sexta-feira, 8 de março de 2024

O LIVRO SUA MEJESTADE XCIV - O LUGAR



"O Lugar" é um livro escrito pela francesa Annie Ernaux (1940 - ) que a alçou a uma das mais importantes escritoras vivas da França.

Vencedor do Prêmio Renaudor em 1984, o livro se debruça sobre a vida do próprio pai, para investigar relações familiares e de classe.

Annie Ernaux foi ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura em 2022, pelo conjunto de sua obra.

Annie Ernaux - fonte: Google
Annie é uma das pioneiras do estilo autoficção, pois costuma escrever histórias autobiográficas, que fazem uma reflexão sobre os contextos sociais que ela viveu.

"O Lugar" é um livro de menos de 70 páginas, mas muito intenso e tenso. Ela conta a história de vida regida pela necessidade e não sob o ponto de vista artístico.

A história começa a poucos meses do século 20, em um vilarejo na região de Pays de Caux, interior da França.

O pai de Annie pertence a um mundo no qual o trabalho físico estabelece o valor das coisas, onde o afeto e a intelectualidade têm pouco espaço.

Trabalhando desde criança, depois em uma fábrica até montar seu próprio negócio um café mercearia, o pai sempre foi um homem rude, porém dedicado à família. Annie, por sua vez, foi crescendo e sonhando em ser professora. Isso foi afastando ela intelectualmente de seu pai.

O livro "O Lugar" é amplamente elogiado pela crítica e pelos leitores por sua narrativa envolvente e íntima. Annie Ernaux é conhecida por sua habilidade em explorar temas familiares e relacionamentos pessoais de uma maneira profunda e sensível. "O Lugar" não é exceção, oferecendo uma reflexão comovente sobre a influência do afeto paternal na vida da protagonista. A obra é elogiada por sua escrita delicada e pela capacidade de capturar as complexidades das relações familiares e as nuances da experiência humana.

Enfim, "O Lugar", para quem ainda nào leu nenhuma obra de Annie é um excelente começo para conhecer esta maneira única de escrever. Ela está sempre dentro da obra. Ela está presente do início ao fim.
Annie tem muita coagem em escrever desta forma, pois não abre espaço para sentimentalismo, no abismo que se formou entre ela e o pai, porém sem nunca ter sido dito nem por um, nem pelo outro.

É um livro fascinante!!!

Boa leitura.

Professor Mario Mello

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segunda-feira, 4 de março de 2024

O LIVRO SUA MAJESTADE XCIII - ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA

 Impactado!

É esse o adjetivo que começo o post, para descrever como me senti ao ler o livro.

É um livro intrigante e poderoso!

Após mergulhar nas páginas de "Ensaio sobre a Cegueira", de José Saramago (1922-2010), me vi profundamente envolvido em um mundo de reflexões perturbadoras e inquietantes.

José Saramago

A narrativa visceral e a escrita magistral do autor levam a uma jornada emocional intensa, na qual se confrontou com a fragilidade da condição humana e a escuridão que pode residir dentro de cada um de nós.

Cada palavra pareceu ecoar como um grito de alerta para a complexidade das relações sociais, a falta de empatia e as consequências devastadoras da negação da humanidade. A experiência da leitura foi tão marcante que deixou reflexões profundas sobre a natureza da existência e o valor da compaixão.
Ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 1998, Saramago é considerado a maior expressão da literatura portuguesa contemporânea.

"Ensaio sobre a Cegueira" é um livro tão impactante por vários motivos, mas também, como disse Saramago quando ainda escrevia o livro: "decidi que não haverá nomes próprios no Ensaio, ninguém se chamará Antonio ou Maria, Laura ou Francisco, Joaquim ou Joaquina. Estou consciente da enorme dificuldade que será conduzir uma narração sem a habitual, e até certo ponto inevitável, muleta dos nomes, mas justamente o que não quero e ter de levar pelas mãos estas sombras a que chamamos personagens, inventar-lhes vidas e preparar-lhes destinos."
Essa edição mantém a grafia vigente em Portugal


E assim foi. Os protagonistas do livro são: o médico, a mulher do médico, o primeiro cego, a mulher do primeiro cego, a rapariga dos óculos escuros, o rapazinho estrábico e o velho da venda preta.

A história começa quando um homem a dirigir seu veículo e parado em um semáforo, perde completamente a visão. Vai consultar com o médico oftalmologista que horas depois também perde a visão. A partir daí desencadeia uma onda de cegueira por toda a cidade.

