quarta-feira, 29 de janeiro de 2025

O LIVRO SUA MAJESTADE CVIII (108) - VALIENTES

 "Valientes" é um livro adquirido em Buenos Aires, na minha última viagem à charmosa capital argentina.

Escrito por Hernán Brienza é um livro de crônicas de coragem e patriotismo na Argentina do século XIX.

Brienza, nascido em 1971 é escritor, professor na Universidade de Palermo e autor de vários livros.

As crônicas contam a história de vários personagens argentinos que lutaram em várias batalhas e que são heróis, segundo o autor, não tão reconhecidos como outros argentinos.

Brienza ainda diz que foi roubada dos argentinos a épica, pois muitos pensam que heroísmo é uma questão de "fanfarrias" e marchas militares que tantos destroços provocaram nos últimos 80 anos.

O livro, composto de 10 capítulos traz histórias de valentia, patriotismo e lutas por aqueles que consideravam a Argentina sua pátria.

O capítulo 1 contempla a história de Martina Chapanay, apelidada de "la gata",  uma mulher bonita, porém com a beleza dessas mulheres ariscas, desobedientes e vestida como um gaúcho. Martina se dedicou muitos anos a pelear, saquear e repartir o saque com os pobres.

Um dos capítulos que mais gostei, foi o capítulo 10 "Tema del traidor y del héroe - Martiniano Chilavert". O autor faz duas perguntas: "quando um homem começa a transformar-se em um traidor?" e "quando um traidor começa a converter-se em um herói?" 

Martiniano Chilavert transita entre traidor e herói e convive com esta dualidade. Diz o autor que o traidor é herói para muitos e o herói é o traidor para outros. O capítulo é sobre batalhas e a valentia de Martiniano que foi morto em uma resistência à invasores.

As histórias não falam de homens que foram marmorizados pela história. São breves crônicas de personagens Lado B, não reconhecidos pela história oficial do passado.

Hernán Brienza
O livro ainda nos leva a uma profunda reflexão: Onde há heróis, há assassinos. Há mortes. Os heróis nascem na exceção, por isso tem razão Bertold Brecht, quando diz: "desgraçado o país que necessita de heróis".

Enfim, é um livro que relata uma parte da história da Argentina do século XIX. As crônicas são de fácil leitura e para nós gaúchos, traz uma similaridade com termos, territórios e costumes dos personagens contados e "valientes".



PS: A leitura em espanhol faz parte de um dos meus desafios propostos para 2025. Já é o segundo livro, em espanhol, lido em 2025. Estamos indo bem!

Professor Mario Mello

segunda-feira, 27 de janeiro de 2025

O LIVRO SUA MAJESTADE CVII (107) - A DAMA DE ESPADAS

Aleksandr Púchkin (1799-1837)
 Você quer uma história curta com final surpreendente?

Pois é, assim é "A Dama de Espadas" um conto do escritor russo Alexandre Pushkin (ou Aleksandr Púchkin). 

Púchkin é considerado o maior poeta russo e o fundador da moderna literatura russa. Nascido em 1799, herdeiro de uma família de aristocratas, teve contato com a literatura desde criança.

Em sua poesia e prosa, ele revolucionou a literatura russa ao misturar narrativa e sátira com a linguagem vernácula da época.

Curiosidade: morreu num duelo, com apenas 37 anos, para defender sua linda mulher Natália Goncharova.

"A Dama de Espadas" é uma história que se desenrola um volta de jogo de baralho. Em uma roda de amigos, Tómski diz que a avó dele, uma Condessa Russa (nessa época já com 90 anos) tem uma sequência de três cartas que ganha sempre, dando fortunas ao seu ganhador.

Disse um amigo a Tómski: "O quê? Você tem uma avó que adivinha três cartas na sequência, e até agora não extraiu essa cabalística dela?"

Porém, ela não conta o segredo para ninguém, nem para seus filhos e netos. Essa história despertou um fetiche no jovem Hermann que nunca jogou. Apenas acompanhava os amigos nas rodadas de cartas. Dizia Hermann: "não estou em condição de sacrificar o indispensável na esperança de obter o supérfluo"

A história prossegue com Hermann tentando encontrar a Condessa para descobrir quais cartas seriam as "mágicas". Ele consegue ludibriar uma ajudante, Ivánovna, da Condessa, enviando muitos bilhetes se dizendo apaixonado por ela, porém a intenção era chegar na Condessa.

