sábado, 2 de abril de 2022

O LIVRO SUA MAJESTADE LXXXV - CONTOS DE SEBASTOPOL

 Nesta data que escrevo este post (02/04/22) a guerra entre Rússia e Ucrânia está no 36* dia. Lembrando: a Rússia está invadindo a Ucrânia.

É lamentável que depois de tantas experiências desastrosas com guerras, ainda existam dirigentes que a praticam. É impensável sair matando pessoas em nome de "recuperar" um território ou coisa que o valha. O presidente da Rússia um autocrata cruel parece não ter limites. Em 2014 anexou a Crimeia à Rússia e agora busca desesperadamente o domínio na Ucrânia.

Mas, a escrita de hoje é sobre o livro "Contos de Sebastopol" escrito por Liev Tolstói em 1855. A história é escrita por Tolstói durante a invasão francesa na cidade de Sebastopol, na Crimeia.

Sebastopol é uma cidade estratégica às margens do Mar Negro e que sempre despertou uma cobiça para seu domínio. Foi cidade autônoma dentro da Crimeia, foi dominada pelos franceses, foi da antiga Rússia (dentro da União Soviética), enfim, tem muita história.

Tolstói serviu como Segundo Tenente num regimento de artilharia durante a guerra da Crimeia (1854-1855) e escreveu algumas partes do livro, na própria guerra. 

São vários episódios contados com minúcias, ocorridos durante o cerco de Sebastopol, ao mesmo tempo em que tece uma crítica contundente aos horrores da guerra.

Tolstói como era uma exímio conhecedor da alma humana, relata com detalhes as reações dos soldados e oficias, diante das atrocidades vivenciadas durante a guerra. Escreveu Tolstói: "Uma vez tendo penetrado na alma, o medo não cede lugar tão cedo a outro sentimento."

A profundidade psicológica que Tolstói alcança em suas narrativas vivenciadas constitui algo de extraordinário e épico.

Os horrores vivenciados pelo povo de Sebastopol trazem aspectos trágicos e a obstinação que o povo russo enfrenta, porém não deixa de exaltar a dignidade de sues soldados e marinheiros.

Assim relatou Tolstói em um trecho do livro: 

O jovem Tolstói em 1854
"Se você tem nervos fortes, atravesse a porta. É naquele cômodo que se fazem os curativos e as operações. Você verá os médicos com os braços ensanguentados até os cotovelos, as fisionomias pálidas e sombrias, debruçado sobre uma máquina, onde com os olhos abertos e falando como em delírio palavras sem sentido, as vezes simples e tocantes, está estendido um ferido sob o efeito de clorofórmio."

"Verá espetáculos terríveis que lhe revolverão a alma. Verá a guerra não pela sua aparência regular, sedutora e brilhante, acompanhado por músicas e tambores, com bandeiras desfraldadas e generais que corcoveiam com seus cavalos, mas sim a guerra em sua verdadeira expressão em sangue em sofrimento e em morte."

Esses são alguns dos horrores da guerra.

Enfim, é um livro que ao mesmo tempo que é extraordinário pelos relatos reais, é revoltante pela insanidade humana da guerra.

Para finalizar, a frase mais impressionante e genial de Tolstói que servirá para sempre:

"A questão não decidida pelos diplomatas, decide-se menos ainda pela pólvora e pelo sangue."

Professor Mario Mello

domingo, 20 de fevereiro de 2022

O LIVRO SUA MAJESTADE LXXXIV - O MESTRE E MARGARIDA

Você já imaginou o diabo chegar na sua cidade?

E mais: disfarçado de professor? 

Então, é isso que acontece no livro "O mestre e Margarida", quando o diabo chega em Moscou na década de 1920.

Um dos maiores clássicos da literatura russa e mundial, "O mestre e Margarida" de Mikhail Bulgákov, o romance revolucionário começou a ser escrito em 1928 e só foi completado em 1940, algumas semanas antes da morte de Bulgákov.

Bulgáckov, através de suas obras, tinha uma veia satírica e cada vez mais conflitante com o regime stalinista. Por isso, ao final dos anos de 1920 enfrentou problemas crescentes com a censura do regime comunista. A evidência disso é que este clássico da literatura, demorou mais de 10 anos para ser escrito na sua totalidade e outros tantos para ser publicado. A primeira versão integral da obra, só foi publicada na Russia em 1973.

