segunda-feira, 15 de novembro de 2021

O LIVRO SUA MAJESTADE LXXXIII - DE ONDE VÊM AS BOAS IDEIAS

 Para os estudiosos do processo de inovação, este livro é um prato cheio. De onde vêm as boas ideias - uma breve história da inovação - foi escrito pelo americano Steven Johnson (1968 - ), em 2010 e teve sua primeira edição em português em 2011.


Steven Johnson considerado um autor americano de ciência popular e teórico da mídia, descreve no livro, métodos e práticas para desenvolver ideias. Segundo o autor as grandes inovações criadas pela humanidade, não resultam de prodigiosos talentos individuais, ou de mentes superiores isoladas.

Ao contrário, as maiores invenções precisam de ambientes propícios nos quais possam se desenvolver.

Indicado para pessoas que desejam aprender métodos inovadores para pôr em prática ideias que facilitem a vida de todos.

Além de trazer fatos históricos sobre as principais inovações do mundo, o livro cria paralelos divertidos, inesperados e reveladores, através de sete características fundamentais dos processos de inovação, desenvolvidos pelo homem e pela natureza.

Desde a teoria da evolução de Darwin, até a criação do Youtube, Steven Johnson identifica os ambientes humanos mais férteis em pensamentos originais. Johnson defende, por exemplo, que as grandes cidades têm muito mais talentos e se fortificam através de redes para gerar processos de inovação. Sua justificativa é que as grandes cidades têm muito mais necessidades de solução de problemas, criando assim o ambiente propício para os talentos desenvolverem processos inovativos. Ele explica que o "possível adjacente", ou seja, as coisas que não são estáticas e estão conectadas criam redes e auxiliam muito no desenvolvimento de novas ideias.

Uma passagem muito interessante do livro e que diz respeito às redes é a seguinte:

"Um neurônio médio conecta-se com mil outros neurônios espalhados pelo cérebro, o que significa 100 trilhões de conexões neurais distintas, fazendo dele a maior e mais complexa rede existente na Terra. Em comparação há algo na ordem de 40 bilhões de páginas na Web. Supondo uma média de dez links por página, significa que você e eu andamos por aí tendo, dentro de nossos crânios, uma rede de alta densidade muitas ordens de magnitude maior que toda a Web." Incrível isso!!

Steven também defende que a causalidade pode gerar muitas modificações na sociedade e que a intuição também faz parte dos processos de inovação.

No capítulo do aprendizado com o erro, o autor traz vários exemplos históricos de inovação que aconteceram com o erro da pessoa que estava desenvolvendo aquele processo e o erro/equívoco gerou uma nova descoberta. O erro muitas vezes cria um caminho que desvia das suposições confortáveis, forçando a explorar novas possibilidades. 

"O problema do erro é que temos uma tendência natural a desprezá-lo." Eis o erro!

Prensa de Gutenberg
No capítulo sobre "Exaptação"(processo de reuso de um artefato ou uma característica já adaptada, para um uso definido), Steven traz o exemplo da prensa de uvas para fazer vinho usada ainda na Idade Média e que Gutenberg introduziu algumas modificações brilhantes na metalurgia subjacente ao sistema de tipo móvel. Ou seja, a genialidade de Gutenberg não está em conceber uma tecnologia inteiramente nova a partir do zero, mas em tomar emprestada uma tecnologia madura (prensa) de um campo inteiramente diferente e usá-la para resolver um problema de outra natureza. Assim, Gutenberg criou a prensa de tipos móveis e começou a democratização do conhecimento.

"Gutenberg pegou uma máquina destinada a embriagar pessoas e transformou-a numa máquina para a comunicação em massa."

O sétimo capítulo fala sobre as Plataformas para difusão de ideias. O ambiente do "cafezinho" é um ótimo local para difundir novas ideias e gerar novos projetos. A cafeteria do Laboratório de Física Aplicada da Universidade Johns Hoppkins nos EUA, teve importante papel no desenvolvimento da comunicação, quando cientistas tomando café criaram um decodificador de sinal que conseguia receber as mensagens do satélite russo Sputnik. Isso foi uma das bases para a criação do GPS.

