segunda-feira, 27 de janeiro de 2025

O LIVRO SUA MAJESTADE CVII (107) - A DAMA DE ESPADAS

Aleksandr Púchkin (1799-1837)
 Você quer uma história curta com final surpreendente?

Pois é, assim é "A Dama de Espadas" um conto do escritor russo Alexandre Pushkin (ou Aleksandr Púchkin). 

Púchkin é considerado o maior poeta russo e o fundador da moderna literatura russa. Nascido em 1799, herdeiro de uma família de aristocratas, teve contato com a literatura desde criança.

Em sua poesia e prosa, ele revolucionou a literatura russa ao misturar narrativa e sátira com a linguagem vernácula da época.

Curiosidade: morreu num duelo, com apenas 37 anos, para defender sua linda mulher Natália Goncharova.

"A Dama de Espadas" é uma história que se desenrola um volta de jogo de baralho. Em uma roda de amigos, Tómski diz que a avó dele, uma Condessa Russa (nessa época já com 90 anos) tem uma sequência de três cartas que ganha sempre, dando fortunas ao seu ganhador.

Disse um amigo a Tómski: "O quê? Você tem uma avó que adivinha três cartas na sequência, e até agora não extraiu essa cabalística dela?"

Porém, ela não conta o segredo para ninguém, nem para seus filhos e netos. Essa história despertou um fetiche no jovem Hermann que nunca jogou. Apenas acompanhava os amigos nas rodadas de cartas. Dizia Hermann: "não estou em condição de sacrificar o indispensável na esperança de obter o supérfluo"

A história prossegue com Hermann tentando encontrar a Condessa para descobrir quais cartas seriam as "mágicas". Ele consegue ludibriar uma ajudante, Ivánovna, da Condessa, enviando muitos bilhetes se dizendo apaixonado por ela, porém a intenção era chegar na Condessa.

Até que um dia Ivánovna cedeu e marcou um encontro à noite (escondido) na mansão da Condessa. O encontro aconteceu e aí vem todo o mistério do conto.

Óbvio que não vou contar aqui o final, mas ele é surpreendente. 

Posso apenas dizer que a Dama de Espadas estará no final.

Enfim, é um conto com sátira, um certo suspense e principalmente ganância. É uma leitura leve e agradável que justifica a fama do escritor Púchkin.

Boa leitura!

Professor Mario Mello

segunda-feira, 20 de janeiro de 2025

O LIVRO SUA MAJESTADE CVI (106) - LA LIBRERIA DE LOS DESEOS

 "DIME QUÉ LEES Y TE DIRE QUIÉN ERES"

Esta frase está na capa do livro "La libreria de los deseos" e é emblemática.

A história é uma autêntica jóia para os amantes de livros. Escrito pelo francês Éric de Kermel (1963 - ), cada capítulo é um descobrimento maravilhoso.

Trata-se da história de uma professora de Paris, que cansada dos atropelos da cidade grande, muda-se para uma pequena cidade do interior da França, Uzès, e lá adquire a única livraria da localidade.

A protagonista Nathalie, casada com Nathan, um arquiteto, passava férias em Uzès, onde compraram uma pequena casa, bem antes de Nathalie adquirir a livraria. Ir morar em Uzès foi definida por ela, como uma opção de vida, e, assim aconteceu.

Apaixonada pelos livros, Nathalie com ajuda de Nathan e de uma "vizinha" da livraria, Hélène, deixou a livraria com outro aspecto e um novo ar, porém ela não sabia que se convertendo em livreira iria ter tanto carinho com os leitores.

Trecho da Nathalie falando: "Que, después de tanto buscarme a mí mesma, los libros me harían conocer a hombres y mujeres, a niños y mayores, a gente triste, conformista, alegre, a asesinos, a sabios sin hogar, a seductores en horas bajas, a poetas cojos pero luminosos, a enamoradas frígidas, viajeros estáticos, glotones penitentes, a religiosos en busca de sentido... He compartido sus vidas siguiendo sus lecturas. A veces, he ido por delante de ellos gracias a los libros que les he recomendado."

