domingo, 28 de dezembro de 2025

O LIVRO SUA MAJESTADE CXVIII (118) - O PASSEADOR DE LIVROS

 Começo com a seguinte expressão: 

Que livro!!!

"Dizem que os livros encontram seus leitores, mas às vezes é preciso que alguém lhes indique o caminho".

Já faz alguns anos que me interesso muito por livros que falam de livros. Esse meu interesse foi despertado basicamente por um livro, "Os livros que devoraram meu pai" seguido pela "Livraria Mágica de Paris".

Hoje vou falar do livro "O Passeador de Livros". Regalo de Natal da minha nora Grazi Fachim, não esperei um dia para começar a lê-lo, pois só de ver o título sabia que fazia parte dos meus preferidos. A Grazi acertou em cheio.

É um livro novo, escrito em 2020 e só chegou ao Brasil em 2022. Escrito pelo alemão Carsten Henn (1973 - ) em seguida tornou-se um livro traduzido em mais de 25 países.

A história se passa numa cidade interiorana da Alemanha onde uma livraria tradicional da cidade, tinha o Sr. Carl Kollhoff, de 72 anos, como o funcionário mais antigo que fazia pessoalmente entregas, na cidade, de livros adquiridos por alguns clientes. Como tudo vai se "modernizando" e com a aposentadoria do proprietário Sr. Gustav, assumiu a gerência a filha Sabine que não tinha aptidão literária e muito menos simpatia para a função. Sabine, muito antipática, começou a implicar com Carl, pois muitos clientes iam à livraria e só procuravam por ele. Ou seja, seu emprego começou a ficar ameaçado. Ou melhor, a sua vida começou a ficar ameaçada, pois era na livraria que trabalhou a vida toda.

Todos os dias Carl embrulhava cuidadosamente os livros e saía para as entregas. Carl tinha seus clientes preferidos aos quais dera um nove fantasia relacionado a algum personagem dos livros que lia. 

Entre eles o Mister Darcy, muito reservado morando em uma mansão; a sra. Effi que era espancada pelo marido (isso foi descoberto pelo livreiro); a irmã beneditina Amarílis, que resistia em abandonar o convento só habitado por ela; o Doutor Fausto que se dizia professor, embora nunca tinha pisando em uma universidade; mais um personagem curioso: O Leitor era um rapaz que trabalhava numa fábrica de charutos e sua função era passar 8 horas por dia lendo livros para os funcionários que trabalhavam na produção.

Enfim, cada personagem tinha suas preferências e Carl dava suas dicas para os novos livros a serem adquiridos. 

Um belo dia, no seu habitual trajeto, Carl é seguido por uma menina de 9 anos chamada Schascha. A menina queria acompanhá-los nas entregas o que Carl não permitiu inicialmente. Porém a insistência e a esperteza de Schascha demoveu Carl da negativa. A partir daí se formou uma amizade sólida e intensa entre os dois. No choque de gerações (embora Schascha gostasse de livros) um dia Carl disse a ela:

"Cada dia mais pessoas estão lendo menos. No entanto, existem pessoas dentro das páginas. É como se cada livro contivesse um coração que só começa a bater quando é lido, porque nosso coração o impulsiona."

Várias semanas se passaram até que um dia Schascha não apareceu para acompanhar Carl. Ele não sabia onde ela morava e ficou desesperado, pois ela simplesmente não apareceu mais. Carl começou a procurá-la em escolas, porém sem sucesso.

Ela um dia reapareceu (não vou contar como para não estragar o suspense da história). 

Pois bem, muitas aventuras se passam no decorrer da história, até Carl ser despedido da livraria por Sabine. A vida dele desaba.

Quando Schascha descobre, esperta como era, a história dá uma reviravolta incrível. Menina de coração gigantesco e generoso. O final da história é muito emocionante. Aos mais emotivos, como eu, leva às lágrimas.

É um livro genial, de leitura simples que traz incríveis reflexões sobre a leitura e chama que não podemos deixar apagar dos livros. Eu acrescento: dos livros físicos. Que tenhamos ainda, muitos passeadores de livros!

Para os amantes de livros (para os iniciantes também) é uma leitura imperdível.

Obrigado Grazi, pelo presente. Sabe aquele presente certeiro? Pois este é.

Professor Mario Mello


terça-feira, 23 de dezembro de 2025

O LIVRO SUA MAJESTADE CXVII (117) - MEDITAÇÕES

 O livro trata de anotações pessoais do Imperador Romano Marco Aurélio, que foram escritas entre os anos 170 e 180 d.C. Impressiona como essas anotações em sua maioria se aplicam até os dias de hoje.

Dividido em 12 chamados livros, a obra tornou-se um dos escritos mais reveladores e inspiradores a respeito do pensamento de um grande líder.

O livro não é propriamente uma obra literária ou filosófica, mais sim uma espécie de diário em que Marco Aurélio registrou reflexões registradas a si mesmo.

Marco Aurélio, ou Marcus Aurelius Antoninus, nasceu em 26 de abril de 121 d.C. foi um "homem bom". Ele foi um dos Imperadores mais cultos, inteligentes e estudioso em filosofia. Toda sua educação foi diversificada e obtida de professores particulares. Marco Aurélio nunca foi seduzido pelo poder para humilhar os mais fracos.

Após a morte do pai, Annius Verus, Marco Aurélio ficara aos cuidados da mãe e do avô paterno, mas ainda adolescente foi adotado pelo Imperador Antonino Pio e assim, como herdeiro, assumiu o governo do Império Romano aos 40 anos, em 162 d.C., após a morte de Antonino. O Imperador Antonino, pai adotivo de Marco Aurélio é considerado por muitos historiadores como o mais digno de todos os imperadores de Roma.

Marco Aurélio reinou de 161 d.C. a 180 d.C. Além dos horrores da guerra e do combate aos inimigos do Império, uma epidemia veio a ceifar a vida de seus comandados e soldados. Atingido por este mal, o devotado imperador, que jamais gozara de vigor físico, extenuado e condenado ao leito faleceu em 9 de abril de 180 d.C., deixando como principal marca a bondade de um imperador e a manutenção das fronteiras do poderoso Império Romano.

Estátua de Marco Aurélio em Roma
A postura filosófica de Marco Aurélio está sintetizada em três princípios:

1-Prática das virtudes, que significa repúdio aos vícios e ao mal em geral;

2-Devoção religiosa, culto aos deuses e obediência às leis;

3-Em todas ações virtuosas, ter em vista sempre o interesse da comunidade e não o individual.



Trago aqui algumas passagens que mais me chamaram a atenção no livro.

"Acolhe a alvorada já dizendo, antecipadamente, para ti mesmo: vou topar com o indiscreto, com o ingrato, com o insolente, com o pérfido, com o invejoso, com o insociável. Todas essas qualidades negativas lhes ocorrem por conta da sua ignorância do bem e do mal. Não sou capaz de enraivecer contra meu semelhante nem de odiá-lo, pois nascemos para mútua cooperação e assistência."

"Corpo, alma, inteligência, no corpo as sensações, na alma os impulsos, na inteligência os princípios."

