sábado, 17 de agosto de 2024

O LIVRO SUA MAJESTADE XCIX - O GUARDIÃO DE LIVROS

 Sempre que vejo livros falando sobre livros tenho uma enorme curiosidade e atração para lê-los. Descobri este livro por uma "dica" de minha sobrinha Carla Cielo, que como eu adora livros.

Assim foi com o livro "O Guardião de Livros" escrito em 2010 por Cristina Norton. Trata-se de um livro de não ficção ficcionada, como diz a autora. São personagens reais que tiveram um pouco de ficção, porém a autora diz não revelar. Diz a autora: guardo o segredo de quais são as partes ficcionadas e quais não são. 

O livro trata da chegada da Família Real ao Brasil em 1808, ou melhor da saída da Família Real de Portugal. Com a invasão de Napoleão Bonaparte em Portugal, D. João VI se viu obrigado a abandonar Portugal.

D. João VI sempre foi interessado por livros e tinha a Real Biblioteca do Palácio da Ajuda em Lisboa. Mandou seus bibliotecários acondicionarem toda a valiosa biblioteca em caixas para serem transportadas ao Brasil. O que aconteceu foi que a pressa da partida em 1808, fez com que as caixas com todos os livros e documentos da biblioteca, ficassem esquecidas no cais do porto durante a apressada saída da corte portuguesa.

Porém, três anos depois D. João VI ordenou que novamente tudo fosse encaixotado e remetido ao Brasil e quem deveria acompanhar o tesouro era o jovem bibliotecário Luís Joaquin do Santos Marrocos, que é nosso protagonista da história. 

Marrocos vem contra sua vontade ao Brasil. Nos primeiros meses se comunica com o pai (e família), também bibliotecário em Lisboa, sempre denegrindo a imagem do Rio de Janeiro dizendo que que vinha de Lisboa desmaiava e esmorecia, pela cidade fétida e cheia de "pretos". Marrocos adoece logo em seguida e passa muito mal. Antes disso já tinha comprado um escravo que foi quem o ajudou a superar as enormes dificuldades de adaptação. 

Com o passar do tempo, Marrocos foi apresentado a uma família que veio de Portugal, mas os filhos eram brasileiros. Conheceu Ana por quem se apaixonou loucamente. Ana engravidou antes do casamento o que era uma desonra para toda a família. A história gira muito em cima deste episódio que modifica a vida de Marrocos e da família de Ana.

Aí vem passagens como uma escrava muda que revela um segredo de 200 anos, um escravo que se apaixona por quem não deveria, a família de Marrocos em Portugal que não aceita ele se casar com uma brasileira, a amizade de Marrocos com D. Pedro I, que o impede de regressar a Portugal, as aventuras amorosas de D. Pedro I e as providências de seu pai para esconder os escândalos. 

Cristina Norton
Enfim, a autora que a partir de uma profunda pesquisa nos arquivos das bibliotecas do Brasil e Portugal, analisou 186 cartas que Marrocos escrevia ao pai e cujas respostas foram mínimas a estas cartas gerando um grande e irrecuperável desgosto em Marrocos, nos traz este romance incrível, apaixonante e que resgata uma parte importante da história do Brasil.

Um livro super interessante que traz muitos fatos históricos tanto do Brasil como de Portugal e que também mostra o desassossego de pessoas, como do protagonista Marrocos, com a saída compulsória de Portugal. Mostra ainda a arrogância e a discriminação de alguns portugueses da época com o Brasil.

É uma leitura imperdível tanto para entretenimento como para relembrar fatos históricos do nosso Brasil colônia.

Boa leitura!!!

Professor Mario Mello


Se você se interessou pelo livro, pode adquiri-lo na Amazon, utilizando o link a seguir:
Amazon
Utilizando este link, você ajuda na manutenção do Blog.



sábado, 1 de junho de 2024

O LIVRO SUA MAJESTADE XCVIII - A VERGONHA

 Annie Ernaux (1940 - ) foi ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura em 2022, pelo conjunto da sua obra.

Trago aqui, minha visão sobre o terceiro livro que leio da premiada autora.