Cada capítulo traz um personagem/cliente da livraria. Desde a jovem Cloé que tinha uma vigilância severa de sua mãe sobre suas leituras e graças a Nathalie se desvinculou desta vigilância, até Sor Véronica uma freira que começou a frequentar a livraria e se tornou grande amiga de Nathalie.

Outro personagem interessante é o Arthur. Carteiro da pequena cidade, que queria ser ator, porém não poderia deixar sua mãe sozinha em Uzès para estudar em Paris. Nathalie emprestou vários livros ao Arthur para ele estudar e ajudou com que ele fosse estudar em Paris e se tornou um ator.

Porém o personagem mais marcante, para mim, foi Bastien, "el mensajero silencioso". Bastien comprava livros e pedia a Nathalie para enviar a certo endereço, e mesmo destinatário, em outra cidade. Isso aconteceu várias vezes, até que o último livro enviado retornou à livraria, com a mensagem de "destinatário não encontrado". Bastien enviava, através da Nathalie, livros a seu pai com quem havia se desentendido e se afastado há muitos anos. Ficou receoso de que o pai teria morrido. Resumindo, Nathalie, através de suas indicações de livros conseguiu que o pai de Bastien viesse até Uzès e a reconciliação pai e filho aconteceu.

Diz Nathalie: "Com cada pessoa que entrou em minha pequena livraria, nasceu uma nova história."

E assim é o livro, cheio de histórias mágicas. O livro traz ainda, mais de 70 indicações de livros, pois a cada cliente Nathalie recomendava alguns títulos. 

Os livros têm braços amplos que se abrem com cada página. Recebem os olhos que se fixam neles, as mãos que os adotam durante o tempo da leitura, folhando cada página.

Sempre gostei muito de livros que tratam de livros e, este é mais uma preciosidade da literatura. Já escrevi aqui no Blog sobre outros livros dessa natureza como: A livraria mágica de Paris; A biblioteca da meia-noite; O livro dos prazeres proibidos;  Os livros que devoraram meu pai (excepcional); O guardião de livros. 

Uma curiosidade: Este livro ainda não foi traduzido para o português. Ele é escrito em espanhol e é um dos desafios meus, fazer várias leituras em espanhol, para melhorar o entendimento do idioma.

Quero também agradecer à minha filha Laura e ao Rodrigo, por trazerem este exemplar direto da Espanha (Casa del Libro).

Por fim, recomendo muito a leitura deste livro, pois ele é encantador!

Professor Mario Mello

domingo, 5 de janeiro de 2025

O LIVRO SUA MAJESTADE CV (105) - O ANDAR DO BÊBADO

 O título do livro é meio intrigante não?

Pois é, o livro trata de como o acaso determina nossas vidas. Best-seller internacional com mais de 200 mil exemplares vendidos no Brasil, "O andar do bêbado" põe em xeque tudo o que acreditamos saber sobre como o mundo funciona. E, assim, nos ajuda a fazer escolhas mais acertadas e a conviver melhor com fatores que não podemos controlar.

Leonard Mlodinow
Escrito por Leonard Mlodinow (nascido em 1954) que é um fisico estadunidense, é autor de livros de divulgação científica, além de escrever para o The New Youk Times. Também escreveu roteiros para as séries MacGyver e Star Trek. 

Uma curiosidade sobre o autor: seus pais foram ambos sobreviventes do holocausto, e se conheceram em Nova York depois da guerra.

O livro traça vários paralelos entre a aleatoriedade e a estatística. Costurando casos emblemáticos com teorias matemáticas e as histórias de vida dos homens que ajudaram a criá-las, Leonard contrói uma narrativa ágil e original.

Nomes de cientistas como Gerolamo Cardano e Blaise Pascal misturam-se aos de celebridades como Madonna, Bill Gates e Stephen King, que devem muito de sua fama ao acaso.