As plataformas de software, muita vezes chamadas de API é uma espécie de língua franca que aplicativos de software podem usar de maneira confiável para se comunicar uns com os outros. Exemplo, Twitter, Facebook, Instagram, Google Maps, entre tantos outros. Ou seja, a Web é uma plataforma em pilhas, uma sobre a outra, onde elas não partem do zero e sempre podem agregar uma nova pilha. Ou seja, as conexões das cidades grandes e as conexões da Web, nunca partem do zero.

A abordagem sobre os quatro quadrantes das ideias e inovações ressalta a parte comercial e a não comercial.

O primeiro e o segundo quadrantes se referem às ideias individuais e coletivas com interesse mercantil, Já o terceiro e o quarto quadrantes se referem às ideias também individual e coletivas, porém sem interesse econômico. Do ano de 1800 para cá, o fluxo de informações cresceu absurdamente o que remete a muitas novas boas ideias.

O livro ainda aborda, como apêndice, uma excelente cronologia de inovações fundamentais de 1400 a 2000. É uma parte preciosa do livro.

Assim, o livro traz excelentes reflexões sobre as ideias de inovação. As ideias surgem em abundância, onde a conexão é mais valorizada que a proteção.

É uma leitura um pouco técnica, mas de muita valia para entender mais sobre inovação.

Professor Mario Mello


sábado, 13 de novembro de 2021

O LIVRO SUA MAJESTADE LXXXII - OS RATOS

 Publicado em 1935, "Os Ratos" do escritor gaúcho Dyonelio Machado (1895-1985) é um dos romances mais importantes da literatura brasileira.

Fui "rebuscar" este livro em minha biblioteca, pois o havia lido em 1984. Foi um livro que me marcou bastante à época, pela simplicidade da escrita de um cotidiano difícil para um pai que precisa de dinheiro para sustentar o leite para seu filho pequeno.

Dyonelio Machado foi um dos principais expoentes da segunda geração do Modernismo no Brasil. Dyonelio foi romancista, poeta, jornalista e médico psiquiatra. 

Reverenciado por escritores consagrados como Érico Veríssimo, Mário de Andrade, Guimarães Rosa, entre outros, Dyonelio foi multifacetado, polêmico, mas de grande valor.
Disse Érico Veríssimo certa vez: "De vez em quando leio algum critico afirmar que quem primeiro fez a ficção urbana no Brasil, fui eu. Engano. Que começou foi Dyonelio. O futuro dirá, como este escritor era importante."

Guimarães Rosa disse: "Se o livro do Dyonelio tivesse sido escrito em Francês ou em Inglês e por autor estrangeiro, era Premio Nobel, sem dúvida."

Os Ratos descreve uma sociedade contemporânea preocupada com o dinheiro. O sofrimento do protagonista Naziazeno pela falta de dinheiro é a trama principal do romance.
Devendo 53 mil réis ao leiteiro, que não aceita mais desculpas e vai cortar o fornecimento do leite no dia seguinte, leva Naziazeno à uma preocupação sem fim.
O desespero bate em Naziazeno, pois ele tem um filho de 1 ano que precisa do leite. 
A pequena miséria e as frustrações do cotidiano refletem no protagonista um caminhar sem rumo e o laço moral de um pai que precisa saldar a dívida com o leiteiro.
O romance se passa em um único dia. Naziazeno sai de manhã cedinho para o trabalho e tudo acontece neste dia, pois a busca pelo dinheiro necessário é urgente.
Seu primeiro alvo para conseguir o dinheiro é seu chefe da repartição onde trabalha. A resposta do chefe foi: "Eu já o ajudei. Não me peça mais nada."
E assim, Naziazeno tem sua primeira negativa.