"A melhor forma de se defender das pessoas hostis é não se tornar semelhante a elas."

"Nas ações, não haja de maneira precipitada nem de maneira lânguida ou negligente; nas conversas, não seja criador de confusão e de desentendimento; nas ideias não te desorientes perdendo a coerência; na tua alma, de modo algum, te contraias sob o peso das preocupações nem te distrais fugindo delas; e não ocupes tua vida inteira com negócios e dificuldades dispensando o ócio." 

"Tu és a combinação de três coisas nomeadamente: um corpo precário, um sopro de vida, uma inteligência. Dessas coisas, as duas primeiras só são tuas na medida em que te ocupes e te empenhes em cuidar delas; somente a terceira é propriamente tua, legitimamente tua."

Assim, o livro traz reflexões sobre as virtudes, a felicidade, a morte, as paixões e a harmonia com a natureza e a aceitação de suas leis. A personalidade de Marco Aurélio se impõe como marca de grandeza, coerência, benevolência e compreensão.

Como disse antes, não se trata de uma obra filosófica mas sim de uma obra atemporal e universal, pois todos os temas abordados continuam relevantes centenas de anos após a escrita.

Vale muito a pena a leitura!

Boa leitura!

Professor Mario Mello




sexta-feira, 12 de setembro de 2025

O LIVRO SUA MAJESTADE CXVI (116) - O TESOURO DO ARROIO DO CONDE

 O livro dificilmente é apenas o livro em si. Cada leitor normalmente tem uma história para adquirir um exemplar.

Muitas vezes é uma indicação de um amigo, outras vezes é a inquietação do título, ainda pode ser a época em que foi escrito, pode também ser pelo autor renomado, enfim, por vários motivos.

Pois bem, este livro que trago hoje, estava citado em outro livro cujo personagem o tinha como "uma relíquia" pela situação que ele conheceu o livro. Lendo este outro livro chamado "Histórias escritas com giz", de Vitor Biasoli, fiquei muito curioso sobre "O tesouro do Arroio do Conde" e comecei a procurá-lo na internet, em vários sebos, pois ele foi escrito em 1933 por Aurélio Porto.

Esta é uma das "graças" deste mundo da literatura. Garimpar livros, muitas vezes aleatórios mas que têm um valor imenso quando conseguimos nosso intento. E, mais ainda quando a história é boa. É o caso do Tesouro do Arroio do Conde. O livro ainda traz ilustrações quase que infantis, mas todas com muito sentido.

É uma novela histórica do Rio Grande do Sul. Consegui em um sebo, uma versão adaptada por Barbosa Lessa, escritor e historiador gaúcho publicada em 1986.

A história se passa no tempo em que portugueses e espanhóis disputam terras no sul do Brasil e Uruguai. O cenário é em Porto Alegre, Rio Pardo, Charqueadas  e no Arroio do Conde, que é um rio que desagua no Guaíba.

Com vários personagens importantes, chama a atenção alguns deles: Na casa sede da Estância Santa Isabel, havia riqueza e muita fartura nas charqueadas de Manuel Bento e Dona Isabel. Porém o casal não era totalmente feliz, pois não conseguia ter filhos. Assim, numa noite de setembro de 1762, Dona Isabel despertou com um chorinho de bebê, deixado na soleira da porta. Era uma menina que foi batizada com o nome de Maria Teresa, nossa protagonista da história.

Dona Isabel de tão agradecida, sem contar para ninguém, retirou de seus pertences um velho cofre e foi escondê-lo numa parede falsa da capela da estância. Regularmente Dona Isabel, guardava jóias e ouro, no cofre escondido para garantir o futuro de Maria Teresa, pois as guerras eram constantes.

E assim, Maria Tereza foi crescendo e seu cofre aumentando de valor, sem ela saber de nada.

No decorrer da história entram na vida de Maria Teresa um vizinho, José Raimundo, que se transformou num bandido, para vergonha de sua mãe. José Raimundo se apaixonou por Maria Teresa que o renegou, pois estava apaixonada pelo Tenente Paulo Caetano.

O final da história, que obviamente não vou aqui contar para não estragar a leitura de quem conseguir o livro, está relacionado a esses três personagens. O final é surpreendente deste clássico gaúcho.

Onde foi parar o tesouro? 

Pois até hoje esta lenda persiste pelas bandas do Arroio do Conde.

Fiquei encantado e emocionado com a história. Valeu a pena correr atrás deste livro.

Professor Mario Mello

sábado, 14 de junho de 2025

O LIVRO SUA MAJESTADE CXV (115) - RESTAURANTE AUGUSTO - HISTÓRIAS DE UMA SANTA MARIA QUE NÃO EXISTE MAIS

 Ainda me deliciando com meus presentes de aniversário deste ano de 2025. Trago aqui um livro que remete à lembranças incríveis de uma Santa Maria que não existe mais.

Presente da minha nora Grazi, o livro traz muitas histórias do extinto Restaurante Augusto que por décadas serviu de ponto de encontro de pessoas comuns e anônimas, como também recebeu personalidades nacionais e internacionais.

Certamente uma grande parcela de moradores de Santa Maria e região, ao ler este livro voltará no tempo e terá recordações incríveis de suas histórias e de outras histórias. 

O Restaurante Augusto faz parte da história de Santa Maria e quando no título do livro diz "de uma Santa Maria que não existe mais", o autor Savio Ausgusto Werlang, não só infere mas deixa explícito que muitos personagens, passagens da história de Santa Maria, se relacionam direta ou indiretamente com o Restaurante Augusto.


O Restaurante conhecido no Brasil pelo prato que representa Santa Maria, o famoso galeto com polenta e radiche, prato criado pelo Augusto na década de 60 e que sempre foi o principal do restaurante até seu fechamento.

Inaugurado em maio de 1968, pelo seu Augusto, passou a ser gerenciado pelo genro Marco Fank e pelo filho Augustinho em 1987. Em outubro de 2018, em trágico acidente de trânsito, Marco Fank faleceu. Este acontecimento foi determinante para o triste fim do Restaurante Augusto, que encerrou suas atividades em 31 de janeiro de 2019.


Os garçons do Augusto é um capítulo à parte. Um deles, Severo com mais de 30 anos de casa, foi tema de uma crônica do escritor gaúcho Carpinejar que relata que jamais imaginou encontrar um garçom feliz. Severo era assim mesmo: sempre com um sorriso no rosto. No meu caso dos mais de 40 anos frequentando o restaurante eu atendido ou pelo Alemão ou pelo Derci. Sempre um atendimento cordial e atencioso.

Outro personagem marcante foi o Luis Eduardo responsável pelo caixa e por receber os pedidos de tele-entrega por longos 26 anos. Ou seja, o restaurante Augusto era aquele lugar para encontrar as mesmas pessoas e isso o tornou por anos um ambiente único.

Sempre durante o almoço ou janta, uma figura ímpar e conhecidíssima de Santa Maria, passava entre as mesas oferecendo bilhetes de loteria. Paulo Neron Rodrigues, o Paulinho Bilheteiro era portador de nanismo o que o tornava ainda mais querido por todos.