O livro é dividido em dez capítulos, começando pela lente da aleatoriedade, passando pela ordem no caos e finalizando no por que o acaso é um conceito mais fundamental que a casualidade. 

Segundo o autor, os mecanismos pelos quais as pessoas analisam situações que envolvem o acaso são um produto complexo de fatores evolutivos, da estrutura cerebral, das experiências pessoais, do conhecimento e das emoções. 

No livro o autor combina muitos diferentes exemplos para mostrar que notas escolares, diagnósticos médicos, sucessos de bilheteria e resultados eleitorais são, como muitas outras coisas, determinados em grande escala por eventos imprevisíveis. 

O livro trata também de recompensa e punição, onde estudos mostraram que em animais a recompensa funciona melhor, já em alguns casos com humanos a punição traz melhores resultados posteriores (polêmico isso?). 

A parte mais interessante do livro (para mim) é quando o autor diz que a linha que une a habilidade e o sucesso é frouxa e elástica.

É fácil enxergarmos grandes qualidades em livros campeões de vendas, ou vermos fragilidades em manuscritos não publicados. 

É fácil transformar os mais bem-sucedidos em heróis, olhando com desdém para o resto. Porém, a habilidade não garante conquistas, e as conquistas não são proporcionais à habilidade. Assim, é importante mantermos sempre em mente o outro termo da equação - o papel do acaso.

Enfim, o livro traz a reflexão de que o papel do acaso no mundo que nos cerca, vai mostrar de que modo podemos reconhecer sua atuação nas questões humanas.

Finalizo com uma frase de Thomas Watson, o pioneiro da IBM, um dos personagens citados no livro:

"Se você quiser ser bem-sucedido, duplique sua taxa de fracassos."

Boa leitura!

Professor Mario Mello

quinta-feira, 2 de janeiro de 2025

O LIVRO SUA MAJESTADE CIV (104) - O SENTIDO DA VIDA

Contardo Calligaris (1948-2021)
 Você se importa em ser feliz? 

Pois essa indagação é abordada no livro "O Sentido da Vida" escrito por Contardo Calligaris.

Calligaris foi um renomado escritor e psicanalista italiano que se radicou no Brasil há muitos anos, fazendo palestras e escrevendo para um jornal.

"O Sentido da Vida" é uma obra que explora questões profundas e existenciais de forma acessível e reflexiva. Calligaris, conhecido por sua habilidade em conectar temas complexos da psicanálise e filosofia com o cotidiano, oferece uma abordagem única para a busca de significado na vida.

Uma das muitas passagens interessantes, que destaco, é que o pai de Contardo tinha em casa uma biblioteca com várias estantes e livros. Em algumas estantes haviam buracos entre os livros.  Disse o pai do autor: "há livros que são escritos para tapar os buracos da estante, e há livros que são escritos para preservar os buracos na estante."

E aí? O que você acha? 

"O Sentido da Vida" foi entregue pelo autor poucos dias antes de sua morte e reune três textos breves, porém muito potentes, sobre a obrigação da felicidade, o "morrer bem" e o sentido da vida.

Calligaris trata a felicidade como um conceito subjetivo e, muitas vezes, ilusório, que está diretamente relacionado às narrativas que construímos sobre a nossa vida. Ele questiona a ideia de felicidade como um objetivo fixo ou um estado permanente, argumentando que ela está mais associada à maneira como vivemos nossos desejos, lidamos com nossas insatisfações e encontramos sentido em nossas experiências.

"Felicidade um preocupação desnecessária". O autor diz que em vez de se preocupar com a felicidade e seu mistério, preferia se esforçar para viver uma vida interessante onde você se autoriza a viver com toda a intensidade, que todos os momentos da nossa vida merecem.

Na sequência ele aborda a questão do "un bel morrir", ou morrer bem.
A morte de Sêneca
Para o autor, o bel morrir não se trata de uma morte idealizada, mas de um convite a viver de maneira autêntica e coerente com nossos desejos e valores. 