"A vergonha" trata de uma parte da vida de Annie. Retrata suas lembranças de quando tinha 12 anos.

É uma história de certa forma triste, pois na França dos anos 1950, 1960, as classes sociais eram bem distintas e Annie não era de uma classe social privilegiada.

"Toda a nossa existência se tornou sinal de vergonha. O mictório que ficava no pátio, o quarto compartilhado - no qual eu dormia com meus pais, devido à falta de espaço, os tapas e palavrões da minha mãe..." Assim, é parte da narrativa de Annie sobre sua vida à época.

Eles tinham um pequeno mercado na cidade de Y na região da Normandia, porém pouco lucrativo, pois as vendas "fiado" para famílias pobres, trazia problemas de sustentabilidade para o negócio.

A passagem mais forte no livro, segundo minha interpretação, é quando a autora descreve que num domingo de junho, no começo da tarde o pai tentou matar a mãe dela. Conta Annie, que após uma discussão dos dois, a mãe gritou por socorro e quando Annie chegou, viu o pai convulsivo e ofegante com uma foice na mão aos gritos que a mataria.

Com a chegada de Annie o fato não se consumou e não tocaram mais no assunto nos dias e anos seguidos. A cena nunca mais se repetiu e o pai de Annie, morreu justamente num domingo de junho, quinze anos depois.

A Annie de hoje
"Era normal sentir vergonha", escreve Annie, sentimento esse que a acompanharia para o resto da vida. A vergonha é uma obra profundamente introspectiva e reveladora, onde a autora explora as complexas emoções associadas à vergonha e ao trauma pessoal.

Outra passagem interessante do livro é parte onde a autora descreve a escola particular que frequentou até certo tempo. A forte influência religiosa na escola (era administrada por padres e freiras), a rigidez dos tratamentos, a segregação das alunas (mais ricas-menos ricas) até mesmo no pátio da escola. Tinha pátios diferentes para quem pagava mais pelo ensino. 

Com uma prosa crua e direta, Annie disseca suas próprias experiências e sentimentos, oferecendo ao leitor uma visão nua e honesta de como eventos passados moldam nossa identidade e nossa compreensão do mundo.

Enfim, "A vergonha" é uma leitura que convida os leitores a refletirem sobre as suas próprias vivências de vergonha e os impactos duradouros dessas emoções. O livro é um testemunho poderoso da capacidade da literatura de iluminar aspectos íntimos e universais da experiência humana, e da coragem necessária para entender verdades pessoais.

Repito o que escrevi em outra postagem sobre os livros de Annie: é uma "jóia".

Boa leitura!

Professor Mario Mello

Se você se interessou pelo livro, pode adquiri-lo na Amazon, utilizando o link a seguir:
Utilizando este link, você ajuda na manutenção do Blog.

quarta-feira, 22 de maio de 2024

O LIVRO SUA MAJESTADE XCVII - ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS

 Resolvi revisitar algumas fábulas como Alice no País das Maravilhas. Li este livro pela primeira vez há muitos anos atrás e não lembrava direito da história e dos personagens.

Lewis Carroll
A história escrita por Lewis Carroll (pseudônimo de Charles Lutwidge Dodgson, 1832-1898) foi publicada em 1865 e tornou-se uma das obras mais célebres da literatura "nonsense".

A menina Alice, da fábula, é uma "pessoa de verdade" chamada Alice Liddell (1852-1934) que conviveu com o escritor por vários anos de sua infância, pois Lewis Carroll era um reverendo anglicano britânico e professor de matemática. Além disso foi um excelente fotógrafo. Sua ligação com a família Liddell era muito próxima. Começou a despertar desconfiança na mãe de Alice, e houve então um rompimento das relações com a família. 

Até hoje pesquisadores da vida de Lewis Carroll, que tinha uma paixão platônica pela menina, não têm respostas para esta dúvida sobre a vida de Carroll.

Porém, como diz a tradutora da obra, Marcia Heloisa, sobre a vida de Carroll: "no terreno desconfortável da dúvida, entendi o que deveria fazer nesta introdução: deixar Dodgson, na sombra, lugar que ele sempre preferiu, e levar Alice para a luz."