O livro, além da brilhante narrativa de Bulgákov, é uma sátira devastadora da vida sob o regime soviético, da censura e da repressão.

O romance traça de forma genial os múltiplos personagens de Moscou e seu cotidiano. Com apartamentos divididos por várias famílias, pessoas que desaparecem misteriosamente, burocratas obtusos, entre outros costumes da época.

O livro tem uma característica base: a visita do diabo, com sua comitiva, em Moscou. No desenrolar da história, a mesma é contada em duas perspectivas: uma delas em Moscou com a visita do diabo e a outra em Jerusalém com Pôncio Pilatos na época da convivência com Jesus de Nazaré, nos anos 30.

Que confusão é esta? Moscou dos anos 1920/1930 e Jerusalém dos anos 30? 

Aqui está a genialidade do autor, pois a primeira critica ao regime de Stalin aparece aqui, uma vez que o regime stalinista era um regime ateu, contra qualquer religiosidade.

A história começa quando Berlioz, presidente da Sociedade Moscovita de Literatura, está em uma conversa com o poeta Ivan Nicolaevitch, sobre um poema escrito por este, onde segundo o escritor, Jesus não existiu. Neste momento se apresenta na conversa o Professor Woland (o próprio diabo) dizendo que estava viajando pela Russia e afirmando que Jesus existiu sim. Ele próprio (diabo) já tinha estado com Pôncio Pilatos e que podia garantir a existência de Jesus, pois conhecia toda sua história. Isso enlouqueceu Berlioz e Ivan.

A partir daí, há uma alternância nos capítulos. Alguns sobre a "bagunça" que o diabo fez em Moscou e outros sobre Pôncio Pilatos, Jerusalém e Jesus.

Na sequência aparece o personagem que é o mestre. O mestre tinha escrito um romance sobre a existência de Jesus o que não era alinhado ao regime stalinista. Ele foi banido das artes, da vida livre e internado num hospital psiquiátrico, como se fosse louco. O mestre ficou vários anos internado.

O diabo Woland não chegou sozinho em Moscou. Ele trouxe consigo um séquito composto por um gato preto que falava normalmente como uma pessoa, um assistente chamado Korôviev, um demônio chamado Azazello e uma vampira chamada Hella.

Fonte: Google

A bagunça toda começa quando Woland faz um show de magia negra no mais renomado teatro de Moscou. Ao final as pessoas todas saíram correndo nuas pelas ruas de Moscou o que causou a maior confusão. Neste espetáculo o diretor do teatro desapareceu misteriosamente, como também o tesoureiro. Enfim, uma confusão dos diabos, com o perdão do trocadilho.

Depois de muitas outras confusões, incêndios, corrupção, desavenças provocadas pelo diabo e seu séquito, aparece na história Margarida. Margarida era uma moça casada com um milionário de Moscou, mas muito infeliz. Ela sempre foi apaixonada pelo mestre e não sabia onde ele estava, pois havia desaparecido há algum tempo.

O diabo estava a procura de uma pessoa chamada Margarida, para seu tradicional baile e, a encontrou. Ela faz um pacto com o diabo participando como a anfitriã de uma festa promovida por ele. Os convidados da festa eram somente pessoas, de todos os tempos, que haviam assasinado alguém. O pacto era de que Margarida aceitava se transformar numa bruxa, porém ela queria o mestre de volta para seu convívio.

Não vou contar o final do livro, óbvio. Mas posso dizer que é um livro para ser lido com muita atenção, pois ele tem muitas nuances interessantes sobre criticas ao regime, criticas sobre a loucura, a dúvida sobre a existência do diabo, entre outras.

Ou seja, o livro é fantástico. Não é a toa que é um dos romances mais importantes do século XX.

Uma outra curiosidade sobre "O mestre e Margarida" é que ele inspirou até música dos Rolling Stones. A música Sympathy for the Devil (Simpatia pelo diabo), que tem em sua letra um trecho assim:

"Por gentileza me permita que eu me apresente
Sou um homem de fortuna e requinte
Estou por aí já faz alguns anos
Roubei as almas e a fé de muitos homens

E eu estava por perto quando Jesus Cristo
Teve seu momento de duvida e dor
Fiz a maldita questão de garantir que Pilatos
Lavasse suas mãos e selasse seu destino."

