Um dos livros mais sagaz que já li.
"A lanterna das memórias perdidas" da escritora japonesa Sanaka Hiiragi (1974- ) é um romance profundo e comovente a respeito do que é realmente importante na vida e do encanto de reviver uma última vez seus melhores momentos.O livro explora temas profundos entre a vida, a morte e as lembranças que acumulamos ao longo da nossa vida. O protagonista Hirasaka, gentilmente recepciona seus visitantes, em um estúdio fotográfico, lhe oferece sua bebida preferida e revela o que os aguarda.
A narrativa centra-se em Hirasaka, que trabalha neste estúdio fotográfico peculiar, servindo como um ponto de transição entre a vida e a morte. Nesse espaço, os recém falecidos são recebidos e informados sobre sua nova condição. Lhes é dada uma caixa com fotos, para que antes de seguirem para o além, eles devem selecionar uma fotografia para cada ano de suas vidas, representando suas memórias mais significativas.
Além disso, têm a oportunidade de revisitar um momento especial do passado para capturar uma nova imagem dessa lembrança marcante.
Pegos de surpresa os visitantes perguntam: "Eu morri?
Se este é apenas um ponto de passagem, o que vai acontecer comigo depois?
Como seria o mundo do além? A gente desaparece sem deixar rastros e se transforma em nada?
Nosso protagonista Hirasaka, recepciona três pessoas que pelo estúdio passam: uma professora de 92 anos; um membro da Yakusa de 47 anos e uma criança. Os visitantes eram sempre anunciados pelo entregador Yama, que trazia em um carrinho de mão as fotos da pessoa.
Hatsue, a professora de 92 anos, dedicou toda sua vida à educação infantil. Durante a visita ao estúdio, ela revisita o Japão do pós-guerra, uma época marcada por escassez de empregos e profundas mudanças sociais, incluindo a crescente participação das mulheres no mercado de trabalho e a redefinição das responsabilidades familiares. Através das lembranças de Hatsue, o leitor é levado a refletir sobre o papel essencial da educação e as transformações sociais ocorridas ao longo das décadas.
Waniguchi, membro da Yakusa, tinha uma loja de recicláveis para disfarçar as atividades ilícitas e custou a compreender que havia morrido e que estava na transição. Este capítulo é muito interessante, pois claramente Waniguchi com seu jeito autoritário, queria sempre um confronto com Hirasaka.
A parte um pouco triste da história é com a terceira visitante do estúdio: a menina Mitsuru. Apavorada a criança não se mexeu por um bom tempo no estúdio. Hirasaka usou toda sua habilidade para aos pouquinhos ir conquistando Mitsuru. A menina sofreu abusos do padrasto, causado-lhe um grande sofrimento. Neste capítulo aparece o traço marcante da autora, pois Hirasaka propõe à menina que escolha, entre muitas, uma máquina para sairem e tirarem fotografias.
A autora do livro, sempre foi grande apreciadora de câmeras fotográficas e da fotografia. O livro trata disso: fotografias.
Hiiragi reflete sobre a força que as fotos carregam e nos leva a questionar o que é realmente importante na vida.
Como disse no início achei muita sagacidade neste livro, pois o processo de seleção das fotografias e a revisitação de momentos especiais proporcionam uma compreensão mais profunda da vida e das circunstâncias que a moldaram.
A transição entre a vida e a morte desperta, sempre, muito interesse em desvendar este mistério que nos acompanha desde sempre.
O livro é genial e merece ser lido e apreciado.
"Talvez seja a última visão de uma vida inteira".
Boa leitura!
Professor Mario Mello
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