Até que um dia Ivánovna cedeu e marcou um encontro à noite (escondido) na mansão da Condessa. O encontro aconteceu e aí vem todo o mistério do conto.

Óbvio que não vou contar aqui o final, mas ele é surpreendente. 

Posso apenas dizer que a Dama de Espadas estará no final.

Enfim, é um conto com sátira, um certo suspense e principalmente ganância. É uma leitura leve e agradável que justifica a fama do escritor Púchkin.

Boa leitura!

Professor Mario Mello

segunda-feira, 20 de janeiro de 2025

O LIVRO SUA MAJESTADE CVI (106) - LA LIBRERIA DE LOS DESEOS

 "DIME QUÉ LEES Y TE DIRE QUIÉN ERES"

Esta frase está na capa do livro "La libreria de los deseos" e é emblemática.

A história é uma autêntica jóia para os amantes de livros. Escrito pelo francês Éric de Kermel (1963 - ), cada capítulo é um descobrimento maravilhoso.

Trata-se da história de uma professora de Paris, que cansada dos atropelos da cidade grande, muda-se para uma pequena cidade do interior da França, Uzès, e lá adquire a única livraria da localidade.

A protagonista Nathalie, casada com Nathan, um arquiteto, passava férias em Uzès, onde compraram uma pequena casa, bem antes de Nathalie adquirir a livraria. Ir morar em Uzès foi definida por ela, como uma opção de vida, e, assim aconteceu.

Apaixonada pelos livros, Nathalie com ajuda de Nathan e de uma "vizinha" da livraria, Hélène, deixou a livraria com outro aspecto e um novo ar, porém ela não sabia que se convertendo em livreira iria ter tanto carinho com os leitores.

Trecho da Nathalie falando: "Que, después de tanto buscarme a mí mesma, los libros me harían conocer a hombres y mujeres, a niños y mayores, a gente triste, conformista, alegre, a asesinos, a sabios sin hogar, a seductores en horas bajas, a poetas cojos pero luminosos, a enamoradas frígidas, viajeros estáticos, glotones penitentes, a religiosos en busca de sentido... He compartido sus vidas siguiendo sus lecturas. A veces, he ido por delante de ellos gracias a los libros que les he recomendado."

Cada capítulo traz um personagem/cliente da livraria. Desde a jovem Cloé que tinha uma vigilância severa de sua mãe sobre suas leituras e graças a Nathalie se desvinculou desta vigilância, até Sor Véronica uma freira que começou a frequentar a livraria e se tornou grande amiga de Nathalie.

Outro personagem interessante é o Arthur. Carteiro da pequena cidade, que queria ser ator, porém não poderia deixar sua mãe sozinha em Uzès para estudar em Paris. Nathalie emprestou vários livros ao Arthur para ele estudar e ajudou com que ele fosse estudar em Paris e se tornou um ator.

Porém o personagem mais marcante, para mim, foi Bastien, "el mensajero silencioso". Bastien comprava livros e pedia a Nathalie para enviar a certo endereço, e mesmo destinatário, em outra cidade. Isso aconteceu várias vezes, até que o último livro enviado retornou à livraria, com a mensagem de "destinatário não encontrado". Bastien enviava, através da Nathalie, livros a seu pai com quem havia se desentendido e se afastado há muitos anos. Ficou receoso de que o pai teria morrido. Resumindo, Nathalie, através de suas indicações de livros conseguiu que o pai de Bastien viesse até Uzès e a reconciliação pai e filho aconteceu.

Diz Nathalie: "Com cada pessoa que entrou em minha pequena livraria, nasceu uma nova história."

E assim é o livro, cheio de histórias mágicas. O livro traz ainda, mais de 70 indicações de livros, pois a cada cliente Nathalie recomendava alguns títulos. 

Os livros têm braços amplos que se abrem com cada página. Recebem os olhos que se fixam neles, as mãos que os adotam durante o tempo da leitura, folhando cada página.