Ele argumenta que pensar no fim da vida pode ser um estímulo para construir uma existência significativa, onde cada escolha e ação seja vivida com consciência. 

Assim, a ideia de um "belo morrer" está mais ligada a uma vida vivida plenamente, sem arrependimentos por aquilo que deixamos de fazer ou de ser.
O bel morrir, nesse sentido, está menos relacionado ao momento da morte em si e mais ao legado emocional e narrativo que deixamos – as histórias que construímos e o impacto que causamos nas vidas ao nosso redor.

O autor aborda a morte de Sêneca que foi aconselhado por seu amigo o Imperador Romano Nero, a suicidar-se. Sêneca chamou a mulher e alguns de seus amigos, cortou os pulsos e sangrou até a morte.

É um pouco chocante, mas ninguém quis impedir Sêneca de morrer, pelo contrário, acompanharam seu fim. Isso está retratado na tela pintada por David em 1773.

O terceiro capítulo do livro chama-se: o sentido da vida e a bizarra obrigação de sermos felizes.

Calligaris ressalta que a busca pela felicidade pode ser, paradoxalmente, uma fonte de angústia quando é idealizada como um estado de plenitude impossível de alcançar. Ele sugere que a felicidade não está na ausência de problemas, mas na capacidade de encontrar prazer e significado nas pequenas coisas do cotidiano, no desejo que nos move e na aceitação das imperfeições da vida.

O autor também desafia a ideia de que a felicidade seja algo "pronto" a ser encontrado ou conquistado, como um destino final. Em vez disso, ele defende que ela é construída no percurso, na autenticidade com que vivemos e na forma como lidamos com as contradições inevitáveis da existência. 

Essa abordagem humanista e realista oferece um contraponto às visões mais simplistas ou idealizadas sobre o que significa ser feliz. 

Por fim, o autor traz o que ele diz de a grande lição de seu pai, que é a ideia de que a questão do sentido da vida é simples: o sentido da vida é a própria vida concreta. A que vivemos e da qual faz parte também morrer.

É um livro de muitas reflexões.
Boa leitura!!

Professor Mario Mello

Como tradicionalmente acontece no Natal, este livro foi um presente da minha querida sobrinha Carolina Zago Cervo. 
Sempre acerta em cheio, com seus presentes. 
Obrigado Caro. 😘


sábado, 28 de dezembro de 2024

O LIVRO SUA MAJESTADE CIII (103) - POETAS DE LISBOA

Ler poesia é uma experiência incrível, capaz de ampliar nossa visão de mundo e conectar-nos com diferentes culturas, emoções e perspectivas.

Os versos, cuidadosamente escritos, têm o poder de nos transportar para outras realidades e alimentar a alma.

 Meu último post de 2024 é muito especial.
Trata-se de um livro ganho da minha filha Laura, que recentemente esteve em Portugal e o trouxe de presente para mim. 

O livro chama-se "Poetas de Lisboa" e foi comprado na Livraria Bertrand, em Lisboa, que segundo eles é a livraria mais antiga do mundo. 

Inclusive, os livros lá comprados ganham um carimbo na primeira página, alusivo a este título.

Carimbo da Livraria Bertrand
É uma edição bilingue (português/espanhol) muito bonita com gravuras dos cinco poetas que o livro traz.


Desde os célebres Luis de Camões e Fernando Pessoa, acompanhados de alguns heterônimos deste último, se unem outros três poetas amplamente admirados no mundo de língua portuguesa: Cesário Verde, Mário de Sá Carneiro e Florbela Espanca.



Você já leu Camões? Pois é, o livro começa com este que é uma das maiores figuras da literatura ocidental. São dez poesias deste incrível poeta. Trago uma de suas poesias: 
Luís de Camões (1524 - 1580)

"O amor é fogo que arde sem se ver,
É ferida que dói e não se sente,
É um contentamento descontente,
É dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer,
É um andar solitário entre a gente,
É nunca contentar-se de contente,
É um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade,
É servir a quem vence o vencedor,
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humano amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?"




