 |
| Contardo Calligaris (1948-2021) |
Você se importa em ser feliz?
Pois essa indagação é abordada no livro "O Sentido da Vida" escrito por Contardo Calligaris.
Calligaris foi um renomado escritor e psicanalista italiano que se radicou no Brasil há muitos anos, fazendo palestras e escrevendo para um jornal.
"O Sentido da Vida" é uma obra que explora questões profundas e existenciais de forma acessível e reflexiva. Calligaris, conhecido por sua habilidade em conectar temas complexos da psicanálise e filosofia com o cotidiano, oferece uma abordagem única para a busca de significado na vida.
Uma das muitas passagens interessantes, que destaco, é que o pai de Contardo tinha em casa uma biblioteca com várias estantes e livros. Em algumas estantes haviam buracos entre os livros. Disse o pai do autor: "há livros que são escritos para tapar os buracos da estante, e há livros que são escritos para preservar os buracos na estante."
E aí? O que você acha?
"O Sentido da Vida" foi entregue pelo autor poucos dias antes de sua morte e reune três textos breves, porém muito potentes, sobre a obrigação da felicidade, o "morrer bem" e o sentido da vida.
Calligaris trata a felicidade como um conceito subjetivo e, muitas vezes, ilusório, que está diretamente relacionado às narrativas que construímos sobre a nossa vida. Ele questiona a ideia de felicidade como um objetivo fixo ou um estado permanente, argumentando que ela está mais associada à maneira como vivemos nossos desejos, lidamos com nossas insatisfações e encontramos sentido em nossas experiências.
"Felicidade um preocupação desnecessária". O autor diz que em vez de se preocupar com a felicidade e seu mistério, preferia se esforçar para viver uma vida interessante onde você se autoriza a viver com toda a intensidade, que todos os momentos da nossa vida merecem.
Na sequência ele aborda a questão do "un bel morrir", ou morrer bem.
 |
| A morte de Sêneca |
Para o autor, o
bel morrir não se trata de uma morte idealizada, mas de um convite a viver de maneira autêntica e coerente com nossos desejos e valores.
Ele argumenta que pensar no fim da vida pode ser um estímulo para construir uma existência significativa, onde cada escolha e ação seja vivida com consciência.
Assim, a ideia de um "belo morrer" está mais ligada a uma vida vivida plenamente, sem arrependimentos por aquilo que deixamos de fazer ou de ser.
O bel morrir, nesse sentido, está menos relacionado ao momento da morte em si e mais ao legado emocional e narrativo que deixamos – as histórias que construímos e o impacto que causamos nas vidas ao nosso redor.
O autor aborda a morte de Sêneca que foi aconselhado por seu amigo o Imperador Romano Nero, a suicidar-se. Sêneca chamou a mulher e alguns de seus amigos, cortou os pulsos e sangrou até a morte.
É um pouco chocante, mas ninguém quis impedir Sêneca de morrer, pelo contrário, acompanharam seu fim. Isso está retratado na tela pintada por David em 1773.
O terceiro capítulo do livro chama-se: o sentido da vida e a bizarra obrigação de sermos felizes.
Calligaris ressalta que a busca pela felicidade pode ser, paradoxalmente, uma fonte de angústia quando é idealizada como um estado de plenitude impossível de alcançar. Ele sugere que a felicidade não está na ausência de problemas, mas na capacidade de encontrar prazer e significado nas pequenas coisas do cotidiano, no desejo que nos move e na aceitação das imperfeições da vida.
O autor também desafia a ideia de que a felicidade seja algo "pronto" a ser encontrado ou conquistado, como um destino final. Em vez disso, ele defende que ela é construída no percurso, na autenticidade com que vivemos e na forma como lidamos com as contradições inevitáveis da existência.
Essa abordagem humanista e realista oferece um contraponto às visões mais simplistas ou idealizadas sobre o que significa ser feliz.
Por fim, o autor traz o que ele diz de a grande lição de seu pai, que é a ideia de que a questão do sentido da vida é simples: o sentido da vida é a própria vida concreta. A que vivemos e da qual faz parte também morrer.
É um livro de muitas reflexões.
Boa leitura!!
Professor Mario Mello
Como tradicionalmente acontece no Natal, este livro foi um presente da minha querida sobrinha Carolina Zago Cervo.
Sempre acerta em cheio, com seus presentes.
Obrigado Caro. 😘