Que saudades deste bom tempo.

Enfim, o livro é cheio de histórias que nos remetem a um passado não muito distante, porém muito saudoso. Quem viveu estes anos do Restaurante Augusto em Santa Maria, certamente tem suas histórias para contar. 

Há uma saudade boa que fica quando lembramos de um restaurante que marcou gerações ao longo de décadas. Mais do que um lugar para refeições, ele foi cenário de encontros, celebrações, conversas e memórias que atravessaram o tempo. O aroma, o ambiente acolhedor e os rostos conhecidos formaram uma experiência única, que agora vive nas lembranças de todos que tiveram o privilégio de desfrutar do Restaurante Augusto.

Boa leitura!

Professor Mario Mello

PS: Mais uma vez, obrigado Grazi Fachim pelo presente, pois me fez voltar no tempo e ter boas lembranças.


domingo, 8 de junho de 2025

O LIVRO SUA MAJESTADE CXIV (114) - LAS HORTENSIAS

 

LAS HORTENSIAS, livro escrito pelo uruguaio Felisberto Hernández (1902-1964), é um daqueles livros que deixa a gente intrigado desde as primeiras frases.

Que linda capa
Felisberto Hernández é considerado um dos maiores escritores uruguaios do século XX. Ele era, além de escritor, pianista e um notável orador, pois suas narrativas sempre despertavam muito interesse em quem o acompanhava. 

As Hortensias" narra a obsessão de Horacio pela observação de bonecas (muñecas)  chamadas Hortensias, cada vez mais parecidas com mulheres de carne e osso. Ele as expõe em vitrines e as faz personagens de histórias que inventa para elas.

O modo como o autor coloca objetos inanimados como personagens marcantes da história é algo inconfundível em sua obra.

Horacio, nosso protagonista, colecionava bonecas em sua casa, um tanto sombria, chamada de "la casa negra", com um enorme jardim com amplas vitrines de vidro, onde criava cenas para expô-las.

Horacio, casado com Maria, possuía vários empregados em "la casa negra". Alguns eram encarregados de preparar as cenas com as diversas bonecas, nas vitrines, para o prazer de Horacio.

Entre várias bonecas, existia uma preferida chamada Hortensia. Horacio dizia para sua mulher Maria, que se ela viesse a morrer ele teria consolo em Hortensia para lhe fazer companhia.

Os dois eram apaixonados por Hortensia, que tinha o tamanho de uma pessoas e se parecia muito com Maria. Maria a tratava como se fosse uma filha, porém Horacio começou a enxergar e tratar Hortensia de uma forma diferente, causando ciúmes e atritos com sua esposa Maria.

Horacio um belo dia chamou Facundo (o fabricante das muñecas) e pediu a ele que fizesse alguma coisa para que Hortensia tivesse calor humano. Facundo, então, arrumou um jeito de que se colocasse água quente dentro da boneca a pele dela ficava ainda mais parecida com a pela humana. E assim, se sucederam outras loucuras de Horacio.

Um belo dia Horacio encontra Hortensia apunhalada por uma faca soltando o líquido interno. O desespero bateu e as intrigas com Maria aumentavam. Facundo foi chamado novamente para dar "nova vida" à Hortensia.

Felisberto Hernández

Cansada, um pouco pelo abandono de Horacio e pelo ciúmes das bonecas, Maria o abandona. Pensando que Horacio iria atrás dela, não foi o que aconteceu.

Horacio cada vez mais obcecado pelas muñecas, se atrapalhava em sua vida pessoal.

O trecho a seguir dá um "spoiler", porém sem contar obviamente, o final da história: 

“Maria podía ser, como antes, una mujer sin muñeca; pero ahora él no podía admitir la idea de María sin Hortensia; aquella resignación de toda la casa y de María ante el vacío de la muñeca, tenía algo de locura. 
Además, María iba de un lado para otro del dormitorio y parecía que en esos momentos no pensaba en Hortensia; y en la cara de María se veía la inocencia de un loco que se ha olvidado de vestirse y anda desnudo.”

Enfim é um livro muito inteligente de um autor, talvez, pouco valorizado na América Latina. 

Vale muito a leitura!!!

Professor Mario Mello


PS1: A leitura em espanhol faz parte de um dos meus desafios propostos para 2025. Já é o terceiro livro, em espanhol, lido em 2025. Estamos indo bem!

PS2: Este livro ganhei como presente de aniversário do meu filho Arthur e da Grazi, direto da Livraria "Mas puro verso" de Montevidéu. Gracias Arthur e Grazi.

sábado, 3 de maio de 2025

O LIVRO SUA MAJESTADE CXIII (113) - OPERAÇÃO PORTUGA 2.0 - CINCO HOMENS E UM RECORDE A SER BATIDO

 Sabe aquele livro que você não conhece, vê na livraria e fica na dúvida de comprar ou não? 

Pois este é o livro! 

Comprado pelo meu filho Arthur, que tem um "faro" fenomenal para descobrir livros extraordinários. Esse é um deles.

Um livro incrível cuja história reune várias histórias de corredores amadores de São Paulo. A corrida de rua que para muitos é uma forma de recreação, para um grupo seleto de executivos de São Paulo virou uma extraordinária história de obsessão de quebra de um recorde em maratona.

O livro não é sobre corrida, embora se passe entre treinos e competições. É sobre gente, diz o autor Sérgio Xavier Filho.

É esse o ponto que me cativou tanto neste livro. Histórias, todas reais e incríveis de superação, companheirismo, amizade, generosidade e principalmente de determinação.

O cenário é uma equipe de corredores amadores treinados por uma assessoria, MPR, de São Paulo e o circuito das maiores maratonas do mundo: Berlim, Boston, Chicago, Nova York e Paris. 

Havia um recorde a ser batido: o Portuga (Amilcar Lopes Jr.), um corredor fanfarrão e debochado, havia em 2006, completado a maratona de Chicago em 2h43min50. 

A marca extraordinária para um amador, fez do Portuga uma espécie de lenda no circuito dos corredores de rua de São Paulo. "Portuga é o homem a ser batido". 

É aqui que começa esta fantástica história: Marcelo Apovian (Lelo); José Augusto Urquiza (Guto) e Tomás Award são os mais fortes candidatos a derrotar o Amílcar, no que ficou conhecido como o "Desafio do Portuga".

Executivos ocupados treinam forte incessantemente para derrotar o Portuga. Mais tarde, se junta ao grupo Felipe Wright, cuja história de vida acaba inspirando os amigos. Eram cinco (os quatro corredores mais o técnico PHR) contra um. Portuga tinha uma confiança inabalável em seu feito. Cada vez mais provocava os desafiantes, que sabiam: não seria fácil desbancar o Portuga.

O primeiro desafio da turma era fazer tempo inferior a 3h nas maratonas. Quem conseguia, entrava para o seleto grupo dos "Sub 3h".

