Fui "rebuscar" este livro em minha biblioteca, pois o havia lido em 1984. Foi um livro que me marcou bastante à época, pela simplicidade da escrita de um cotidiano difícil para um pai que precisa de dinheiro para sustentar o leite para seu filho pequeno.
Dyonelio Machado foi um dos principais expoentes da segunda geração do Modernismo no Brasil. Dyonelio foi romancista, poeta, jornalista e médico psiquiatra.Reverenciado por escritores consagrados como Érico Veríssimo, Mário de Andrade, Guimarães Rosa, entre outros, Dyonelio foi multifacetado, polêmico, mas de grande valor.
Disse Érico Veríssimo certa vez: "De vez em quando leio algum critico afirmar que quem primeiro fez a ficção urbana no Brasil, fui eu. Engano. Que começou foi Dyonelio. O futuro dirá, como este escritor era importante."
Guimarães Rosa disse: "Se o livro do Dyonelio tivesse sido escrito em Francês ou em Inglês e por autor estrangeiro, era Premio Nobel, sem dúvida."
Os Ratos descreve uma sociedade contemporânea preocupada com o dinheiro. O sofrimento do protagonista Naziazeno pela falta de dinheiro é a trama principal do romance.
Devendo 53 mil réis ao leiteiro, que não aceita mais desculpas e vai cortar o fornecimento do leite no dia seguinte, leva Naziazeno à uma preocupação sem fim.
O desespero bate em Naziazeno, pois ele tem um filho de 1 ano que precisa do leite.
A pequena miséria e as frustrações do cotidiano refletem no protagonista um caminhar sem rumo e o laço moral de um pai que precisa saldar a dívida com o leiteiro.
O romance se passa em um único dia. Naziazeno sai de manhã cedinho para o trabalho e tudo acontece neste dia, pois a busca pelo dinheiro necessário é urgente.
Seu primeiro alvo para conseguir o dinheiro é seu chefe da repartição onde trabalha. A resposta do chefe foi: "Eu já o ajudei. Não me peça mais nada."
E assim, Naziazeno tem sua primeira negativa.
Depois procura pelos amigos Alcides e Duque que prontificam-se em ajudá-lo.
Nesta trama novelesca, o incentivo imediato da ação foi a necessidade, tornada urgente pela ansiedade coletiva do grupo de arranjar o dinheiro para saldar a dívida.
Naziazeno conseguiu 5 mil réis com outro amigo. Como era pouco dinheiro, resolve (sem os outros amigos saberem) jogar na roleta. O desfecho é previsível: perdeu os 5 mil no jogo. Naziazeno não poderia voltar para casa sem o dinheiro. A angústia e o sofrimento só aumentava. Neste ponto, Dyonelio Machado manifesta toda sua genialidade com a escrita.
Depois de muitas passagens, negativas de agiotas, fome, a pequena miséria durante todo o dia, à noitinha o grupo consegue convencer uma outra pessoa a desembolsar uma quantia, recebendo em garantia um anel do amigo Alcides.
Depois de todo o sofrimento do dia, Naziazeno volta para casa com o dinheiro que conseguiu emprestado. Sua mulher, ansiosa, estranhara o atraso do marido, porém se acalmou com a notícia de que Naziazeno tinha conseguido o dinheiro para o leiteiro.
A partir daqui, o final é dramático. Naziazeno e a mulher resolvem deixar o maço de dinheiro com os 53 mil réis, na cozinha, ao lado do pote onde o leiteiro pela manhã bem cedo faria o abastecimento. Para não acordarem muito cedo resolveram que o leiteiro vendo o dinheiro, o pegaria e estaria tudo certo para a manutenção do fornecimento de leite.
| Será que os ratos vão comer o dinheiro? |
Este final é brilhante, talentoso e muito imaginativo.
Depois de tanto sofrimento de Naziazeno para conseguir o dinheiro, será que os ratos vão come-lo?
Será que todo esforço para conseguir o dinheiro será frustrado?
Os ratos trarão este revés?
A resposta o leitor terá apenas no último parágrafo do livro.
O talento deste fantástico Dyonelio Machado, prende o leitor até a última palavra, para o desfecho do romance.
Estupendo romance!!!!
Professor Mario Mello
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