Linda edição da Darkside
A história, cheia de personagens únicos que habitam um lugar peculiar, para onde Alice foi transportada após cair numa toca de coelho.

A trama é uma mistura de aventuras e desafios, onde Alice tenta navegar e entender as regras do País das Maravilhas, um lugar onde nada é o que parece.

Ao longo da narrativa, Alice encontra personagens icônicos como o Gato Risonho, a Lagarta Azul, o Chapeleiro Maluco, a Lebre de Março, o Coelho Branco, a Tartaruga de Mentira, a Rainha de Copas, entre outros.

Cada encontro com esses personagens é marcado por diálogos enigmáticos (característica do escritor que revela uma lógica do absurdo) e situações irracionais que desafiam a lógica e as convenções do mundo real.

Alice, a Lebre de Março e o Chapeleiro

Uma passagem interessante do Chapeleiro é que ele passava o tempo inteiro tomando chá (uma alusão aos britânicos). Só, que ele não lavava a louça, porque não tinha tempo, e então, ficava fazendo rodízio na mesa onde tinha xícaras limpas (dá para ver na figura ao lado várias xícaras posicionadas). Achei genial esta passagem.

Aliás, o livro é todo ilustrado para mostrar os bizarros personagens que conviveram com Alice. 

O capítulo que mais gostei, foi quando Alice entra no jardim da Rainha e encontra três jardineiros pintando rosas brancas com tinta vermelha. 

Chegando perto Alice presenciou o seguinte diálogo: "Preste atenção, Cinco! Está me sujando de tinta. Foi sem querer, pois o Sete me deu uma cotovelada. Sempre botando a culpa nos outros, disse Dois."

A Rainha, O Rei, O Valete e seus súditos eram cartas de um baralho. Por isso no diálogo anterior os personagens se chamavam pelos números. Outra "sacada" genial do autor.

Enfim, o livro é uma grande obra de difícil interpretação, pois tem dois livros em um só: um para crianças e outro para adultos.

Para as crianças, Alice no País das Maravilhas é uma aventura mágica, pois Alice percorre uma jornada repleta de personagens bizarros e cenários extraordinários, cheios de surpresas.

Para os adultos, o livro oferece uma certa profundidade, pois através do humor sutil, dos trocadilhos inteligentes, pode-se perceber as nuances filosóficas e psicológicas presentes na história. Outro ponto interessante é a subversão das normas e a natureza da realidade.

Alice quando criança
Falando um pouco da edição, o livro é belíssimo. 
Todo ilustrado para o leitor conhecer os personagens, além de trazer rascunhos do original escrito por Carroll. 
Tem também, muitas fotos da Alice, à época que o livro foi escrito. Muito interessante!!!
Essa edição da Editora Darkside é simplesmente encantadora.

É sem dúvida uma obra-prima atemporal da literatura.
Quem já leu há tempo, sugiro ler novamente.
Quem ainda não leu, não perca a oportunidade. 

Para finalizar deixo um só adjetivo para o livro:
"Enigmático"

Boa leitura!

Professor Mario Mello

Se você se interessou pelo livro, pode adquiri-lo na Amazon, utilizando o link a seguir:

Comprando pelo link, você ajuda na manutenção do Blog.

sábado, 13 de abril de 2024

O LIVRO SUA MAJESTADE XCVI - O MÁGICO DE OZ

 Simplesmente mágico!!!

Assim começo a descrever esta fábula que encanta gerações desde 1900.

Escrito por Lyman Frank Baum (1856-1919) "O Mágico de Oz" é uma história tão original, autêntica, bela, e traz a reflexão de que por mais que existam lugares fantásticos e reinos de faz de conta, "não há lugar melhor que nossa casa". 

Talvez esteja aqui o segredo para o sucesso contínuo deste clássico, que publicado há mais de um século, desafia o tempo e se mantém uma das histórias mais queridas e emblemáticas da literatura ocidental.

Os personagens Dorothy, o Espantalho, o Homem de Lata, o Leão Covarde, o Mágico de Oz, as bruxas e os curiosos outros personagens que aparecem durante a aventura, demonstram a genialidade de Frank Baum em descrever uma história tão marcante e tão incomum. 