Depois de vários anos, várias maratonas o recorde e a zoeira do Portuga se mantinha. Veio mais uma maratona para o grupo: Berlin 2009. Bom aqui está o coração do livro, pois várias coisas aconteceram nesta maratona. Obviamente que não vou contar para não estragar a surpresa de quem vai ler o livro.

Cada personagem tem sua história particular de desafio e dificuldades. Lelo, por exemplo, sofreu um acidente esquiando onde uma das pernas ficou com muitas e complexas fraturas. Depois de anos de tratamento conseguiu voltar a correr e ser do grupo sub 3. E assim, várias histórias de determinação e de competição se sucederam para cada um deles.

Um dos corredores do grupo, o Felipe havia morrido em um acidente aéreo em maio de 2009, quando todos já estavam inscritos para a maratona de Berlin em setembro de 2009. Essa parte do livro contando como os amigos receberam a notícia e como se prepararam para correr em Berlin é a mais emocionante e comovente. Uma história de amizade, generosidade, benevolência e desprendimento proporcionada pelo Guto ao amigo Felipe é de comover, chorar e ver como existem pessoas boas no mundo. 

É simplesmente magnífico!!

Pois bem, o livro é incrível. Provoca no leitor, reflexões de que objetivos podem ser alcançados com disciplina, determinação e amor pelo que se faz. É um livro imperdível. Parabéns Sérgio Xavier Filho (autor) por nos proporcionar com maestria essas histórias de gente (não só das corridas).

E então o recorde do Portuga será que foi batido?

Como foi a homenagem dos corredores amigos do Felipe na maratona de Berlin 2009?

E o Portuga, como está hoje?

Pois é, vamos ter que ler o livro. 

Boa leitura!

Professor Mario Mello

PS: Para mim este não é mais um livro lido e apreciado. 
Haverá reflexos na minha vida nos próximos meses/anos
.
Estou me desafiando.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2025

O LIVRO SUA MAJESTADE CXII (112) - A LANTERNA DAS MEMÓRIAS PERDIDAS

 Um dos livros mais sagaz que já li. 

"A lanterna das memórias perdidas" da escritora japonesa Sanaka Hiiragi (1974- ) é um romance profundo e comovente a respeito do que é realmente importante na vida e do encanto de reviver uma última vez seus melhores momentos.

O livro explora temas profundos entre a vida, a morte e as lembranças que acumulamos ao longo da nossa vida. O protagonista Hirasaka, gentilmente recepciona seus visitantes, em um estúdio fotográfico, lhe oferece sua bebida preferida e revela o que os aguarda.

A narrativa centra-se em Hirasaka, que trabalha neste estúdio fotográfico peculiar, servindo como um ponto de transição entre a vida e a morte. Nesse espaço, os recém falecidos são recebidos e informados sobre sua nova condição. Lhes é dada uma caixa com fotos, para que antes de seguirem para o além, eles devem selecionar uma fotografia para cada ano de suas vidas, representando suas memórias mais significativas. 
Além disso, têm a oportunidade de revisitar um momento especial do passado para capturar uma nova imagem dessa lembrança marcante.

Pegos de surpresa os visitantes perguntam: "Eu morri?
Se este é apenas um ponto de passagem, o que vai acontecer comigo depois?
Como seria o mundo do além? A gente desaparece sem deixar rastros e se transforma em nada?

Nosso protagonista Hirasaka, recepciona três pessoas que pelo estúdio passam: uma professora de 92 anos; um membro da Yakusa de 47 anos e uma criança. Os visitantes eram sempre anunciados pelo entregador Yama, que trazia em um carrinho de mão as fotos da pessoa.

Hatsue, a professora de 92 anos, dedicou toda sua vida à educação infantil. Durante a visita ao estúdio, ela revisita o Japão do pós-guerra, uma época marcada por escassez de empregos e profundas mudanças sociais, incluindo a crescente participação das mulheres no mercado de trabalho e a redefinição das responsabilidades familiares. Através das lembranças de Hatsue, o leitor é levado a refletir sobre o papel essencial da educação e as transformações sociais ocorridas ao longo das décadas.

Waniguchi, membro da Yakusa, tinha uma loja de recicláveis para disfarçar as atividades ilícitas e custou a compreender que havia morrido e que estava na transição. Este capítulo é muito interessante, pois claramente Waniguchi com seu jeito autoritário, queria sempre um confronto com Hirasaka.

A parte um pouco triste da história é com a terceira visitante do estúdio: a menina Mitsuru. Apavorada a criança não se mexeu por um bom tempo no estúdio. Hirasaka usou toda sua habilidade para aos pouquinhos ir conquistando Mitsuru. A menina sofreu abusos do padrasto, causado-lhe um grande sofrimento. Neste capítulo aparece o traço marcante da autora, pois Hirasaka propõe à menina que escolha, entre muitas, uma máquina para sairem e tirarem fotografias.
Sanaka Hiiragi

A autora do livro, sempre foi grande apreciadora de câmeras fotográficas e da fotografia. O livro trata disso: fotografias.
 Hiiragi reflete sobre a força que as fotos carregam e nos leva a questionar o que é realmente importante na vida.

Como disse no início achei muita sagacidade neste livro, pois o processo de seleção das fotografias e a revisitação de momentos especiais proporcionam uma compreensão mais profunda da vida e das circunstâncias que a moldaram.

A transição entre a vida e a morte desperta, sempre, muito interesse em desvendar este mistério que nos acompanha desde sempre. 

O livro é genial e merece ser lido e apreciado.
"Talvez seja a última visão de uma vida inteira".

Boa leitura!

Professor Mario Mello

domingo, 23 de fevereiro de 2025

O LIVRO SUA MAJESTADE CXI (111) - AS AVENTURAS DE TINTIM


Tintim é um jovem repórter que está sempre atrás de uma importante matéria.

Icônico personagem de Hergé, Tintim não tem limites e suas histórias são cheias de aventuras emocionantes que retratam a realidade e a ficção.

Minha pequena coleção do Tintim
Georges Prosper Remi (22/05/1907-03/03/1983), escritor Belga, conhecido pelo pseudônimo Hergé, não foi apenas um desenhista excepcional, mas um verdadeiro pioneiro da narrativa gráfica. Criador de As Aventuras de Tintim, Hergé elevou os quadrinhos a um patamar literário e artístico antes impensável, influenciando gerações de escritores, ilustradores e cineastas. Sua obra, rica em detalhes, humor e crítica social, consolidou-se como um dos pilares da literatura em quadrinhos, mesclando aventura e jornalismo ficcional com uma sofisticação narrativa que transcende o gênero.

Com um olhar aguçado para a geopolítica, o humor e a cultura, Hergé criou um universo atemporal, cujos personagens e histórias continuam a dialogar com diferentes gerações. Suas Aventuras de Tintim não são apenas quadrinhos, mas verdadeiros clássicos da literatura moderna, demonstrando que imagens e palavras podem se combinar para criar algo tão rico e significativo quanto qualquer grande romance.