Depois procura pelos amigos Alcides e Duque que prontificam-se em ajudá-lo.

Nesta trama novelesca, o incentivo imediato da ação foi a necessidade, tornada urgente pela ansiedade coletiva do grupo de arranjar o dinheiro para saldar a dívida.

Naziazeno conseguiu 5 mil réis com outro amigo. Como era pouco dinheiro, resolve (sem os outros amigos saberem) jogar na roleta. O desfecho é previsível: perdeu os 5 mil no jogo. Naziazeno não poderia voltar para casa sem o dinheiro. A angústia e o sofrimento só aumentava. Neste ponto, Dyonelio Machado manifesta toda sua genialidade com a escrita.

Depois de muitas passagens, negativas de agiotas, fome, a pequena miséria durante todo o dia, à noitinha o grupo consegue convencer uma outra pessoa a desembolsar uma quantia, recebendo em garantia um anel do amigo Alcides.

Depois de todo o sofrimento do dia, Naziazeno volta para casa com o dinheiro que conseguiu emprestado. Sua mulher, ansiosa, estranhara o atraso do marido, porém se acalmou com a notícia de que Naziazeno tinha conseguido o dinheiro para o leiteiro.

A partir daqui, o final é dramático. Naziazeno e a mulher resolvem deixar o maço de dinheiro com os 53 mil réis, na cozinha, ao lado do pote onde o leiteiro pela manhã bem cedo faria o abastecimento. Para não acordarem muito cedo resolveram que o leiteiro vendo o dinheiro, o pegaria e estaria tudo certo para a manutenção do fornecimento de leite.

Será que os ratos vão comer o dinheiro?
De tão cansado pela angústia do dia inteiro, Naziazeno não consegue dormir bem, revira-se na cama o tempo inteiro e começa ouvir barulhos de ratos andando pela casa toda.
Este final é brilhante, talentoso e muito imaginativo.


Depois de tanto sofrimento de Naziazeno para conseguir o dinheiro, será que os ratos vão come-lo?
Será que todo esforço para conseguir o dinheiro será frustrado?
Os ratos trarão este revés?

A resposta o leitor terá apenas no último parágrafo do livro. 
O talento deste fantástico Dyonelio Machado, prende o leitor até a última palavra, para o desfecho do romance.

Estupendo romance!!!!

Professor Mario Mello


sábado, 6 de novembro de 2021

O LIVRO SUA MAJESTADE LXXXI - O PROFESSOR

 "O professor", romance escrito por um dos mais celebrados escritores brasileiros contemporâneos, Cristovão Tezza, traz um forte personagem, o professor Heliseu, como protagonista.

O escritor Cristovão Tezza (1952 - ) escreveu mais de uma dezena de livros e recebeu vários prêmios literários ao longo de sua trajetória. Em uma entrevista sobre o livro "O professor", Cristovão diz, que sem dúvida, é o seu mais completo romance. Um livro "maduro", que de certa forma aborda o envelhecimento com suas memórias e fantasmas.

O professor Heliseu narra uma história afetiva emocional em torno da sua vida - buscar o sentido da vida. Toda a narrativa acontece em apenas uma manhã, quando o professor acorda e se prepara para receber uma homenagem da universidade, pela sua brilhante trajetória. 

Num curto espaço de tempo entre o acordar, tomar café da manhã e tomar banho, Heliseu faz uma incrível retrospectiva da sua vida, narrando fatos desde sua infância até este momento, aos 70 anos, enquanto se prepara para ir à universidade receber a homenagem.

Professor de Filologia (estudo da linguagem em fontes históricas escritas, incluindo literatura, história e linguística), formado nos anos 60, Heliseu faz sua narrativa dos vários fatos de sua vida, como se estivesse em busca do tempo perdido. Heliseu é tomado por uma sucessão incontrolável de memórias.