O segundo poeta do livro é Cesário Verde. Mestre de Fernando Pessoa, é considerado o fundador da Poesia Modernista em Portugal. Morreu muito jovem, com apenas 31 anos. Leiam um trecho de uma de suas poesias chamada "Impossível":

"Nós podemos viver alegremente,
Cesário Verde (1855-1886)
Sem que venham, com fórmulas legais,
Unir as nossas mãos, eternamente,
As mãos sacerdotais.

Eu posso ver os ombros teus desnudos,
Palpá-los, contemplar-lhes a brancura,
E até beijar teus olhos tão ramudos,
Cor de azeitona escura.

Eu posso dar-te tudo, tudo,
Dar-te a vida, o calor, dar-te cognac
Hinos de amor, vestidos de veludo,
E botas de duraque.

Posso ser teu amigo até à morte,
Sumamente amigo! Mas por lei,
Ligar a minha sorte à tua sorte,
Eu nunca poderei!

Eu posso amar-te como o Dante amou,
Seguir-te sempre como a luz ao raio,
Mas ir, contigo, à igreja, isso não vou,
Lá nessa é que eu não caio!"


Seguimos com Mário de Sá Carneiro. Fundador da Revista Orpheu, que marca a introdução do movimento modernista em Portugal, também morreu muito jovem, com apenas 25 anos. A sua poesia, quase que autobiográfica denotava uma especie de depressão que somada à dificuldades financeiras, infelizmente o levaram ao suicídio. Vejam um trecho da poesia chamada "Dispersão":

Mário de Sá Carneiro (1890-1916)
"Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto,,
E hoje, quando me sinto, 
É com saudades de mim.

Para mim é sempre ontem,
Não tenho amanhã nem hoje:
O tempo que aos outros foge
Cai sobre mim feito ontem.

As minhas grandes saudades
São do que nunca enlacei.
Ai, como eu tenho saudades
Dos sonhos que não sonhei!

E tenho pena de mim,
Pobre menino ideal...
Que me faltou afinal?
Um elo? Um rastro?... Ai de mim!..." 




As próximas poesias do livro são de Florbela Espanca. Também da geração da Revista Orpheu, Sua poesia desfrutou de uma popularidade duradoura, alcançando um amplo público e influenciando a obra de vários autores, músicos e cantores. Infelizmente, como Mário de Sá Carneiro, de quem foi contemporânea, também suicidou-se, exatamente no dia de seu aniversário de 36 anos. Leiam "Os versos que te fiz":

Florbela Espanca (1894-1930)

"Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer!
São talhados em mármore Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.

Têm dolências de veludos caros,
São como seda pálidas a arder...
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer!

Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda...
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz!

Amo-te tanto! E nunca te beijei...
E nesse beijo, Amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!"





Para fechar o livro com chave de ouro, nada mais nada menos que Fernando Pessoa. Um dos mais relevantes escritores portugueses é um dos maiores poetas da era moderna. Também pertenceu a geração da Revista Orpheu que introduziu o movimento modernista português. Fernando Pessoa criou três heterônimos: Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos, cada um com sua própria personalidade.

 Fernando Pessoa imortalizou-se por uma de suas frases na poesia chamada "Mar Português":
Fernando Pessoa (1888-1935)
"Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena."

Uma das poesias do livro é "Autopsicografia":
"O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm,

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama o coração."


Assim, neste fantástico livro "Poetas de Lisboa", ao folhear suas páginas, encontramos não apenas palavras, mas também sentimentos, histórias e verdades universais que ressoam em nossas próprias vivências.

Ler poesia é, portanto, um ato de descobrimento e contemplação, que nos enriquece intelectualmente e nos eleva espiritualmente. Além disso, a poesia nos ensina a apreciar a beleza das palavras e a profundidade dos significados, cultivando nossa sensibilidade e criatividade.

Boa leitura e que venha 2025!