A importância dos quadrinhos de Hergé para a literatura vai além da criação de tramas envolventes. Ele foi o responsável por estabelecer a técnica da ligne claire, um estilo visual marcado pela clareza dos traços e pela organização impecável dos quadros, influenciando artistas como Moebius, Hugo Pratt e até mesmo diretores de cinema como Steven Spielberg. Mais do que isso, suas histórias ajudaram a consolidar os quadrinhos como uma forma legítima de expressão literária, desafiando a ideia de que apenas livros textuais poderiam ser considerados literatura.

Tenho 6 volumes das histórias de Tintim: Tintim na América; Tintim no Congo; A Orelha Lascada; O Lótus Azul; A Ilha Negra; Os Charutos do Faraó.

Em Tintim na América, Hergé satiriza o capitalismo selvagem dos anos 1930 e demonstra sua capacidade de misturar aventura e crítica social. A história, repleta de ação e humor, apresenta o jovem repórter enfrentando gangsters e a corrupção, com um olhar irônico sobre a sociedade americana da época.

O Lótus Azul marca um ponto de virada na carreira do autor. Com uma pesquisa detalhada e consultoria de Zhang Chongren, um amigo chinês de Hergé, a obra retrata a China de forma respeitosa e autêntica, fugindo dos estereótipos ocidentais. Esse álbum exibe a evolução do traço de Hergé e sua preocupação em oferecer uma narrativa historicamente precisa.





Em A Orelha Lascada, o autor introduz uma trama de mistério e conspiração envolvendo tráfico de artefatos culturais. Aqui, Hergé trabalha com um enredo mais maduro, abordando a colonização e os conflitos geopolíticos da América do Sul, além de consolidar a sagacidade investigativa de Tintim.

Já Tintim no Congo reflete um período em que a visão colonialista europeia era amplamente aceita. Apesar das críticas modernas ao seu retrato da África, é inegável a habilidade de Hergé em criar sequências dinâmicas e um senso de aventura contagiante. É um álbum que mostra o autor com um talento gráfico enorme.

Os Charutos do Faraó transporta Tintim ao Oriente Médio e à Índia, mergulhando-o em um enigma de tráfico de drogas e sociedades secretas. Aqui, Hergé demonstra sua maestria em construir tramas intrincadas, repletas de reviravoltas, além de introduzir personagens icônicos, como os detetives Dupont e Dupond.

Por fim, A Ilha Negra destaca-se pelo ritmo cinematográfico e pela belíssima ambientação na Escócia. Com perseguições emocionantes, cenários detalhados e uma intriga bem amarrada, o álbum reforça a capacidade de Hergé em criar histórias vibrantes, combinando mistério e humor.

Com um olhar aguçado para a geopolítica, o humor e a cultura, Hergé criou um universo atemporal, cujos personagens e histórias continuam a dialogar com diferentes gerações. Suas Aventuras de Tintim não são apenas quadrinhos, mas verdadeiros clássicos da literatura moderna, demonstrando que imagens e palavras podem se combinar para criar algo tão rico e significativo quanto qualquer grande romance.

Tintim e Milu



Ler histórias em quadrinhos é um privilégio que combina arte e narrativa de forma única, tornando a literatura mais acessível, dinâmica e envolvente. 

Mais do que simples entretenimento, os quadrinhos são uma poderosa forma de expressão cultural, capazes de transmitir emoções, criticar a sociedade e explorar temas profundos com uma riqueza visual inigualável. 

Seu impacto na literatura é imenso, pois ampliam as possibilidades da narrativa, cativam leitores de todas as idades e provam que grandes histórias podem ser contadas tanto com palavras quanto com imagens.






Obrigado, Tintim, por nos levar a aventuras inesquecíveis, atravessando continentes, desvendando mistérios e enfrentando perigos com coragem e inteligência. 

E obrigado, Hergé, por sua genialidade ao transformar simples páginas em mundos vivos, repletos de detalhes, humor e crítica social. Suas histórias não são apenas quadrinhos, mas verdadeiras obras-primas que continuam a inspirar gerações, provando que a arte sequencial é tão rica e impactante quanto qualquer grande literatura.

Boa leitura!

Professor Mario Mello


quinta-feira, 13 de fevereiro de 2025

O LIVRO SUA MAJESTADE CX (110) - CHARLES MAXWELL E O MISTÉRIO DA CHAPEUZINHO VERMELHO

 Você já imaginou Pinóquio, Branca de Neve e os Sete Anões, Os Três Porquinhos, Barba Azul, O Gato de Botas, Robin Hood, O Lobo Mau e Chapeuzinho Vermelho todos numa mesma história? 


Pois é assim que acontece num livro cheio de aventuras, mistérios, sonhos, enigmas, fantasias e coragem chamado "Charles Maxwell e o Mistério da Chapeuzinho Vermelho".

Do jovem autor Guilherme Corrêa Bellföx, o livro é uma viagem à Edimburgo dos anos 1936, cujos protagonistas a Irmã Madeleine Tuck e Charles Maxwell embarcam em desventuras para solucionar mistérios, entre eles, o desaparecimento de Chapeuzinho Vermelho.

A mágica de tudo isso é nos fazer imergir em um incrível mergulho no mundo dos contos de fadas, além de uma interação no contexto histórico europeu do século XX, como os males provindos da ascensão do nazismo e ideias antissemitas, mostradas em vários contextos durante a narrativa do livro.

A história começa com a notícia da condenação e morte de Robin Hood. Nossa protagonista, Irmã Madeleine, era fiel escudeira de Robin Hood e com sua morte foi transferida a uma igreja de Edimburgo. 

Porém, foi alertada pelo bispo, responsável pela transferência, que era para ter muito cuidado, pois no porão da igreja habitava um homem muito estranho: Charles Maxwell.

Irmã Madeleine e seu revólver




Disse o bispo na mensagem à Irmã Madeleine: "Devo de antemão deixar-te avisada algo que me preocupa há algum tempo. A irmã que você substituirá mencionou um homem estúrdio que vive no porão, um lunático, possível desgarrado sem fé. Tenha muito cuidado caso haja a mão do próprio diabo, neste homem."

Charles Maxwell e seu relógio
Quando a Irmã Madeleine leu a mensagem, pensou: "O temor é o princípio da sabedoria". Não demorou nenhum dia para a Irmã Madeleine e Charles Maxwell se entenderem. A irmã chegou portando um revolver calibre 45, que certamente ajudou Maxwell a respeitá-la.

Maxwell tinha um relógio antigo, herança de seu avô, com um poder mágico em que ele podia ver ações do passado para poder interferir ou não.
Inclusive no livro, em algumas situações há as opções de: SIM devo agir olhando o relógio - pule para a página xx; NÃO, continuar a história - siga nesta página. Muito criativo, por parte do autor essa tomada de decisão do leitor.

Pois bem, o cerne da história é a morte da Sra. Isadora Reiter, com ferimentos no pescoço que segundo as autoridades, ao sair da carruagem enroscou seu cachecol na porta do veículo, que saiu em disparada matando assim a Sra. Isadora. Assassinato? Acidente? 

Não fosse isso, no dia do velório, a filha da Sra. Isadora, Chapeuzinho Vermelho, desaparece misteriosamente. Assim começam as aventuras e desventuras de Charles Maxwell, Irmã Madeleine, Pinóquio e o Gato de Botas, tentando desvendar os mistérios.