O talento do autor se revela em relacionar as passagens narradas pelo professor Heliseu, com algum fato da história recente do Brasil. Fatos como, as diretas já, o Plano Cruzado, a inflação galopante da época de Sarney, o confisco da poupança pela ministra Zélia Cardoso, entre outros vão sendo relacionados com a vida de Heliseu.

Cristovão Tezza

Neste dia da narrativa, enquanto tomava seu café da manhã preparado por Dona Diva, que era sua empregada doméstica, desde que casara, lendo o jornal deparou-se com a notícia da renúncia do Papa Bento XVI. Como pode um Papa renunciar? Esta indagação o acompanhou até o final da história.

Heliseu casou-se com Mônica, funcionária do Banco do Brasil e teve um filho. Os conflitos familiares começam quando Heliseu flagra seu filho com um namorado. Não sendo aceito, o filho se muda para os EUA e praticamente rompe as relações com o pai.

Na universidade, Heliseu tem uma paixão desestabilizadora de sua vida, pela jovem Therèze. Francesa, Therèze busca em Heliseu o professor orientador de seu doutorado. Heliseu passa então a levar uma vida dupla e de certa forma consentida pela mulher Mônica que aos poucos vai se afastando dele com a amiga Úrsula.

Nesta época acontece uma tragédia. Mônica cai da sacada do apartamento e morre. Sem culpa pelo acidente, Heliseu é investigado e de certa forma, muitos amigos, inclusive na sala de cafezinho da universidade, desconfiam que ele tenha matado a esposa.

Enfim, o tempo passa e Heliseu, agora sozinho, só pensa no discurso que deve fazer na homenagem. Assim, a história vai se conduzindo a este final. 

De forma magistral o autor prende o leitor até a última página. 

As lembranças do professor e o acerto de contas com seu passado estão sempre em conflito com "o sentido da vida", perseguido pelo professor. É uma história extraordinária de um professor, suas memórias e sua vida real.

Vale muito a pena a leitura. Um magnífico romance!

Professor Mario Mello


domingo, 24 de outubro de 2021

O LIVRO SUA MAJESTADE LXXX - FOME

 Obra-prima do escritor Norueguês, Knut Hamsun, o romance "Fome" escrito em 1890, influenciou sobremaneira as tendências da literatura do inicio do século XX.

Exemplar do Círculo do Livro, 1977
Adquiri este exemplar em 1977, quando então existia um clube de livros chamado Círculo do Livro S.A. Vejam que o que temos hoje como "assinatura" de vários serviços e produtos, já existia na década de 1970 para livros. Eu pagava uma mensalidade e todo mês recebia dois livros "surpresa".

Li "Fome" naquela época e lembro que fiquei extremamente impactado com o furor da fome. 44 anos depois, vendo que nada ou pouco mudou no mundo em relação à fome, resolvi reler o romance. Infelizmente a humilhação e a dor da fome assola, ainda, milhões de pessoas pelo mundo afora. 

Knut Hamsun ( 1859 - 1952), como Victor Hugo, conheceu desde a infância a miséria, a injustiça, a maldade e fez delas o tema constante em toda sua obra, a exemplo de Victor Hugo. Victor Hugo em seu clássico "Os miseráveis" retrata o desespero, a fome e a agonia de uma personagem que vendia seus dentes para ter algum dinheiro para comer. Knut Hamsun retrata os mesmos sentimentos de um personagem que não tendo mais nada para vender, oferecia seu óculos em troca de poucas moedas para comprar um pão.

Knut Hamsun

Genial em seus romances, Knut ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1920. Infelizmente sua escolha política pelo nazismo o levou à prisão ao fim da segunda guerra mundial. Por isso, embora toda sua genialidade, praticamente não existem homenagens a ele, na Noruega.

O romance "Fome" é muito impactante e ao mesmo tempo de uma simplicidade também impactante, pois retrata fatos corriqueiros do dia-a-dia do personagem protagonista. 