Sempre gostei muito de livros que tratam de livros e, este é mais uma preciosidade da literatura. Já escrevi aqui no Blog sobre outros livros dessa natureza como: A livraria mágica de Paris; A biblioteca da meia-noite; O livro dos prazeres proibidos;  Os livros que devoraram meu pai (excepcional); O guardião de livros. 

Uma curiosidade: Este livro ainda não foi traduzido para o português. Ele é escrito em espanhol e é um dos desafios meus, fazer várias leituras em espanhol, para melhorar o entendimento do idioma.

Quero também agradecer à minha filha Laura e ao Rodrigo, por trazerem este exemplar direto da Espanha (Casa del Libro).

Por fim, recomendo muito a leitura deste livro, pois ele é encantador!

Professor Mario Mello

domingo, 5 de janeiro de 2025

O LIVRO SUA MAJESTADE CV (105) - O ANDAR DO BÊBADO

 O título do livro é meio intrigante não?

Pois é, o livro trata de como o acaso determina nossas vidas. Best-seller internacional com mais de 200 mil exemplares vendidos no Brasil, "O andar do bêbado" põe em xeque tudo o que acreditamos saber sobre como o mundo funciona. E, assim, nos ajuda a fazer escolhas mais acertadas e a conviver melhor com fatores que não podemos controlar.

Leonard Mlodinow
Escrito por Leonard Mlodinow (nascido em 1954) que é um fisico estadunidense, é autor de livros de divulgação científica, além de escrever para o The New Youk Times. Também escreveu roteiros para as séries MacGyver e Star Trek. 

Uma curiosidade sobre o autor: seus pais foram ambos sobreviventes do holocausto, e se conheceram em Nova York depois da guerra.

O livro traça vários paralelos entre a aleatoriedade e a estatística. Costurando casos emblemáticos com teorias matemáticas e as histórias de vida dos homens que ajudaram a criá-las, Leonard contrói uma narrativa ágil e original.

Nomes de cientistas como Gerolamo Cardano e Blaise Pascal misturam-se aos de celebridades como Madonna, Bill Gates e Stephen King, que devem muito de sua fama ao acaso.


O livro é dividido em dez capítulos, começando pela lente da aleatoriedade, passando pela ordem no caos e finalizando no por que o acaso é um conceito mais fundamental que a casualidade. 

Segundo o autor, os mecanismos pelos quais as pessoas analisam situações que envolvem o acaso são um produto complexo de fatores evolutivos, da estrutura cerebral, das experiências pessoais, do conhecimento e das emoções. 

No livro o autor combina muitos diferentes exemplos para mostrar que notas escolares, diagnósticos médicos, sucessos de bilheteria e resultados eleitorais são, como muitas outras coisas, determinados em grande escala por eventos imprevisíveis. 

O livro trata também de recompensa e punição, onde estudos mostraram que em animais a recompensa funciona melhor, já em alguns casos com humanos a punição traz melhores resultados posteriores (polêmico isso?). 

A parte mais interessante do livro (para mim) é quando o autor diz que a linha que une a habilidade e o sucesso é frouxa e elástica.

É fácil enxergarmos grandes qualidades em livros campeões de vendas, ou vermos fragilidades em manuscritos não publicados. 

É fácil transformar os mais bem-sucedidos em heróis, olhando com desdém para o resto. Porém, a habilidade não garante conquistas, e as conquistas não são proporcionais à habilidade. Assim, é importante mantermos sempre em mente o outro termo da equação - o papel do acaso.

Enfim, o livro traz a reflexão de que o papel do acaso no mundo que nos cerca, vai mostrar de que modo podemos reconhecer sua atuação nas questões humanas.

Finalizo com uma frase de Thomas Watson, o pioneiro da IBM, um dos personagens citados no livro:

"Se você quiser ser bem-sucedido, duplique sua taxa de fracassos."

Boa leitura!

Professor Mario Mello

quinta-feira, 2 de janeiro de 2025

O LIVRO SUA MAJESTADE CIV (104) - O SENTIDO DA VIDA

Contardo Calligaris (1948-2021)
 Você se importa em ser feliz? 

Pois essa indagação é abordada no livro "O Sentido da Vida" escrito por Contardo Calligaris.