No caminho aparecem, o Lobo Mau, Branca de Neve e os Sete Anões, o denominado Enigma, Josef Göth, todos atrapalhando os heróis na busca do desvendamento do mistério.

Embora a história pareça "meia maluca" (e é), ela é muito criativa com momentos realmente surpreendentes nas ações de todos personagens. Fiquei admirado com a imaginação inventiva do autor, juntando tantos personagens conhecidos, mas que nesta história representam papéis, por vezes, um pouco diferente dos contos que conhecemos.

Enfim, a história prende até o final com desfecho, de certa forma surprendente, ou seja, nada convencional. Ao final, Charles Maxwell (que se autodenomina entropista excêntrico) e a Irmã Madeleine, desvendam que o desaparecimento de Chapeuzinho Vermelho, está ligado a uma conspiração mais ampla envolvendo todos esses personagens.

Vale muito a pena esta leitura "diferentona" que mescla realidade com contos de fadas.

Um fato bem bacana, que me deixou muito contente, foi o prazer de receber da Editora Palavra & Verso, o exemplar autografado pelo autor Guilherme Corrêa Bellföx. Mui amables, gracias!!

Professor Mario Mello

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2025

O LIVRO SUA MAJESTADE CIX (109) - QUE TIPO DE CRIATURAS SOMOS NÓS?

 Que tipo de criaturas somos nós? 

Essa pergunta é feita por Noam Chomsky, escritor estadunidense em seu mais recente livro lançado no Brasil. Chomsky é um dos maiores linguistas da história e um dos mais destacados ativistas políticos.

Avram Noam Chomsky é um linguista, filósofo, sociólogo, cientista cognitivo, comentarista e ativista político norte-americano, também é uma das mais renomadas figuras no campo da filosofia analítica. 

Nascido em 1928, Chomsky propõe que a linguagem não é apenas um produto do ambiente, mas uma capacidade inata, presente em todos os seres humanos e moldada por princípios universais. Essa faculdade nos permite criar e entender infinitas sentenças a partir de elementos limitados, revelando a natureza criativa da linguagem.

Chomsky, hoje com 96 anos
No livro, a indagação de Chomsky, não obstante, remete a outras tantas perguntas, que são respondidas nos quatro capítulos do livro que contempla a polivalente personalidade de Chomsky.

O livro é uma excelente introdução às ideias centrais do autor, especialmente sua teoria da linguagem e sua visão sobre a capacidade cognitiva humana. 

A obra se inicia com uma questão aparentemente básica: “O que é a linguagem?" Não há qualquer resposta simples e pronta para essa pergunta. 

As considerações de Chomsky pisam novamente suas formulações teóricas de uma gramática universal ou uma espécie de programa mínimo de um sistema computacional de nossa língua interna natural, instalado em cada um de nós. Relembra e revê en passant pontos de sua teoria gerativa.

Chomsky argumenta que nossa mente possui restrições biológicas inatas que determinam o que podemos conhecer, um conceito influente em diversas áreas do conhecimento.

A obra transita entre filosofia, ciência e política, mantendo o rigor acadêmico e oferecendo insights valiosos sobre como entendemos a realidade. Sua abordagem transdisciplinar é um ponto forte, pois permite ao leitor enxergar conexões entre diferentes campos do saber.

É um ótimo livro, porém a linguagem densa e abstrata, requer bastante concentração para a leitura. Embora o livro seja curto, a escrita de Chomsky pode ser complexa e, por vezes, excessivamente técnica para leitores não familiarizados com filosofia da mente e linguística.

Enfim, o livro é uma reflexão profunda e instigante sobre a natureza humana e os limites do conhecimento, trazendo argumentos que desafiam tanto o cientificismo excessivo quanto as visões simplistas da mente e da linguagem. No entanto, sua abordagem pode parecer excessivamente teórica e especulativa, especialmente diante dos avanços recentes em neurociência e IA.

Apesar de sua densidade teórica, Que tipo de criaturas somos nós? é uma leitura indicada para quem deseja explorar as fronteiras do conhecimento humano e refletir sobre os limites da ciência, da linguagem e da cognição. 

Chomsky apresenta questões fundamentais que transcendem a linguística e dialogam com filosofia e neurociência, desafiando o leitor a pensar criticamente sobre a natureza da mente e nossas capacidades intelectuais.

Boa leitura!

Professor Mario Mello

PS: Este livro comprei e li por ter visto uma postagem da minha amiga Bianca Zasso, jornalista e crítica de cinema, de muita competência.
Obrigado Bianca, ótima dica.



quarta-feira, 29 de janeiro de 2025

O LIVRO SUA MAJESTADE CVIII (108) - VALIENTES

 "Valientes" é um livro adquirido em Buenos Aires, na minha última viagem à charmosa capital argentina.

Escrito por Hernán Brienza é um livro de crônicas de coragem e patriotismo na Argentina do século XIX.

Brienza, nascido em 1971 é escritor, professor na Universidade de Palermo e autor de vários livros.

As crônicas contam a história de vários personagens argentinos que lutaram em várias batalhas e que são heróis, segundo o autor, não tão reconhecidos como outros argentinos.

Brienza ainda diz que foi roubada dos argentinos a épica, pois muitos pensam que heroísmo é uma questão de "fanfarrias" e marchas militares que tantos destroços provocaram nos últimos 80 anos.

O livro, composto de 10 capítulos traz histórias de valentia, patriotismo e lutas por aqueles que consideravam a Argentina sua pátria.

O capítulo 1 contempla a história de Martina Chapanay, apelidada de "la gata",  uma mulher bonita, porém com a beleza dessas mulheres ariscas, desobedientes e vestida como um gaúcho. Martina se dedicou muitos anos a pelear, saquear e repartir o saque com os pobres.

Um dos capítulos que mais gostei, foi o capítulo 10 "Tema del traidor y del héroe - Martiniano Chilavert". O autor faz duas perguntas: "quando um homem começa a transformar-se em um traidor?" e "quando um traidor começa a converter-se em um herói?" 

Martiniano Chilavert transita entre traidor e herói e convive com esta dualidade. Diz o autor que o traidor é herói para muitos e o herói é o traidor para outros. O capítulo é sobre batalhas e a valentia de Martiniano que foi morto em uma resistência à invasores.

As histórias não falam de homens que foram marmorizados pela história. São breves crônicas de personagens Lado B, não reconhecidos pela história oficial do passado.

Hernán Brienza
O livro ainda nos leva a uma profunda reflexão: Onde há heróis, há assassinos. Há mortes. Os heróis nascem na exceção, por isso tem razão Bertold Brecht, quando diz: "desgraçado o país que necessita de heróis".

Enfim, é um livro que relata uma parte da história da Argentina do século XIX. As crônicas são de fácil leitura e para nós gaúchos, traz uma similaridade com termos, territórios e costumes dos personagens contados e "valientes".



PS: A leitura em espanhol faz parte de um dos meus desafios propostos para 2025. Já é o segundo livro, em espanhol, lido em 2025. Estamos indo bem!