Hamsun nem nome deu ao protagonista de "Fome". Narrado sempre na primeira pessoa, o protagonista era um escritor que vendia artigos para o jornal da cidade (Jornal Morgenbladet, que existe até hoje na Noruega). Porém, isso nem sempre era possível, pois o jornal acabava recusando muitos artigos e com isso, não tinha dinheiro nem para comer.

A humilhação, o sofrimento e a fome era tanta que chegou ao extremo do escritor tentar vender os botões de seu único paletó para tentar algumas moedas para comprar comida. Não teve sucesso. E assim ele passava perambulando pela cidade para passar o tempo e tentar a busca de comida. Chegava ficar semanas sem comer nada, até algum artigo render poucas moedas.

Um dia o escritor precisava de uma vela para poder escrever à noite, mas não tinha dinheiro para comprar a vela. Foi até uma loja na esperança de conseguir a vela "fiado". Porém, para sua surpresa o atendente se enganou e achou que tinha recebido dele uma nota de 5$ e deu a vela e o troco para ele. Embaraçado e surpreso ele pegou o dinheiro e a vela e saiu. Começa então, uma tortura psicológica em seu inabalável caráter. Diz ele:

"Aquele dinheiro me pesava no bolso, não me deixava em paz. Investigando bem no fundo de mim, descobri que antes era mais feliz, quando sofria, porém com toda honestidade. Oh meu Deus!" Livrou-se em seguida do dinheiro doando a outro pobre.

A fome o perseguia diariamente. A miséria e a humilhação era uma constante em seus dias. Chegava muitas vezes a mascar gravetos encontrados na rua. Sua aparência era cada vez mais cadavérica. Possuía apenas uma muda de roupa e não tinha residência fixa. Morava um tempo em algum quarto alugado, porém não tinha dinheiro para pagar o aluguel e era mandado embora. Assim, aconteceu várias vezes.

O personagem sofre com os efeitos físicos e morais da subnutrição. A fome causa a loucura e empurra a pessoa à morte. Ultrapassa as fronteiras da sanidade.

Como sempre faço nos textos, não vou contar o final do romance. Só vou dizer que, praticamente, não tem final. A fome não tem fim.

Enfim, o livro é muito triste. A agonia que passa o protagonista traz uma grande perturbação ao leitor. Porém é uma leitura "obrigatória" na reflexão ao amor ao próximo. Essa maldição e humilhação chamada fome, que muitos de nós nunca passou deveria ser proibida no mundo. Não sei e não tenho a solução para o mundo. Mas sei que posso ajudar localmente a diminuir esse sofrimento de alguns.

É um livro que vale muito a leitura, pois não tem como ficar indiferente a esse "grito".

Professor Mario Mello

segunda-feira, 11 de outubro de 2021

O LIVRO SUA MAJESTADE LXXIX - TORTO ARADO

 Romance escrito em 2019, pelo jovem escritor brasileiro, Itamar Vieira Junior (1979-), "Torto Arado" conta a história de duas irmãs gêmeas que vivem numa fazenda no interior da Bahia, ainda em trabalho escravo.

Mesmo após a abolição da escravatura, muitas regiões brasileiras ainda mantiveram o trabalho escravo ainda por muitos anos.

Vencedor de vários prêmios recentes, "Torto Arado" é um romance que retrata, com muita habilidade narrativa, um Brasil dolorosamente encalhado no próprio passado escravagista. 

As protagonistas Bibiana e Belonísia (gêmeas) viveram com sua família, praticamente toda sua vida em uma fazenda. As regras "não-escravas" da fazenda eram as seguintes: não podiam construir nenhuma casa que não fosse de barro; não recebiam nenhum dinheiro pelo trabalho na fazenda; podiam ter uma horta para sua subsistência; e ainda, deviam doar alguma parte da colheita da horta para o capataz da fazenda.

A emocionante história começa quando em uma brincadeira de criança, Bibiana e Belonísia, ao mexer em uma mala de sua avó, acham uma velha e misteriosa faca.