Professor Mario Mello

Obrigado Laura Zago de Mello e Rodrigo Martins pelo belo presente. 
Este livro estará na galeria dos meus preferidos. 😍




segunda-feira, 23 de dezembro de 2024

O LIVRO SUA MAJESTADE CII (102) - FOCO ROUBADO

 

O livro "Foco Roubado" foi eleito um dos melhores do ano de 2024 pela Amazon e pela Financial Times.

Abordando o tema dos ladrões de atenção da vida moderna, traz reflexões para nos ajudar a fazer mudanças pessoais e também aborda os riscos para a sociedade.

E um livro de Johann Hari que explora o declínio da capacidade de concentração das pessoas na era moderna.

Hari investiga as razões pelas quais nossa atenção está cada vez mais fragmentada, apontando para fatores como o design das tecnologias digitais, as redes sociais, o excesso de informações e a pressão do mundo do trabalho.

O autor defende que a perda de foco não é apenas um problema individual, mas um fenômeno sistêmico, provocado por estruturas econômicas e sociais que priorizam o lucro em detrimento do bem-estar humano.

Hari também destaca os impactos negativos disso na criatividade, produtividade e nos relacionamentos interpessoais.

Uma passagem marcante de Foco Roubado é quando Johann Hari descreve sua experiência pessoal em uma tentativa de "reconquistar sua atenção".
Johann Hari

Ele decide passar três meses desconectado da internet em uma ilha, sem e-mails, redes sociais ou notificações. Durante esse período, ele percebe o quanto seu pensamento estava condicionado à distração constante. Ele relata que, inicialmente, sua mente parecia "gritar" por estímulos, mas, aos poucos, ele conseguiu acessar níveis mais profundos de reflexão e criatividade.

Hari usa essa experiência para ilustrar como o ambiente moderno é projetado para capturar e manter nossa atenção, impedindo-nos de alcançar estados de foco prolongado. 

Ele argumenta que a perda de foco não é uma falha moral ou falta de disciplina pessoal, mas uma consequência de sistemas intencionalmente criados para fragmentar nossa atenção em benefício das empresas de tecnologia. A passagem é um chamado à ação, ressaltando que recuperar o foco exige mudanças estruturais e não apenas esforços individuais.

Outra passagem marcante é quando Hari menciona a ideia da semana de 4 dias de trabalho como uma solução promissora para recuperar a atenção e o equilíbrio na vida moderna.

Ele cita estudos e exemplos de empresas que adotaram a prática, mostrando como a redução da jornada de trabalho pode aumentar a produtividade, melhorar a saúde mental e permitir que os funcionários tenham mais tempo para atividades que exigem foco profundo, como ler, refletir e se conectar com outras pessoas.

Ele aponta que a sobrecarga de trabalho e a pressão para estar sempre ocupado são grandes vilões da atenção. Com menos horas de trabalho, as pessoas conseguem desacelerar, o que cria condições para um pensamento mais claro e focado.

Enfim, quase finalizando o ano de 2024, é uma leitura marcante, pois leva o leitor a refletir sobre o "bombardeio" de informações e redes sociais a que está sujeito todo dia.

Um jornal de São Francisco (EUA) escreveu sobre o livro: "Outros livros tendem a se fixar na responsabilidade pessoal, enfatizando a importância do autocontrole, mas Foco Roubado, vai além e examina o ecossistema que criou o problema".

Ao final Hari apresenta soluções práticas e coletivas, como a regulação das grandes empresas de tecnologia, a redefinição de prioridades sociais e o cultivo de hábitos que promovam um foco mais profundo e intencional. 
É uma leitura que convida à reflexão sobre como recuperar nossa atenção em um mundo cada vez mais acelerado e distraído.

Boa leitura!!

Professor Mario Mello


sábado, 2 de novembro de 2024

O LIVRO SUA MAJESTADE CI (101) - AS PIORES DECISÕES DA HISTÓRIA E AS PESSOAS QUE AS TOMARAM

 Começo o post dizendo: livro sensacional e intrigante.

O livro descreve inúmeras situações de erros memoráveis e quem os cometeu. Muitos vezes os erros foram cometidos por pessoas bem intencionadas, mas foram erros históricos.