A fábula "O Mágico de Oz", desempenha um papel vital na literatura, pois além de proporcionar entretenimento, traz também valiosas lições morais embaladas em narrativas envolventes.

Dorothy, Espantalho, Leão Covarde, Homem de Lata e Totó

A história conta a jornada de Dorothy, que teve sua casa do Kansas (EUA), com ela e seu cachorrinho Totó dentro, levada por um ciclone para uma terra distante e desconhecida cheia de novos e diferentes seres. Assim começa a jornada aventureira de Dorothy. 

Após sua casa, depois do ciclone, "pousar" nesta terra desconhecida, Dorothy sai a caminhar e encontra uns habitantes chamados Munchkin. Dorothy pede ajuda para voltar para sua casa no Kansas e eles dizem que só quem poderia ajudar era o Mágico de Oz. 

Na busca pela cidade do Mágico de Oz, Dorothy encontra o Espantalho preso em uma plantação. Para surpresa de Dorothy o Espantalho começa a falar com ela. Dorothy liberta o Espantalho e conta sua angústia para voltar à sua casa. Seguem juntos a caminhada em busca de Oz e encontram o Homem de Lata e depois o Leão Covarde.

Cada um desses persongens tem um motivo para ir em busca da cidade onde mora o Mágico de Oz, pois ele era a única pessoa que poderia ajudá-los.

Dorothy queria voltar para sua casa no Kansas, o Espantalho queria um cérebro, o Homem de Lata queria um coração e o Leão Covarde queria ter coragem para ser o rei dos animais. Dorothy é firme, segura e determinada, o que instintivamente a estabelece como líder do grupo.

Assim, os quatro mais o Totó, partiram na busca do Mágico de Oz. A história toda é nessa caminhada incrível, desafiadora, cheia de obstáculos e persongens bizarros. Bruxas, macacos alados, flores perfumadas tóxicas, feras horrendas, homens cabeça de martelo, árvores que com seus galhos prendiam os passantes, pântanos, rios profundos, muralhas gigantescas, cidade de porcelana onde tudo era "quebrável", entre outras tantas dificuldades. Todos personagens encontrados no caminho indicavam que Oz morava na Cidade de Esmeraldas.

Porém, nada detinha os quatro amigos que seguiram firme até......... não vou estragar a história.

Será que sobreviveram aos malvados seres encontrados ao longo do caminho? Será que encontraram o Mágico de Oz? Se encontraram o Mágico de Oz, seus desejos foram atendidos? 

Cidade de porcelana


Bem, além da história incrível e fascinante, a edição do livro, desde a capa e as gravuras internas é algo muito lindo e especial.

Sempre digo que o conteúdo sempre é o principal, mas uma bela forma potencializa e muito seu conteúdo. A coleção Fábulas Dark da editora DarkSide é simplesmente espetacular.

Bem, através da jornada de Dorothy e seus companheiros em busca do Mágico de Oz, somos levados a refletir sobre temas como coragem, amizade, determinação e autoconhecimento. Dorothy através de sua jornada na terra de Oz nos ensina sobre a importância de enfrentar desafios com determinação e compaixão, enquanto buscamos nossos próprios caminhos de autoconhecimento e crescimento.

Essas histórias, muitas vezes repletas de elementos fantásticos e mágicos, nos transportam para mundos de imaginação e possibilidade, proporcionando uma pausa bem-vinda das preocupações do dia a dia. Além disso, as fábulas oferecem uma linguagem acessível e uma estrutura narrativa simples, tornando-as acessíveis a leitores de todas as idades, enquanto ainda carregam profundidade e significado.

Assim, "O Mágico de Oz" reside não apenas na sua capacidade de entreter, mas também em sua habilidade de nos encantar e inspirar, deixando uma marca profunda em nossas mentes e corações.

Obrigado Frank Baum e obrigado Dorothy por eu poder dizer: é um dos melhores livros que já li.

Boa leitura!