Ocorre, então, um acidente com a faca e as meninas que acaba ligando ainda mais as duas irmãs. Com o passar do tempo essa ligação vai se desfazendo aos poucos. 

Na fazenda existem ritos de uma religião, de origem africana, que era comandada pelo pai das meninas e que é uma parte importante da história. Havia muitas reuniões com as pessoas da região para celebrar os atos religiosos. As meninas cresceram, viraram mulheres e uma nova etapa do romance aparece.

Pela influência do pai, Zeca Chapéu Grande, foi construída uma escola na fazenda o que determinou um novo ciclo de convivência com os trabalhadores da fazenda e de outras próximas. O sonho de Belonísia era ser professora. Ela cresceu, casou e mudou-se para a cidade onde pode ser professora.

Os ritos religiosos se sucedem na fazenda e os encontros vão diminuindo até que Zeca Chapéu Grande morre. Neste mesmo período a fazenda foi vendida para outros donos que fazem várias mudanças na rotina dos empregados. Tudo muda!!!

Na trama, brilhantemente conduzida pelo autor, quase sempre as mulheres são as protagonistas. O sofrimento das mulheres é comovente nesta triste história de uma época em que o Brasil dizia ter libertado a escravidão.

Enfim, é uma história cheia de Brasil que relata um tanto de insubordinação social, traumas familiares, exploração, misticismo afro-brasileiro, mas acima de tudo uma garra das protagonistas Bibiana e Belonísia na ânsia de viver.

É um belíssimo romance de uma leitura agradável, pela sua escrita, mas de uma enorme tristeza pelo sofrimento dos trabalhadores da época. As personagens são gigantes!!!!

Não deixe de ler. É um achado da literatura recente brasileira e um retrato de um Brasil ainda tão recente.

Professor Mario Mello


domingo, 10 de outubro de 2021

O LIVRO SUA MAJESTADE LXXVIII - A LIVRARIA MÁGICA DE PARIS

 "Ouvir em silêncio era a base para a avaliação profunda da alma". 

"As burrices do amor são as mais bonitas, mas se paga muito caro por elas".


Com frases desta qualidade o livro "A livraria Mágica de Paris" nos traz uma emocionante história de amor, aventura e desprendimento. Diria que ingredientes frequentes e costumeiros nos romances. 

Porém, neste livro, esses ingredientes se tornam inusitados pelas buscas e pelos pretextos dos protagonistas da história. É uma emocionante história de amor, de perda e do poder dos livros.

O livro, escrito por Nina George (1973-) é uma carta de amor aos livros e para quem acredita no poder que as histórias têm de influenciar nossas vidas.

Monsieur Perdu, o protagonista, se considera um "farmacêutico literário". Ele possui um barco-livraria, ancorado no Rio Sena, em Paris, de onde ele prescreve livros para as diversas dificuldades da vida, fazendo uma análise intuitiva de seus clientes.

Perdu utilizava os ouvidos, os olhos e o instinto. A partir de uma simples conversa, era capaz de identificar em uma alma o que lhe faltava.

Que incrível isso!! Já pensou? Em vez de remédios, livros?

E assim era Monsieur Perdu. Muitas vezes deixava de vender livros, pois não via ligação do livro com o "paciente". Monsieur Perdu vendia romances como se fossem remédios que amenizassem o sofrimento da alma. Porém, o único sofrimento que não conseguia curar era o seu.

Perdu sofreu uma desilusão amorosa há 21 anos quando seu amor, Manon, o abandonou quando dormia, deixando apenas uma carta. Carta essa, que Perdu não teve coragem de ler. A desilusão foi tão grande que somente após 21 anos Perdu leu a carta deixada por Manon. A leitura da carta foi provocada por uma nova vizinha, Catherine, que se mudou para o prédio onde Perdu morava e recebeu dele como ajuda para montar o apartamento uma velha mesa, onde na gaveta, estava a carta de Manon. Catherine "forçou" Monsieur Perdu ler a carta e então começa a louca aventura de Perdu.