Que adjetivo usar? 

Espetacular? Sensacional? Fantástico? Incrível? Extraordinário?

Simplesmente todos.

Enfim, é um livro diferente, um livro atemporal com uma história meio (talvez) ficção, meio realidade, mas simplesmente imperdível.

Professor Mario Mello


terça-feira, 4 de janeiro de 2022

Crônica de Minha Autoria Vencedora do Concurso Literário AGEA 2021 - O LIVRO SUA MAJESTADE





O LIVRO SUA MAJESTADE

O prazer da leitura deve ser saboreado lentamente pelos apaixonados de um mundo de certezas e incertezas, fantasias e realidades, sonhos e desatinos. Os livros nos levam à viagens só nossas. Ninguém mais viaja conosco nesta imensidão de emoções que a leitura proporciona. Mesmo para alguém que tenha lido o mesmo livro que você, as emoções e as visões são diferentes.

Fico imaginando o pensamento de um autor. Quantas interpretações e emoções diferentes são proporcionadas em diferentes pessoas ao mesmo tempo e no mesmo livro? Que fantástico para o autor saber que está mexendo com centenas de pessoas que leem suas obras. Que fantástico criar personagens que inspiram amor e ódio, esperança e desatinos, alegria e tristeza, nos leitores. Tramas fantasiosas e ao mesmo tempo reais que muitas vezes imaginamos estar acontecendo na nossa própria rua.

Pelo lado do leitor, a oportunidade de participar, mesmo que involuntariamente, da história é fantástica. É comum nos vermos juntos na trama e pensando: Por que não fazer assim? Por que não fazer de outra maneira?

Os livros poderiam ser "receitas literárias". Exemplo: você chegaria numa livraria especializada, conversaria com o livreiro e pediria: Quero um livro para dor de cabeça; ou, quero um livro para reumatismo; ou ainda, quero um livro para ansiedade, ou mais, quero dois livros para gripe, ou também, quero um livro para pressão alta. O livreiro, como se fosse um farmacêutico literário, depois de fazer algumas perguntas ao "paciente" faria a prescrição do livro perfeito para cada um. Se fosse para a gripe a receita seria: 8 páginas quando acordar pela manhã, 5 páginas depois do almoço e 20 páginas ao entardecer, pois nesta hora normalmente os sintomas da gripe se manifestam com mais intensidade.

E assim as receitas literárias se espalhariam pelos muitos pacientes.

Enfim, os livros nos fazem ouvir em silêncio, alimentar a alma e por isso, o livro não perde sua majestade. 


Professor Mario Mello
Dezembro/2021


segunda-feira, 15 de novembro de 2021

O LIVRO SUA MAJESTADE LXXXIII - DE ONDE VÊM AS BOAS IDEIAS

 Para os estudiosos do processo de inovação, este livro é um prato cheio. De onde vêm as boas ideias - uma breve história da inovação - foi escrito pelo americano Steven Johnson (1968 - ), em 2010 e teve sua primeira edição em português em 2011.


Steven Johnson considerado um autor americano de ciência popular e teórico da mídia, descreve no livro, métodos e práticas para desenvolver ideias. Segundo o autor as grandes inovações criadas pela humanidade, não resultam de prodigiosos talentos individuais, ou de mentes superiores isoladas.

Ao contrário, as maiores invenções precisam de ambientes propícios nos quais possam se desenvolver.

Indicado para pessoas que desejam aprender métodos inovadores para pôr em prática ideias que facilitem a vida de todos.

Além de trazer fatos históricos sobre as principais inovações do mundo, o livro cria paralelos divertidos, inesperados e reveladores, através de sete características fundamentais dos processos de inovação, desenvolvidos pelo homem e pela natureza.