Professor Mario Mello

Se você se interessou pelo livro, pode adquiri-lo na Amazon, utilizando o link a seguir:

Comprando pelo link, você ajuda na manutenção do Blog.


sábado, 9 de março de 2024

O LIVRO SUA MAJESTADE XCV - O JOVEM

 "Ao lado dele, minha memória parecia infinita. Essa espessura de tempo que nos separava era de uma grande delicadeza e dava mais intensidade ao presente."

Esse é o segundo livro de Annie Ernaux (1940 - ) que leio em poucos dias. Fiquei muito curioso com os livros de Annie, pois não é sem mérito que alguém ganha o Prêmio Nobel de Literatura, como Annie ganhou em 2022.

"O Jovem", escrito entre 1998 e 2000, publicado em 2022, reflete bem o traço característico de Annie que é dizer muito com poucas palavras. 

O livro conta o relacionamento que teve aos 54 anos com um estudante 30 anos mais novo.

Como diz Annie no livro: era um relacionamento de conveniência. O rapaz não gostava de trabalhar, em troca lhe dava prazer e possibilidade de viver experiências que nunca imaginaria repetir.

Estão presentes no livro, reflexões sobre o desejo feminino, o relacionamento entre pessoas de classes sociais diversas, a memória, o preconceito de algumas pessoas sobre o casal de idades bem diferentes e principalmente a passagem do tempo.


Annie Ernaux utiliza uma narrativa não linear, alternando entre lembranças e reflexões do presente, para reconstruir sua jornada como jovem mulher na França dos anos 1950 e 1960. 

Ela examina não apenas suas próprias experiências, mas também a sociedade e cultura da época, oferecendo uma perspectiva única sobre a juventude francesa daquele período.

Um dos aspectos mais marcantes do livro é a habilidade de Ernaux em capturar a essência da juventude, com suas ansiedades, paixões e sonhos. Ela aborda questões universais, como a busca pela identidade e o confronto com as expectativas sociais, de uma maneira que ressoa com leitores de diferentes origens e gerações.

O livro ainda traz na contracapa, manuscritos que dão mais uma característica ímpar ao exemplar lançado, aqui no Brasil, pela Editora Fósforo.

No geral, "O Jovem" é uma obra profundamente pessoal e universal ao mesmo tempo, que convida o leitor a refletir sobre sua própria juventude e os desafios que enfrentou ao longo do caminho.

Enfim, é uma "jóia".

Boa leitura!

Professor Mario Mello


Se você se interessou pelo livro, pode adquiri-lo na Amazon, utilizando o link a seguir:
Utilizando este link, você ajuda a manutenção do Blog.

Outro livro da mesma autora chamado: O acontecimento

sexta-feira, 8 de março de 2024

O LIVRO SUA MEJESTADE XCIV - O LUGAR



"O Lugar" é um livro escrito pela francesa Annie Ernaux (1940 - ) que a alçou a uma das mais importantes escritoras vivas da França.

Vencedor do Prêmio Renaudor em 1984, o livro se debruça sobre a vida do próprio pai, para investigar relações familiares e de classe.

Annie Ernaux foi ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura em 2022, pelo conjunto de sua obra.

Annie Ernaux - fonte: Google
Annie é uma das pioneiras do estilo autoficção, pois costuma escrever histórias autobiográficas, que fazem uma reflexão sobre os contextos sociais que ela viveu.

"O Lugar" é um livro de menos de 70 páginas, mas muito intenso e tenso. Ela conta a história de vida regida pela necessidade e não sob o ponto de vista artístico.

A história começa a poucos meses do século 20, em um vilarejo na região de Pays de Caux, interior da França.

O pai de Annie pertence a um mundo no qual o trabalho físico estabelece o valor das coisas, onde o afeto e a intelectualidade têm pouco espaço.

Trabalhando desde criança, depois em uma fábrica até montar seu próprio negócio um café mercearia, o pai sempre foi um homem rude, porém dedicado à família. Annie, por sua vez, foi crescendo e sonhando em ser professora. Isso foi afastando ela intelectualmente de seu pai.