Na verdade, Manon era amante de Perdu, pois era casada com Luc e morava na Provence, região francesa próxima do Mediterrâneo. Perdu sabia de Luc,  Luc sabia de Perdu e Manon dizia que amava os dois. O conteúdo da carta não vou aqui revelar, para não tirar a curiosidade de quem vai ler o livro. Posso dizer, apenas, que é chocante!

Roteiro de Monsieur Perdu

Numa bela manhã de verão Parisiense, Monsieur Perdu abandona Paris, desatraca seu barco do cais e parte para uma jornada que o levará para o coração da Provence em busca da história com seu amor Manon. Nesse movimento de partida, um jovem escritor e vizinho de Perdu, Max, intui o que está acontecendo e se joga no Sena para alcançar Perdu e partir junto. Assim, juntos partem sem dinheiro, sem roupas, sem muitos mantimentos, apenas em busca de "vida".

O que achei muito bacana no livro é que existe na contracapa um mapa do roteiro que Perdu faz com seu barco. É muito legal, pois o leitor vai acompanhado pelos vários rios e cidades onde o barco-livraria navega.

Nesta aventura da navegação Perdu e Max se tornam muito amigos e dependem um do outro. As conversas, silêncios e reflexões são muito divertidas, muitas vezes bem-humoradas e aprazíveis.

Numa das cidades, se metem em uma confusão num baile e encontram o italiano Cuneo. Cuneo era um espirituoso cozinheiro além de ser "boa gente". Como tiveram que sair às pressas da cidade, Cuneo se incorpora ao barco e parte junto com Perdu e Max. Na viagem encontram uma mulher supostamente se afogando no rio. Depois de algumas aventuras a mais, Samantha também se incorpora ao barco e parte junto. Cuneo se apaixona por Samantha e esta é outra história a parte na viagem. Mais tarde, descobrem que Samantha é também escritora, uma das preferidas de Perdu. Que história!!!!!

Passados alguns dias de viagem, chega o ponto de se separarem. Perdu e Max deixam o barco e partem de carro para Bonnieux, cidade onde Manon morava. Perdu não tem coragem de investigar mais sobre Manon e resolve morar um tempo em Sanary, famosa praia do Mediterrâneo, próxima a Toulon. Consegue emprego numa livraria e assim passa alguns meses na cidade. Porém, sua busca por Manon, não sai de sua cabeça. Um dia resolve encarar o retorna à Bonnieux para se encontrar com Luc o marido de Manon.

E assim é o epílogo da incrível história do "farmacêutico literário". Lá ele descobre Victória, uma linda jovem, filha de Manon. Neste epílogo ainda tem muitas aventuras para descobrir no livro.

Quem sabe, talvez todos nós tenhamos nossas tarefas no Grande Livro chamado La Vie.

Enfim, é uma história emocionante de amor, onde Perdu, compartilhando a sabedoria dos livros, demonstra que o mundo da literatura pode conduzir a alma humana pelo caminho da cura.

Dizia Monsieur Perdu:

 "Eu vendo livros como remédios. Existem livros que servem para um milhão de pessoas; outros para uma centena apenas. Há até remédios, perdão, livros que são escritos para uma única pessoa".

Salve salve sua majestade, LIVROS!!!!

Professor Mario Mello

domingo, 26 de setembro de 2021

O LIVRO SUA MAJESTADE LXXVII - A BONECA DE KOKOSCHKA

Do autor português Afonso Cruz (1971-) o livro "A boneca de Kokoschka" traz em seu enredo o que o autor faz questão de lembrar-nos a todo momento: "são os outros que nos fazem viver". 

A história começa na cidade de Dresden, localizada no leste da Alemanha, devastada pela segunda guerra mundial.