Desde a teoria da evolução de Darwin, até a criação do Youtube, Steven Johnson identifica os ambientes humanos mais férteis em pensamentos originais. Johnson defende, por exemplo, que as grandes cidades têm muito mais talentos e se fortificam através de redes para gerar processos de inovação. Sua justificativa é que as grandes cidades têm muito mais necessidades de solução de problemas, criando assim o ambiente propício para os talentos desenvolverem processos inovativos. Ele explica que o "possível adjacente", ou seja, as coisas que não são estáticas e estão conectadas criam redes e auxiliam muito no desenvolvimento de novas ideias.

Uma passagem muito interessante do livro e que diz respeito às redes é a seguinte:

"Um neurônio médio conecta-se com mil outros neurônios espalhados pelo cérebro, o que significa 100 trilhões de conexões neurais distintas, fazendo dele a maior e mais complexa rede existente na Terra. Em comparação há algo na ordem de 40 bilhões de páginas na Web. Supondo uma média de dez links por página, significa que você e eu andamos por aí tendo, dentro de nossos crânios, uma rede de alta densidade muitas ordens de magnitude maior que toda a Web." Incrível isso!!

Steven também defende que a causalidade pode gerar muitas modificações na sociedade e que a intuição também faz parte dos processos de inovação.

No capítulo do aprendizado com o erro, o autor traz vários exemplos históricos de inovação que aconteceram com o erro da pessoa que estava desenvolvendo aquele processo e o erro/equívoco gerou uma nova descoberta. O erro muitas vezes cria um caminho que desvia das suposições confortáveis, forçando a explorar novas possibilidades. 

"O problema do erro é que temos uma tendência natural a desprezá-lo." Eis o erro!

Prensa de Gutenberg
No capítulo sobre "Exaptação"(processo de reuso de um artefato ou uma característica já adaptada, para um uso definido), Steven traz o exemplo da prensa de uvas para fazer vinho usada ainda na Idade Média e que Gutenberg introduziu algumas modificações brilhantes na metalurgia subjacente ao sistema de tipo móvel. Ou seja, a genialidade de Gutenberg não está em conceber uma tecnologia inteiramente nova a partir do zero, mas em tomar emprestada uma tecnologia madura (prensa) de um campo inteiramente diferente e usá-la para resolver um problema de outra natureza. Assim, Gutenberg criou a prensa de tipos móveis e começou a democratização do conhecimento.

"Gutenberg pegou uma máquina destinada a embriagar pessoas e transformou-a numa máquina para a comunicação em massa."

O sétimo capítulo fala sobre as Plataformas para difusão de ideias. O ambiente do "cafezinho" é um ótimo local para difundir novas ideias e gerar novos projetos. A cafeteria do Laboratório de Física Aplicada da Universidade Johns Hoppkins nos EUA, teve importante papel no desenvolvimento da comunicação, quando cientistas tomando café criaram um decodificador de sinal que conseguia receber as mensagens do satélite russo Sputnik. Isso foi uma das bases para a criação do GPS.

As plataformas de software, muita vezes chamadas de API é uma espécie de língua franca que aplicativos de software podem usar de maneira confiável para se comunicar uns com os outros. Exemplo, Twitter, Facebook, Instagram, Google Maps, entre tantos outros. Ou seja, a Web é uma plataforma em pilhas, uma sobre a outra, onde elas não partem do zero e sempre podem agregar uma nova pilha. Ou seja, as conexões das cidades grandes e as conexões da Web, nunca partem do zero.

A abordagem sobre os quatro quadrantes das ideias e inovações ressalta a parte comercial e a não comercial.

O primeiro e o segundo quadrantes se referem às ideias individuais e coletivas com interesse mercantil, Já o terceiro e o quarto quadrantes se referem às ideias também individual e coletivas, porém sem interesse econômico. Do ano de 1800 para cá, o fluxo de informações cresceu absurdamente o que remete a muitas novas boas ideias.

O livro ainda aborda, como apêndice, uma excelente cronologia de inovações fundamentais de 1400 a 2000. É uma parte preciosa do livro.

Assim, o livro traz excelentes reflexões sobre as ideias de inovação. As ideias surgem em abundância, onde a conexão é mais valorizada que a proteção.

É uma leitura um pouco técnica, mas de muita valia para entender mais sobre inovação.

Professor Mario Mello


sábado, 13 de novembro de 2021

O LIVRO SUA MAJESTADE LXXXII - OS RATOS

 Publicado em 1935, "Os Ratos" do escritor gaúcho Dyonelio Machado (1895-1985) é um dos romances mais importantes da literatura brasileira.