O livro "O Lugar" é amplamente elogiado pela crítica e pelos leitores por sua narrativa envolvente e íntima. Annie Ernaux é conhecida por sua habilidade em explorar temas familiares e relacionamentos pessoais de uma maneira profunda e sensível. "O Lugar" não é exceção, oferecendo uma reflexão comovente sobre a influência do afeto paternal na vida da protagonista. A obra é elogiada por sua escrita delicada e pela capacidade de capturar as complexidades das relações familiares e as nuances da experiência humana.

Enfim, "O Lugar", para quem ainda nào leu nenhuma obra de Annie é um excelente começo para conhecer esta maneira única de escrever. Ela está sempre dentro da obra. Ela está presente do início ao fim.
Annie tem muita coagem em escrever desta forma, pois não abre espaço para sentimentalismo, no abismo que se formou entre ela e o pai, porém sem nunca ter sido dito nem por um, nem pelo outro.

É um livro fascinante!!!

Boa leitura.

Professor Mario Mello

Se você gostou do livro, pode adquiri-lo na Amazon, utilizando o link a seguir:
Utilizando este link, você ajuda na manutenção do Blog.

segunda-feira, 4 de março de 2024

O LIVRO SUA MAJESTADE XCIII - ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA

 Impactado!

É esse o adjetivo que começo o post, para descrever como me senti ao ler o livro.

É um livro intrigante e poderoso!

Após mergulhar nas páginas de "Ensaio sobre a Cegueira", de José Saramago (1922-2010), me vi profundamente envolvido em um mundo de reflexões perturbadoras e inquietantes.

José Saramago

A narrativa visceral e a escrita magistral do autor levam a uma jornada emocional intensa, na qual se confrontou com a fragilidade da condição humana e a escuridão que pode residir dentro de cada um de nós.

Cada palavra pareceu ecoar como um grito de alerta para a complexidade das relações sociais, a falta de empatia e as consequências devastadoras da negação da humanidade. A experiência da leitura foi tão marcante que deixou reflexões profundas sobre a natureza da existência e o valor da compaixão.
Ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 1998, Saramago é considerado a maior expressão da literatura portuguesa contemporânea.

"Ensaio sobre a Cegueira" é um livro tão impactante por vários motivos, mas também, como disse Saramago quando ainda escrevia o livro: "decidi que não haverá nomes próprios no Ensaio, ninguém se chamará Antonio ou Maria, Laura ou Francisco, Joaquim ou Joaquina. Estou consciente da enorme dificuldade que será conduzir uma narração sem a habitual, e até certo ponto inevitável, muleta dos nomes, mas justamente o que não quero e ter de levar pelas mãos estas sombras a que chamamos personagens, inventar-lhes vidas e preparar-lhes destinos."
Essa edição mantém a grafia vigente em Portugal


E assim foi. Os protagonistas do livro são: o médico, a mulher do médico, o primeiro cego, a mulher do primeiro cego, a rapariga dos óculos escuros, o rapazinho estrábico e o velho da venda preta.

A história começa quando um homem a dirigir seu veículo e parado em um semáforo, perde completamente a visão. Vai consultar com o médico oftalmologista que horas depois também perde a visão. A partir daí desencadeia uma onda de cegueira por toda a cidade.

Esses cegos são colocados, pelo governo, em um manicômio abandonado, para proteger a população da contaminação. Vigiados à mão forte, não podendo sob hipótese nenhuma sair dali e, cada vez chegando mais e mais cegos, tornando o ambiente um caos.
Sem nenhuma ajuda de outras pessoas, sem condições mínimas de higiene, com um mínimo de comida, a condição humana chega a um nível de degradação descomunal.
Com a chegada de mais cegos, uma gang do mal se instala no manicômio e só faz o tormento e a degradação humana aumentar.

A cegueira branca como é contada no livro, devora, mais do que absorve, não só as cores, mas as próprias coisas e seres.

Enfim, o livro é uma imensidão de sentimentos profundos, que nos leva a refletir, neste momento, que grande parte do mundo se assombra e se cega.

Diz Saramago: "mas já estamos todos cegos".

Boa leitura!

Professor Mario Mello


Se você se interessou pelo livro, pode adquiri-lo na Amazon, utilizando o link a seguir
Utilizando este link, você ajuda na manutenção do Blog.