Dresden destruída pelo bombardeios
Dresden foi uma das cidades alemãs que mais recebeu bombardeios dos aliados na segunda guerra. Foram lançadas mais de 3.900 toneladas de bombas na cidade, destruindo-a, quase que totalmente. 

Neste cenário, Bonifaz Vogel, esconde na sua loja de pássaros o jovem judeu Isaac Dresner. Escondido num alçapão, Dresner se tornou uma voz misteriosa para Bonifaz, aconselhando-o sempre nos negócios de pássaros.

O livro além de ser um emocionante romance, ainda chama atenção por passagens muito reflexivas no nosso cotidiano. Uma delas, é quando Bonifaz Vogel, muitas vezes abria as portas das gaiolas, sem que os pássaros fugissem. 


Os pássaros ficavam encolhidos a um canto, tentando evitar olhar para aquela porta aberta, desviando os olhos da liberdade, que é uma das portas mais assustadoras. Só se sentiam livres dentro das gaiolas, ou seja, as gaiolas estavam dentro deles.

A partir daí, vão entrando em cena vários persongens, incluindo Mathias Popa, autor de "A boneca de Kokoschka". Já dá para perceber que temos um livro dentro de outro livro. Essa é uma característica marcante do autor Afonso Cruz, que possui uma maestria para colocar personagens dentro de personagens, como fez brilhantemente em outra obra sua chamada "Os livros que devoraram meu pai".

Um dos protagonistas, Mathias Popa, foi um grande músico e autor de outros livros. A outra protagonista Anasztázia Varga era uma milionária francesa que herdou do pai uma grande fortuna. O pai Zsigmond Varga tinha mais de 50 filhos, porém apenas 8 eram considerados legítimos e Anasztázia era a mais jovem. Os demais filhos de Zsigmond se perderam ao longo do tempo e da história, e apenas Anasztázia teve sua vida colocada no livro de Mathias Popa.

Anasztázia sempre fora muito caridosa e numa de suas viagens para a África, conheceu no navio o jovem Mathias Popa com quem teve um fulminante e inesquecível (até o final da história) romance. Anasztázia ficou grávida de Mathias, porém o mesmo desapareceu e nunca mais encontrou com ela.

A desilusão foi muito grande até seus últimos dias de vida. Já sem forças e acamada por anos, Anasztázia é cuidada pela neta Adele. Aqui, começa outra história dentro da história.

Nesse padecimento de Anasztázia diz o autor: "a horizontalidade (se referindo a sofrer deitada em uma cama) é um dos maiores sintomas da morte". Que pura verdade!!!

Adele vendo o sofrimento da avó parte em busca do paradeiro de seu avô. Ela não sabia nome, idade, cidade...nada sobre o avô. Com ajuda de um detetive encontra o judeu, Isaac Dresner, que vivia na loja de pássaros de Vogel e que conheceu Mathias Popa. O enredo é incrível e cheio de buscas do passado para ajudar Adele a desvendar o mistério.


Quando Adele consegue um exemplar do livro "A boneca de Kokoschka" tudo começa a ficar muito claro.

Assombrosas coincidências onde a realidade se confunde com a ficção, fazem de Adele outra protagonista da história, dentro da história de Mathias Popa. 

Essa é uma das grandes virtudes do autor Afonso Cruz. Ele não se limita a contar fatos. Nos traz uma espécie de leituras paralelas, ou seja, lemos um livro, dentro de outro livro, dentro de outro livro, até nos perguntarmos, mas afinal qual livro estava lendo? É uma sensação extraordinária num mundo feito de acasos e fatos reais. 

Assim se desenvolve esta fabulosa história cheia de nuances muito reais.

O último capítulo chamado "O fim" é de uma talentosa criatividade. Não vou obviamente contar aqui, mas a última frase do livro é de arrepiar. Não tem como não se emocionar com esta frase.

Não deixe de ler este livro. É admirável!!!!

Professor Mario Mello