Nas férias escolares, com um pouco mais de tempo para leituras, fui atrás de "maratonar" o autor Haruki Murakami. Virei fã do autor lendo uma de suas obras. Depois de ter lido três de suas obras (todas estão aqui no Blog):
1. Sono - (incrível este livro)
2. Do que eu falo quando falo de corrida - (espetacular sua história real de superação)
3. Sul da fronteira, oeste do sol - (o melhor deles)
| Belíssima edição de capa dura |
Resolvi encontrar as duas primeiras novelas de Murakami, pois ele se referia a elas muitas vezes. É sobre esse livro, que trago o comentário de hoje. O livro traz as duas histórias: "Ouça a canção do vento" e "Pinball, 1973". São janelas para o mundo fascinante de Murakami. É o início dele como escritor e do fenômeno da literatura contemporânea que ele se tornou. Ainda dono de bar, Murakami escreveu estas duas novelas de madrugada, na mesa da cozinha, depois que o bar fechava.
"Ouça a canção do vento" é uma obra curta, escrita em 1978, mais próxima de uma novela do que de um romance. Mas, segundo Murakami, ele "penou" muito para conseguir terminá-la, pois não tinha a menor noção de como se escrevia um romance. Murakami escreveu, enviou a uma revista literária e meses depois recebeu um telefonema que a obra tinha sido selecionada como finalista do prêmio para novos escritores. Nada mal, por ser seu primeiro texto.
A história é de um estudante de biologia que passa as férias em sua cidade natal e relembra os amores da adolescência, enquanto tenta entrar em uma nova e inusitada relação.
O protagonista, sem nome, encontra uma amigo que ele chama de Rato e passam horas por dia bebendo em um bar da cidade. Percebe-se em Murakami uma certa dose de melancolia e solidão. Como um dos traços característicos dele, nesta obra a presença de livros, jazz e bebida, é muito forte. Por ser sua primeira obra, a narrativa é um pouco desarticulada, pois muda de assunto com bastante frequência. Isso, de forma alguma, tira o brilho do texto, apenas exige um pouco mais de atenção na leitura.
A história tem passagens muito legais. Separei esta num diálogo dele com a namorada:
"Às vezes eu minto. A última vez que menti foi no ano passado. Mentir é um negócio tremendamente desagradável. Pode-se dizer que as mentiras e o silêncio são dois pecados que se alastram pela sociedade atual (isso escrito em 1978 e atual até hoje). Sem dúvida nós mentimos muito e nos calamos com frequência. Porém, se falássemos sem parar e disséssemos apenas a verdade, talvez ela acabasse perdendo seu valor."
E assim a história se desenrola com o Rato, o proprietário do J's Bar e a namorada que conheceu numa loja de discos, até chegar o dia do nosso protagonista voltar para Tóquio e seguir os estudos. Antes de partir passou no bar para se despedir, ganhou umas cervejas (sem pedir) e leu o seguinte:
"Aquilo que damos sem nos arrepender é o mesmo que costumamos receber."
A outra história chamada "Pinball, 1973", já não é tão fragmentada e é mais lógica.
Nosso protagonista, um tradutor, se vê obcecado por uma máquina de fliperama. Ele vai atrás dessa máquina que foi importante na sua trajetória de jogador até o limite para encontrá-la novamente e revisitar seu passado. A história parece uma continuação da primeira, pois apresenta os mesmos personagens: o Rato e o barmen J. Morando sozinho, em um pequeno apartamento, nosso protagonista ao chegar em casa um dia, depois do trabalho, encontra duas gêmeas dormindo em sua cama. As gêmeas são idênticas e completamente indistinguíveis. A partir daí passam a conviver com ele. Fazem café, passam roupas, saem à passear, dormem na mesma cama, ou seja, passam a conviver juntos.
As gêmeas não têm uma história concreta na história. Elas são figuras misteriosas sem passado ou presente definidos. Assim como elas chegaram, se foram. A presença das gêmeas na história, pode-se dizer que está inserida dentro de temas típicos de Murakami como a nostalgia e a solidão.
O outro viés da história é de novo a amizade com o Rato e a presença constante no J's Bar para ouvir jazz, conversar e beber. Um dia nosso protagonista foi seduzido pelo feitiço do pinball. Ao anoitecer, vestia um casaco e ía passar horas num fliperama. Ele foi se especializando numa máquina chamada Spaceship de três flippers que emitia vários sons e acendia várias luzes. Dominou todas as técnicas e foi batendo seu recorde seguidamente. Até que um dia a máquina desapareceu do fliperama, pois foi substituída por máquinas mais novas e modernas. Ele enlouqueceu. Começou uma busca frenética pela cidade em busca da máquina do coração.
Contatou dezenas de pessoas ligadas ao ramo, um professor de uma universidade que era especialista em máquinas de fliperama, até que um dia descobriu uma pista de onde a máquina poderia estar.
Bom, óbvio, não vou contar o final da história mas ele é bem intrigante. Escreve o autor em umas das últimas páginas da história:
"Sobre o passado e o presente falamos: é assim. Mas sobre o futuro só podemos dizer "talvez". Porém quando me volto para olhar meu trajeto escuro até aqui, creio que o que existe ali não é nada além de um incerto "talvez". A única coisa que nossos sentidos podem de fato captar claramente é o instante que chamamos de presente, mas ele apenas passa roçando por nós."
Enfim, a história é um misto de uma narrativa breve sobre solidão, memória e a busca sobre algo perdido.
Como disse acima, sou fã do Murakami. Como ele mesmo disse as obras são "romances de mesa de cozinha", mas são elas que marcam seu verdadeiro começo da carreira de escritor, pois foram presença preciosa e insubstituível.
Fale muito a leitura.
Professor Mario Mello
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