

"Ensaio sobre a Cegueira" é um livro tão impactante por vários motivos, mas também, como disse Saramago quando ainda escrevia o livro: "decidi que não haverá nomes próprios no Ensaio, ninguém se chamará Antonio ou Maria, Laura ou Francisco, Joaquim ou Joaquina. Estou consciente da enorme dificuldade que será conduzir uma narração sem a habitual, e até certo ponto inevitável, muleta dos nomes, mas justamente o que não quero e ter de levar pelas mãos estas sombras a que chamamos personagens, inventar-lhes vidas e preparar-lhes destinos."
Essa edição mantém a grafia vigente em Portugal


E assim foi. Os protagonistas do livro são: o médico, a mulher do médico, o primeiro cego, a mulher do primeiro cego, a rapariga dos óculos escuros, o rapazinho estrábico e o velho da venda preta.

A história começa quando um homem a dirigir seu veículo e parado em um semáforo, perde completamente a visão. Vai consultar com o médico oftalmologista que horas depois também perde a visão. A partir daí desencadeia uma onda de cegueira por toda a cidade.

Esses cegos são colocados, pelo governo, em um manicômio abandonado, para proteger a população da contaminação. Vigiados à mão forte, não podendo sob hipótese nenhuma sair dali e, cada vez chegando mais e mais cegos, tornando o ambiente um caos.
Sem nenhuma ajuda de outras pessoas, sem condições mínimas de higiene, com um mínimo de comida, a condição humana chega a um nível de degradação descomunal.
Com a chegada de mais cegos, uma gang do mal se instala no manicômio e só faz o tormento e a degradação humana aumentar.

A cegueira branca como é contada no livro, devora, mais do que absorve, não só as cores, mas as próprias coisas e seres.

Enfim, o livro é uma imensidão de sentimentos profundos, que nos leva a refletir, neste momento, que grande parte do mundo se assombra e se cega.

Diz Saramago: "mas já estamos todos cegos".

Boa leitura!

Professor Mario Mello


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