Professor Mario Mello

segunda-feira, 27 de janeiro de 2025

O LIVRO SUA MAJESTADE CVII (107) - A DAMA DE ESPADAS

Aleksandr Púchkin (1799-1837)
 Você quer uma história curta com final surpreendente?

Pois é, assim é "A Dama de Espadas" um conto do escritor russo Alexandre Pushkin (ou Aleksandr Púchkin). 

Púchkin é considerado o maior poeta russo e o fundador da moderna literatura russa. Nascido em 1799, herdeiro de uma família de aristocratas, teve contato com a literatura desde criança.

Em sua poesia e prosa, ele revolucionou a literatura russa ao misturar narrativa e sátira com a linguagem vernácula da época.

Curiosidade: morreu num duelo, com apenas 37 anos, para defender sua linda mulher Natália Goncharova.

"A Dama de Espadas" é uma história que se desenrola um volta de jogo de baralho. Em uma roda de amigos, Tómski diz que a avó dele, uma Condessa Russa (nessa época já com 90 anos) tem uma sequência de três cartas que ganha sempre, dando fortunas ao seu ganhador.

Disse um amigo a Tómski: "O quê? Você tem uma avó que adivinha três cartas na sequência, e até agora não extraiu essa cabalística dela?"

Porém, ela não conta o segredo para ninguém, nem para seus filhos e netos. Essa história despertou um fetiche no jovem Hermann que nunca jogou. Apenas acompanhava os amigos nas rodadas de cartas. Dizia Hermann: "não estou em condição de sacrificar o indispensável na esperança de obter o supérfluo"

A história prossegue com Hermann tentando encontrar a Condessa para descobrir quais cartas seriam as "mágicas". Ele consegue ludibriar uma ajudante, Ivánovna, da Condessa, enviando muitos bilhetes se dizendo apaixonado por ela, porém a intenção era chegar na Condessa.

Até que um dia Ivánovna cedeu e marcou um encontro à noite (escondido) na mansão da Condessa. O encontro aconteceu e aí vem todo o mistério do conto.

Óbvio que não vou contar aqui o final, mas ele é surpreendente. 

Posso apenas dizer que a Dama de Espadas estará no final.

Enfim, é um conto com sátira, um certo suspense e principalmente ganância. É uma leitura leve e agradável que justifica a fama do escritor Púchkin.

Boa leitura!

Professor Mario Mello

segunda-feira, 20 de janeiro de 2025

O LIVRO SUA MAJESTADE CVI (106) - LA LIBRERIA DE LOS DESEOS

 "DIME QUÉ LEES Y TE DIRE QUIÉN ERES"

Esta frase está na capa do livro "La libreria de los deseos" e é emblemática.

A história é uma autêntica jóia para os amantes de livros. Escrito pelo francês Éric de Kermel (1963 - ), cada capítulo é um descobrimento maravilhoso.

Trata-se da história de uma professora de Paris, que cansada dos atropelos da cidade grande, muda-se para uma pequena cidade do interior da França, Uzès, e lá adquire a única livraria da localidade.

A protagonista Nathalie, casada com Nathan, um arquiteto, passava férias em Uzès, onde compraram uma pequena casa, bem antes de Nathalie adquirir a livraria. Ir morar em Uzès foi definida por ela, como uma opção de vida, e, assim aconteceu.

Apaixonada pelos livros, Nathalie com ajuda de Nathan e de uma "vizinha" da livraria, Hélène, deixou a livraria com outro aspecto e um novo ar, porém ela não sabia que se convertendo em livreira iria ter tanto carinho com os leitores.

Trecho da Nathalie falando: "Que, después de tanto buscarme a mí mesma, los libros me harían conocer a hombres y mujeres, a niños y mayores, a gente triste, conformista, alegre, a asesinos, a sabios sin hogar, a seductores en horas bajas, a poetas cojos pero luminosos, a enamoradas frígidas, viajeros estáticos, glotones penitentes, a religiosos en busca de sentido... He compartido sus vidas siguiendo sus lecturas. A veces, he ido por delante de ellos gracias a los libros que les he recomendado."

Cada capítulo traz um personagem/cliente da livraria. Desde a jovem Cloé que tinha uma vigilância severa de sua mãe sobre suas leituras e graças a Nathalie se desvinculou desta vigilância, até Sor Véronica uma freira que começou a frequentar a livraria e se tornou grande amiga de Nathalie.

Outro personagem interessante é o Arthur. Carteiro da pequena cidade, que queria ser ator, porém não poderia deixar sua mãe sozinha em Uzès para estudar em Paris. Nathalie emprestou vários livros ao Arthur para ele estudar e ajudou com que ele fosse estudar em Paris e se tornou um ator.

Porém o personagem mais marcante, para mim, foi Bastien, "el mensajero silencioso". Bastien comprava livros e pedia a Nathalie para enviar a certo endereço, e mesmo destinatário, em outra cidade. Isso aconteceu várias vezes, até que o último livro enviado retornou à livraria, com a mensagem de "destinatário não encontrado". Bastien enviava, através da Nathalie, livros a seu pai com quem havia se desentendido e se afastado há muitos anos. Ficou receoso de que o pai teria morrido. Resumindo, Nathalie, através de suas indicações de livros conseguiu que o pai de Bastien viesse até Uzès e a reconciliação pai e filho aconteceu.

Diz Nathalie: "Com cada pessoa que entrou em minha pequena livraria, nasceu uma nova história."

E assim é o livro, cheio de histórias mágicas. O livro traz ainda, mais de 70 indicações de livros, pois a cada cliente Nathalie recomendava alguns títulos. 

Os livros têm braços amplos que se abrem com cada página. Recebem os olhos que se fixam neles, as mãos que os adotam durante o tempo da leitura, folhando cada página.

Sempre gostei muito de livros que tratam de livros e, este é mais uma preciosidade da literatura. Já escrevi aqui no Blog sobre outros livros dessa natureza como: A livraria mágica de Paris; A biblioteca da meia-noite; O livro dos prazeres proibidos;  Os livros que devoraram meu pai (excepcional); O guardião de livros. 

Uma curiosidade: Este livro ainda não foi traduzido para o português. Ele é escrito em espanhol e é um dos desafios meus, fazer várias leituras em espanhol, para melhorar o entendimento do idioma.

Quero também agradecer à minha filha Laura e ao Rodrigo, por trazerem este exemplar direto da Espanha (Casa del Libro).

Por fim, recomendo muito a leitura deste livro, pois ele é encantador!

Professor Mario Mello

domingo, 5 de janeiro de 2025

O LIVRO SUA MAJESTADE CV (105) - O ANDAR DO BÊBADO

 O título do livro é meio intrigante não?

Pois é, o livro trata de como o acaso determina nossas vidas. Best-seller internacional com mais de 200 mil exemplares vendidos no Brasil, "O andar do bêbado" põe em xeque tudo o que acreditamos saber sobre como o mundo funciona. E, assim, nos ajuda a fazer escolhas mais acertadas e a conviver melhor com fatores que não podemos controlar.