Fui "rebuscar" este livro em minha biblioteca, pois o havia lido em 1984. Foi um livro que me marcou bastante à época, pela simplicidade da escrita de um cotidiano difícil para um pai que precisa de dinheiro para sustentar o leite para seu filho pequeno.

Dyonelio Machado foi um dos principais expoentes da segunda geração do Modernismo no Brasil. Dyonelio foi romancista, poeta, jornalista e médico psiquiatra. 

Reverenciado por escritores consagrados como Érico Veríssimo, Mário de Andrade, Guimarães Rosa, entre outros, Dyonelio foi multifacetado, polêmico, mas de grande valor.
Disse Érico Veríssimo certa vez: "De vez em quando leio algum critico afirmar que quem primeiro fez a ficção urbana no Brasil, fui eu. Engano. Que começou foi Dyonelio. O futuro dirá, como este escritor era importante."

Guimarães Rosa disse: "Se o livro do Dyonelio tivesse sido escrito em Francês ou em Inglês e por autor estrangeiro, era Premio Nobel, sem dúvida."

Os Ratos descreve uma sociedade contemporânea preocupada com o dinheiro. O sofrimento do protagonista Naziazeno pela falta de dinheiro é a trama principal do romance.
Devendo 53 mil réis ao leiteiro, que não aceita mais desculpas e vai cortar o fornecimento do leite no dia seguinte, leva Naziazeno à uma preocupação sem fim.
O desespero bate em Naziazeno, pois ele tem um filho de 1 ano que precisa do leite. 
A pequena miséria e as frustrações do cotidiano refletem no protagonista um caminhar sem rumo e o laço moral de um pai que precisa saldar a dívida com o leiteiro.
O romance se passa em um único dia. Naziazeno sai de manhã cedinho para o trabalho e tudo acontece neste dia, pois a busca pelo dinheiro necessário é urgente.
Seu primeiro alvo para conseguir o dinheiro é seu chefe da repartição onde trabalha. A resposta do chefe foi: "Eu já o ajudei. Não me peça mais nada."
E assim, Naziazeno tem sua primeira negativa.

Depois procura pelos amigos Alcides e Duque que prontificam-se em ajudá-lo.

Nesta trama novelesca, o incentivo imediato da ação foi a necessidade, tornada urgente pela ansiedade coletiva do grupo de arranjar o dinheiro para saldar a dívida.

Naziazeno conseguiu 5 mil réis com outro amigo. Como era pouco dinheiro, resolve (sem os outros amigos saberem) jogar na roleta. O desfecho é previsível: perdeu os 5 mil no jogo. Naziazeno não poderia voltar para casa sem o dinheiro. A angústia e o sofrimento só aumentava. Neste ponto, Dyonelio Machado manifesta toda sua genialidade com a escrita.

Depois de muitas passagens, negativas de agiotas, fome, a pequena miséria durante todo o dia, à noitinha o grupo consegue convencer uma outra pessoa a desembolsar uma quantia, recebendo em garantia um anel do amigo Alcides.

Depois de todo o sofrimento do dia, Naziazeno volta para casa com o dinheiro que conseguiu emprestado. Sua mulher, ansiosa, estranhara o atraso do marido, porém se acalmou com a notícia de que Naziazeno tinha conseguido o dinheiro para o leiteiro.

A partir daqui, o final é dramático. Naziazeno e a mulher resolvem deixar o maço de dinheiro com os 53 mil réis, na cozinha, ao lado do pote onde o leiteiro pela manhã bem cedo faria o abastecimento. Para não acordarem muito cedo resolveram que o leiteiro vendo o dinheiro, o pegaria e estaria tudo certo para a manutenção do fornecimento de leite.

Será que os ratos vão comer o dinheiro?
De tão cansado pela angústia do dia inteiro, Naziazeno não consegue dormir bem, revira-se na cama o tempo inteiro e começa ouvir barulhos de ratos andando pela casa toda.
Este final é brilhante, talentoso e muito imaginativo.


Depois de tanto sofrimento de Naziazeno para conseguir o dinheiro, será que os ratos vão come-lo?
Será que todo esforço para conseguir o dinheiro será frustrado?
Os ratos trarão este revés?

