sábado, 3 de janeiro de 2026

O LIVRO SUA MAJESTADE CXIX (119) - LA CONQUISTA DE LA SOLEDAD

 Começo o ano de 2026 lendo um livro em espanhol.  Faz parte dos meus desafios como leitor e aprendiz, ler ao longo do ano alguns livros em espanhol.

O livro que trago hoje é de um autor uruguaio, Juan José Morosoli (1899 - 1957), chamado "La Conquista de la Soledad". É um livro de contos escolhidos do autor e publicado após sua morte. 

Morosoli, considerado autodidata, pois estudou somente até a segunda série, é considerado pela crítica literária do Uruguai como um dos principais "cronista de almas". É um escritor que parecia com seus personagens.

Os contos tratam da vida simples e de gente simples do interior do Uruguai. Uma marca registrada em praticamente todos os contos, é a solidão dos personagens. 

Morosoli nasceu, se criou e morreu na mesma cidade uruguaia de Minas. Isso certamente influenciou sua escrita simples e de personagens reais e interioranos.

A prosa de Morosoli, quase sempre de aspecto duro e afiado, também guarda momentos de intensa beleza e franqueza com que o autor envolve seus personagens.

Contos como "Un gaucho" conta a história de um rapaz que não conseguia parar em lugar nenhum, em serviço nenhum. O protagonista Montes dizia: "Mi pago (local) es donde yo ando".

Na última fazenda que trabalhou teve uma filha com uma empregada do local, mas nem isso fez Montes permanecer. Assim como chegou um dia, se foi em outro. Anos depois, foi visto no Chuy (fronteira com o Brasil) fazendo contrabandos. E, assim era Montes. Sem paradeiro. Até que um dia, num cortejo um moço viajante se aproximou e perguntou: é Montes? Sim confirmaram alguns. Você o conhecia? Não - disse o moço viajante - mas era meu pai.

Outro conto interessante é "El campo". Tem dois protagonistas: como diz no conto "el negro Sabino" e su patrón Correa.

Tudo mundo sabia como vivia Correa. Toda "plata" que caía em suas mãos era guardada para comprar novas terras. Correa já possuía uma interminável fazenda, mas sempre queria mais.

Um dia faleceu um vizinho Antúnez que deixara a mulher e duas filhas pequenas, com dívidas e desamparadas. Correa sem pena delas foi lá e comprou mais terras para seu deleite. E assim, foi passando o tempo. Correa não gastava dinheiro em nada. Seus mantimentos quando precisavam ser comprados era sempre em troca de alguma coisa que a fazenda produzia. Sabino era encarregado das compras. Até que um dia Correa não fazia mais trocas e começou a ficar devendo no armazém.

Correa era sozinho. Só habitavam a fazenda ele e Sabino. A doença chegou para Correa. Um dia Sabino encontrou o patão nu na porta olhando para a imensidão das terra. Foi só aí que Sabino percebeu como ela estava magro, sem músculos e com o ventre saltado. "Patrón, vaya pa dentro". Porém o patrão parecia nem ouvi-lo e nem vê-lo. Pareceu para Sabino pareceu que ele tinha olhos de vidro com reflexos para todos os lados, como se estivessem quebrados por dentro. Assim, o patrão morreu.

Tá, mas o que aconteceu depois com as terras e o negro Sabino? Essa é outra característica dos contos de Morosoli: o leitor é livre para imaginar a sequência a partir de um fato determinante.

Enfim, o livro traz 16 contos todos com muita perspicácia e com muita realidade. Há na obra do autor uma exaltação ao homem, mas não um herói corajoso com a faca na mão. São personagens capazes de entender o silêncio.

Esta edição do livro é uruguaia e foi presente do meu filho Arthur, quando da sua última viagem à Montevideo. Arthur (já escrevi em outros posts) tem uma incrível capacidade de encontrar livros excepcionais. Este é mais um dos vários que ele já "garimpou". 

Como (ainda) não existe esta edição no Brasil, faço votos de que quando forem ao Uruguai, possam adquirir o mesmo, pois vale muito a pena.

Professor Mario Mello


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