Leonard Mlodinow
Escrito por Leonard Mlodinow (nascido em 1954) que é um fisico estadunidense, é autor de livros de divulgação científica, além de escrever para o The New Youk Times. Também escreveu roteiros para as séries MacGyver e Star Trek. 

Uma curiosidade sobre o autor: seus pais foram ambos sobreviventes do holocausto, e se conheceram em Nova York depois da guerra.

O livro traça vários paralelos entre a aleatoriedade e a estatística. Costurando casos emblemáticos com teorias matemáticas e as histórias de vida dos homens que ajudaram a criá-las, Leonard contrói uma narrativa ágil e original.

Nomes de cientistas como Gerolamo Cardano e Blaise Pascal misturam-se aos de celebridades como Madonna, Bill Gates e Stephen King, que devem muito de sua fama ao acaso.


O livro é dividido em dez capítulos, começando pela lente da aleatoriedade, passando pela ordem no caos e finalizando no por que o acaso é um conceito mais fundamental que a casualidade. 

Segundo o autor, os mecanismos pelos quais as pessoas analisam situações que envolvem o acaso são um produto complexo de fatores evolutivos, da estrutura cerebral, das experiências pessoais, do conhecimento e das emoções. 

No livro o autor combina muitos diferentes exemplos para mostrar que notas escolares, diagnósticos médicos, sucessos de bilheteria e resultados eleitorais são, como muitas outras coisas, determinados em grande escala por eventos imprevisíveis. 

O livro trata também de recompensa e punição, onde estudos mostraram que em animais a recompensa funciona melhor, já em alguns casos com humanos a punição traz melhores resultados posteriores (polêmico isso?). 

A parte mais interessante do livro (para mim) é quando o autor diz que a linha que une a habilidade e o sucesso é frouxa e elástica.

É fácil enxergarmos grandes qualidades em livros campeões de vendas, ou vermos fragilidades em manuscritos não publicados. 

É fácil transformar os mais bem-sucedidos em heróis, olhando com desdém para o resto. Porém, a habilidade não garante conquistas, e as conquistas não são proporcionais à habilidade. Assim, é importante mantermos sempre em mente o outro termo da equação - o papel do acaso.

Enfim, o livro traz a reflexão de que o papel do acaso no mundo que nos cerca, vai mostrar de que modo podemos reconhecer sua atuação nas questões humanas.

Finalizo com uma frase de Thomas Watson, o pioneiro da IBM, um dos personagens citados no livro:

"Se você quiser ser bem-sucedido, duplique sua taxa de fracassos."

Boa leitura!

Professor Mario Mello

quinta-feira, 2 de janeiro de 2025

O LIVRO SUA MAJESTADE CIV (104) - O SENTIDO DA VIDA

Contardo Calligaris (1948-2021)
 Você se importa em ser feliz? 

Pois essa indagação é abordada no livro "O Sentido da Vida" escrito por Contardo Calligaris.

Calligaris foi um renomado escritor e psicanalista italiano que se radicou no Brasil há muitos anos, fazendo palestras e escrevendo para um jornal.

"O Sentido da Vida" é uma obra que explora questões profundas e existenciais de forma acessível e reflexiva. Calligaris, conhecido por sua habilidade em conectar temas complexos da psicanálise e filosofia com o cotidiano, oferece uma abordagem única para a busca de significado na vida.

Uma das muitas passagens interessantes, que destaco, é que o pai de Contardo tinha em casa uma biblioteca com várias estantes e livros. Em algumas estantes haviam buracos entre os livros.  Disse o pai do autor: "há livros que são escritos para tapar os buracos da estante, e há livros que são escritos para preservar os buracos na estante."

E aí? O que você acha? 

"O Sentido da Vida" foi entregue pelo autor poucos dias antes de sua morte e reune três textos breves, porém muito potentes, sobre a obrigação da felicidade, o "morrer bem" e o sentido da vida.

Calligaris trata a felicidade como um conceito subjetivo e, muitas vezes, ilusório, que está diretamente relacionado às narrativas que construímos sobre a nossa vida. Ele questiona a ideia de felicidade como um objetivo fixo ou um estado permanente, argumentando que ela está mais associada à maneira como vivemos nossos desejos, lidamos com nossas insatisfações e encontramos sentido em nossas experiências.

"Felicidade um preocupação desnecessária". O autor diz que em vez de se preocupar com a felicidade e seu mistério, preferia se esforçar para viver uma vida interessante onde você se autoriza a viver com toda a intensidade, que todos os momentos da nossa vida merecem.

Na sequência ele aborda a questão do "un bel morrir", ou morrer bem.
A morte de Sêneca
Para o autor, o bel morrir não se trata de uma morte idealizada, mas de um convite a viver de maneira autêntica e coerente com nossos desejos e valores. 

Ele argumenta que pensar no fim da vida pode ser um estímulo para construir uma existência significativa, onde cada escolha e ação seja vivida com consciência. 

Assim, a ideia de um "belo morrer" está mais ligada a uma vida vivida plenamente, sem arrependimentos por aquilo que deixamos de fazer ou de ser.
O bel morrir, nesse sentido, está menos relacionado ao momento da morte em si e mais ao legado emocional e narrativo que deixamos – as histórias que construímos e o impacto que causamos nas vidas ao nosso redor.

O autor aborda a morte de Sêneca que foi aconselhado por seu amigo o Imperador Romano Nero, a suicidar-se. Sêneca chamou a mulher e alguns de seus amigos, cortou os pulsos e sangrou até a morte.

É um pouco chocante, mas ninguém quis impedir Sêneca de morrer, pelo contrário, acompanharam seu fim. Isso está retratado na tela pintada por David em 1773.

O terceiro capítulo do livro chama-se: o sentido da vida e a bizarra obrigação de sermos felizes.

Calligaris ressalta que a busca pela felicidade pode ser, paradoxalmente, uma fonte de angústia quando é idealizada como um estado de plenitude impossível de alcançar. Ele sugere que a felicidade não está na ausência de problemas, mas na capacidade de encontrar prazer e significado nas pequenas coisas do cotidiano, no desejo que nos move e na aceitação das imperfeições da vida.

O autor também desafia a ideia de que a felicidade seja algo "pronto" a ser encontrado ou conquistado, como um destino final. Em vez disso, ele defende que ela é construída no percurso, na autenticidade com que vivemos e na forma como lidamos com as contradições inevitáveis da existência. 

Essa abordagem humanista e realista oferece um contraponto às visões mais simplistas ou idealizadas sobre o que significa ser feliz. 

Por fim, o autor traz o que ele diz de a grande lição de seu pai, que é a ideia de que a questão do sentido da vida é simples: o sentido da vida é a própria vida concreta. A que vivemos e da qual faz parte também morrer.

É um livro de muitas reflexões.
Boa leitura!!

Professor Mario Mello

Como tradicionalmente acontece no Natal, este livro foi um presente da minha querida sobrinha Carolina Zago Cervo. 
Sempre acerta em cheio, com seus presentes. 
Obrigado Caro. 😘