A resposta o leitor terá apenas no último parágrafo do livro. 
O talento deste fantástico Dyonelio Machado, prende o leitor até a última palavra, para o desfecho do romance.

Estupendo romance!!!!

Professor Mario Mello


sábado, 6 de novembro de 2021

O LIVRO SUA MAJESTADE LXXXI - O PROFESSOR

 "O professor", romance escrito por um dos mais celebrados escritores brasileiros contemporâneos, Cristovão Tezza, traz um forte personagem, o professor Heliseu, como protagonista.

O escritor Cristovão Tezza (1952 - ) escreveu mais de uma dezena de livros e recebeu vários prêmios literários ao longo de sua trajetória. Em uma entrevista sobre o livro "O professor", Cristovão diz, que sem dúvida, é o seu mais completo romance. Um livro "maduro", que de certa forma aborda o envelhecimento com suas memórias e fantasmas.

O professor Heliseu narra uma história afetiva emocional em torno da sua vida - buscar o sentido da vida. Toda a narrativa acontece em apenas uma manhã, quando o professor acorda e se prepara para receber uma homenagem da universidade, pela sua brilhante trajetória. 

Num curto espaço de tempo entre o acordar, tomar café da manhã e tomar banho, Heliseu faz uma incrível retrospectiva da sua vida, narrando fatos desde sua infância até este momento, aos 70 anos, enquanto se prepara para ir à universidade receber a homenagem.

Professor de Filologia (estudo da linguagem em fontes históricas escritas, incluindo literatura, história e linguística), formado nos anos 60, Heliseu faz sua narrativa dos vários fatos de sua vida, como se estivesse em busca do tempo perdido. Heliseu é tomado por uma sucessão incontrolável de memórias.

O talento do autor se revela em relacionar as passagens narradas pelo professor Heliseu, com algum fato da história recente do Brasil. Fatos como, as diretas já, o Plano Cruzado, a inflação galopante da época de Sarney, o confisco da poupança pela ministra Zélia Cardoso, entre outros vão sendo relacionados com a vida de Heliseu.

Cristovão Tezza

Neste dia da narrativa, enquanto tomava seu café da manhã preparado por Dona Diva, que era sua empregada doméstica, desde que casara, lendo o jornal deparou-se com a notícia da renúncia do Papa Bento XVI. Como pode um Papa renunciar? Esta indagação o acompanhou até o final da história.

Heliseu casou-se com Mônica, funcionária do Banco do Brasil e teve um filho. Os conflitos familiares começam quando Heliseu flagra seu filho com um namorado. Não sendo aceito, o filho se muda para os EUA e praticamente rompe as relações com o pai.

Na universidade, Heliseu tem uma paixão desestabilizadora de sua vida, pela jovem Therèze. Francesa, Therèze busca em Heliseu o professor orientador de seu doutorado. Heliseu passa então a levar uma vida dupla e de certa forma consentida pela mulher Mônica que aos poucos vai se afastando dele com a amiga Úrsula.

Nesta época acontece uma tragédia. Mônica cai da sacada do apartamento e morre. Sem culpa pelo acidente, Heliseu é investigado e de certa forma, muitos amigos, inclusive na sala de cafezinho da universidade, desconfiam que ele tenha matado a esposa.

Enfim, o tempo passa e Heliseu, agora sozinho, só pensa no discurso que deve fazer na homenagem. Assim, a história vai se conduzindo a este final. 

De forma magistral o autor prende o leitor até a última página. 

As lembranças do professor e o acerto de contas com seu passado estão sempre em conflito com "o sentido da vida", perseguido pelo professor. É uma história extraordinária de um professor, suas memórias e sua vida real.

Vale muito a pena a leitura. Um magnífico romance!

Professor Mario Mello


domingo, 24 de outubro de 2021

O LIVRO SUA MAJESTADE LXXX - FOME

 Obra-prima do escritor Norueguês, Knut Hamsun, o romance "Fome" escrito em 1890, influenciou sobremaneira as tendências da literatura do inicio do século XX.