Calligaris foi um renomado escritor e psicanalista italiano que se radicou no Brasil há muitos anos, fazendo palestras e escrevendo para um jornal.

"O Sentido da Vida" é uma obra que explora questões profundas e existenciais de forma acessível e reflexiva. Calligaris, conhecido por sua habilidade em conectar temas complexos da psicanálise e filosofia com o cotidiano, oferece uma abordagem única para a busca de significado na vida.

Uma das muitas passagens interessantes, que destaco, é que o pai de Contardo tinha em casa uma biblioteca com várias estantes e livros. Em algumas estantes haviam buracos entre os livros.  Disse o pai do autor: "há livros que são escritos para tapar os buracos da estante, e há livros que são escritos para preservar os buracos na estante."

E aí? O que você acha? 

"O Sentido da Vida" foi entregue pelo autor poucos dias antes de sua morte e reune três textos breves, porém muito potentes, sobre a obrigação da felicidade, o "morrer bem" e o sentido da vida.

Calligaris trata a felicidade como um conceito subjetivo e, muitas vezes, ilusório, que está diretamente relacionado às narrativas que construímos sobre a nossa vida. Ele questiona a ideia de felicidade como um objetivo fixo ou um estado permanente, argumentando que ela está mais associada à maneira como vivemos nossos desejos, lidamos com nossas insatisfações e encontramos sentido em nossas experiências.

"Felicidade um preocupação desnecessária". O autor diz que em vez de se preocupar com a felicidade e seu mistério, preferia se esforçar para viver uma vida interessante onde você se autoriza a viver com toda a intensidade, que todos os momentos da nossa vida merecem.

Na sequência ele aborda a questão do "un bel morrir", ou morrer bem.
A morte de Sêneca
Para o autor, o bel morrir não se trata de uma morte idealizada, mas de um convite a viver de maneira autêntica e coerente com nossos desejos e valores. 

Ele argumenta que pensar no fim da vida pode ser um estímulo para construir uma existência significativa, onde cada escolha e ação seja vivida com consciência. 

Assim, a ideia de um "belo morrer" está mais ligada a uma vida vivida plenamente, sem arrependimentos por aquilo que deixamos de fazer ou de ser.
O bel morrir, nesse sentido, está menos relacionado ao momento da morte em si e mais ao legado emocional e narrativo que deixamos – as histórias que construímos e o impacto que causamos nas vidas ao nosso redor.

O autor aborda a morte de Sêneca que foi aconselhado por seu amigo o Imperador Romano Nero, a suicidar-se. Sêneca chamou a mulher e alguns de seus amigos, cortou os pulsos e sangrou até a morte.

É um pouco chocante, mas ninguém quis impedir Sêneca de morrer, pelo contrário, acompanharam seu fim. Isso está retratado na tela pintada por David em 1773.

O terceiro capítulo do livro chama-se: o sentido da vida e a bizarra obrigação de sermos felizes.

Calligaris ressalta que a busca pela felicidade pode ser, paradoxalmente, uma fonte de angústia quando é idealizada como um estado de plenitude impossível de alcançar. Ele sugere que a felicidade não está na ausência de problemas, mas na capacidade de encontrar prazer e significado nas pequenas coisas do cotidiano, no desejo que nos move e na aceitação das imperfeições da vida.

O autor também desafia a ideia de que a felicidade seja algo "pronto" a ser encontrado ou conquistado, como um destino final. Em vez disso, ele defende que ela é construída no percurso, na autenticidade com que vivemos e na forma como lidamos com as contradições inevitáveis da existência. 

Essa abordagem humanista e realista oferece um contraponto às visões mais simplistas ou idealizadas sobre o que significa ser feliz. 

Por fim, o autor traz o que ele diz de a grande lição de seu pai, que é a ideia de que a questão do sentido da vida é simples: o sentido da vida é a própria vida concreta. A que vivemos e da qual faz parte também morrer.

É um livro de muitas reflexões.
Boa leitura!!

Professor Mario Mello

Como tradicionalmente acontece no Natal, este livro foi um presente da minha querida sobrinha Carolina Zago Cervo. 
Sempre acerta em cheio, com seus presentes. 
Obrigado Caro. 😘