O livro parte da antiguidade e chega aos tempos modernos. São 50 descrições das piores decisões tomadas por alguém ao longo dos tempos.

O bacana, também, no livro e que ele traz uma "medida" para os erros cometidos. A medida traz a motivação por: ganância, ira, caridade, inveja, orgulho, fé e preguiça. Ou seja, cada decisão trágica tomada ao longo da história, tem sua medida do erro.

Outra coisa legal no livro, são as ilustrações. Cada história tem seu personagem e ilustrações de mapas, fatos ou fotos de sua época.

O livro começa trazendo as decisões de Adão e Eva e vai viajando por  Cleópatra, O cavalo de Tróia, O Rei Leopoldo e a partilha da África, o erro de Chernobyl, Wall Street entre outros tantas decisões catastróficas.

Vou trazer aqui algumas decisões que me chamaram mais a atenção.


Começo por Nero (37-68 d.C.) e o incêndio de Roma. Sua motivação foi por ganância e luxúria. O dano resultante foi a destruição de sua própria cidade, para abrir espaço para um novo palácio. 

Durante seis dias e sete noites grassou a destruição, enquanto o povo era conduzido em monumentos e tumbas. Nero jamais se recuperou totalmente do grande incêndio. Os danos foram imensos e os ônus sobre a população, gravíssimos. 

Nero matou-se quando um esquadrão de execução se aproximava dele, e disse suas últimas palavras: "Que artista o mundo está perdendo."




Outro capítulo do livro é sobre Stalin e o grande expurgo que aconteceu de 1936 até 1938. O principal culpado foi Joseph Stalin (1879-1953) cujo principal dano resultante foi a destruição da elite do exército soviético, assim como de milhões de russos. 

A motivação foi por orgulho e paranoia do todo-poderoso. Esse fato foi um dos fatos que inspiraram George Orwell a escrever o lendário livro "A revolução dos bichos". Stalin receava constituir um quadro militar profissional capaz de desafiar os questionar a revolução e, assim, por orgulho destruiu a elite do exército. 

Esse erro com a destruição do exército, despertou em Hitler a oportunidade de ter vitórias avassaladoras sobre o exército vermelho. O fato de os danos não terem sido fatais para a revolução soviética, decorreu da disposição dos russos de morrer pela pátria.


Outra das piores decisões da história, foi tomada por Winston Churchill (1874-1965). Embora Churchill seja considerado um dos heróis da Segunda Guerra Mundial, também tomou uma decisão equivocada com sérias consequências. 

Chamada no livro como "Winston Churchill e o desastre de Gallipoli" teve um dano resultante com mais de 400.000 mortos. Gallipoli é uma península na Turquia, banhada pelo Mar Egeu e pelo estreito de Dardanelos. Seu nome vem do grego significando cidade bonita. 

O dano causado por orgulho, vaidade e ataque insensato contra uma península quase que inexpugnável, destruiu mais de um terço das Forças Armadas da Australia e Nova Zelândia. Churchill, ainda jovem, era o primeiro lorde do almirantado do Reino Unido e estava ansioso por entrar na guerra. 

Porém, a guerra era terrestre e não naval. O ataque com uma flotilha de 16 navios, tentou entrar no estreito de Dardanelos e sofreu grandes perdas sem nenhum progresso. Disse um dos comandantes da frota sobre Churchill: "Toda essa manobra tem forte cheiro de Gallipoli e, aparentemente, o amador ainda está no banco do treinador." Esse episódio entrou na história de Austrália e Nova Zelândia, pois foi a primeira vez que esses novos países independentes entraram em batalha e sofreram um revés tão grande.

Enfim, o livro e interessantíssimo, pois conta esses erros memoráveis da história. O livro mostrou, também, que grandes erros aliados a motivações duvidosas só podem terminar mal.

Como diz George Santayana, filósofo e escritor:

"Aqueles que não conseguem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo."

Boa leitura!

Professor Mario Mello