Exemplar do Círculo do Livro, 1977
Adquiri este exemplar em 1977, quando então existia um clube de livros chamado Círculo do Livro S.A. Vejam que o que temos hoje como "assinatura" de vários serviços e produtos, já existia na década de 1970 para livros. Eu pagava uma mensalidade e todo mês recebia dois livros "surpresa".

Li "Fome" naquela época e lembro que fiquei extremamente impactado com o furor da fome. 44 anos depois, vendo que nada ou pouco mudou no mundo em relação à fome, resolvi reler o romance. Infelizmente a humilhação e a dor da fome assola, ainda, milhões de pessoas pelo mundo afora. 

Knut Hamsun ( 1859 - 1952), como Victor Hugo, conheceu desde a infância a miséria, a injustiça, a maldade e fez delas o tema constante em toda sua obra, a exemplo de Victor Hugo. Victor Hugo em seu clássico "Os miseráveis" retrata o desespero, a fome e a agonia de uma personagem que vendia seus dentes para ter algum dinheiro para comer. Knut Hamsun retrata os mesmos sentimentos de um personagem que não tendo mais nada para vender, oferecia seu óculos em troca de poucas moedas para comprar um pão.

Knut Hamsun

Genial em seus romances, Knut ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1920. Infelizmente sua escolha política pelo nazismo o levou à prisão ao fim da segunda guerra mundial. Por isso, embora toda sua genialidade, praticamente não existem homenagens a ele, na Noruega.

O romance "Fome" é muito impactante e ao mesmo tempo de uma simplicidade também impactante, pois retrata fatos corriqueiros do dia-a-dia do personagem protagonista. 

Hamsun nem nome deu ao protagonista de "Fome". Narrado sempre na primeira pessoa, o protagonista era um escritor que vendia artigos para o jornal da cidade (Jornal Morgenbladet, que existe até hoje na Noruega). Porém, isso nem sempre era possível, pois o jornal acabava recusando muitos artigos e com isso, não tinha dinheiro nem para comer.

A humilhação, o sofrimento e a fome era tanta que chegou ao extremo do escritor tentar vender os botões de seu único paletó para tentar algumas moedas para comprar comida. Não teve sucesso. E assim ele passava perambulando pela cidade para passar o tempo e tentar a busca de comida. Chegava ficar semanas sem comer nada, até algum artigo render poucas moedas.

Um dia o escritor precisava de uma vela para poder escrever à noite, mas não tinha dinheiro para comprar a vela. Foi até uma loja na esperança de conseguir a vela "fiado". Porém, para sua surpresa o atendente se enganou e achou que tinha recebido dele uma nota de 5$ e deu a vela e o troco para ele. Embaraçado e surpreso ele pegou o dinheiro e a vela e saiu. Começa então, uma tortura psicológica em seu inabalável caráter. Diz ele:

"Aquele dinheiro me pesava no bolso, não me deixava em paz. Investigando bem no fundo de mim, descobri que antes era mais feliz, quando sofria, porém com toda honestidade. Oh meu Deus!" Livrou-se em seguida do dinheiro doando a outro pobre.

A fome o perseguia diariamente. A miséria e a humilhação era uma constante em seus dias. Chegava muitas vezes a mascar gravetos encontrados na rua. Sua aparência era cada vez mais cadavérica. Possuía apenas uma muda de roupa e não tinha residência fixa. Morava um tempo em algum quarto alugado, porém não tinha dinheiro para pagar o aluguel e era mandado embora. Assim, aconteceu várias vezes.

O personagem sofre com os efeitos físicos e morais da subnutrição. A fome causa a loucura e empurra a pessoa à morte. Ultrapassa as fronteiras da sanidade.

Como sempre faço nos textos, não vou contar o final do romance. Só vou dizer que, praticamente, não tem final. A fome não tem fim.

Enfim, o livro é muito triste. A agonia que passa o protagonista traz uma grande perturbação ao leitor. Porém é uma leitura "obrigatória" na reflexão ao amor ao próximo. Essa maldição e humilhação chamada fome, que muitos de nós nunca passou deveria ser proibida no mundo. Não sei e não tenho a solução para o mundo. Mas sei que posso ajudar localmente a diminuir esse sofrimento de alguns.

É um livro que vale muito a leitura, pois não tem como ficar indiferente a esse "grito".

Professor Mario Mello