Esses cegos são colocados, pelo governo, em um manicômio abandonado, para proteger a população da contaminação. Vigiados à mão forte, não podendo sob hipótese nenhuma sair dali e, cada vez chegando mais e mais cegos, tornando o ambiente um caos.
Sem nenhuma ajuda de outras pessoas, sem condições mínimas de higiene, com um mínimo de comida, a condição humana chega a um nível de degradação descomunal.
Com a chegada de mais cegos, uma gang do mal se instala no manicômio e só faz o tormento e a degradação humana aumentar.

A cegueira branca como é contada no livro, devora, mais do que absorve, não só as cores, mas as próprias coisas e seres.

Enfim, o livro é uma imensidão de sentimentos profundos, que nos leva a refletir, neste momento, que grande parte do mundo se assombra e se cega.

Diz Saramago: "mas já estamos todos cegos".

Boa leitura!

Professor Mario Mello


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sábado, 27 de janeiro de 2024

O LIVRO SUA MAJESTADE XCII - É A ALES

Jon Fosse

 Jon Fosse (1959 - ) é um renomado autor norueguês, conhecido por suas obras teatrais e literárias, muitas vezes explorando temas existenciais e psicológicos. Ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 2023, Jon Fosse, conseguiu como poucos criar uma forma literária própria.

Neste livro chamado "É a Ales" o texto é único sem pontuação (pontos), apenas algumas vírgulas, o que torna a leitura bem diferente das frases normais. É bem divertido!!! É bem desafiador, também!!!

O livro retrata a história de um homem, Asle, que sai com um barco pelos Fiordes Noruegueses, para nunca mais voltar e de uma mulher, Signe, que permanece à sua espera. Além disso relata marcas indeléveis que unem cinco gerações de uma família.


Numa quinta-feira, de março de 2002, Signe está deitada em um banco de sua casa e tem uma visão de si mesma há mais de vinte anos: parada na janela, esperando por seu marido Asle, no fatídico dia no fim de novembro de 1979, quando ele saiu em um barco e nunca mais foi encontrado.

A trama se amplia para incluir até os laços familiares que remontam à trisavó de Asle, Ales.

Com uma prosa hipnótica (frases sem ponto final) e alucinante, o autor constrói um mundo em que todos esses momentos das gerações habitam o mesmo espaço, pois moravam na mesma casa.

As vozes e as narrativas de Jon Fosse, entre as várias gerações se interrompem e interferem umas nas outras. Impressionante!!!!

É uma leitura distinta e diferenciada daquilo que estamos acostumados a ler.

"É a Ales" é uma obra-prima visionária. É comovente ver a espera de Signe, pelo marido que nunca volta.

Além disso a nossa relação com o passado que é inescapável. Ainda mais quando várias gerações habitaram a mesma casa.

Fiorde Norueguês

Toda a história se passa num vilarejo próximo a um Fiorde. O autor consegue remeter o leitor, através da imaginação, das belas paisagens dos Fiordes.

Enfim, é um livro profundo que nos remete a pensar em nossos antepassados, nos remete a pensar no amor, nos remete a pensar na ausência de alguém querido, nos remete a pensar na noção de tempo e outras tantas reflexões.

Um escritor/autor, como Jon Fosse, que ganha um Nobel de Literatura, não é por acaso.

Particularmente esta obra é simplesmente genial. A leitura de "É a Ales" é uma experiência extraordinária.

PS: Não posso deixar de mencionar minha querida sobrinha Carolina Cervo pelo (segundo) presente de Natal/2023. É sua marca registrada me presentear com livros (sempre fantásticos).

Professor Mario Mello



segunda-feira, 15 de janeiro de 2024

O LIVRO SUA MAJESTADE XCI - O JARDIM SECRETO

 Começo meu texto com uma obviedade:

"Um clássico é um clássico"

O Jardim Secreto, escrito em 1911, pela escritora inglesa Frances Hodgson Burnett (1849-1924), é daqueles livros imperdíveis. De leitura fácil e singela, o Jardim Secreto, deixa muitas mensagens para reflexão.

Atravessou décadas e décadas chamando atenção dos leitores pela seu encanto de uma história doce e delicada, sobre o poder transformador da magia, da natureza e da amizade.

A história começa na India onde a protagonista uma menina de apenas 10 anos, Mary Lennox, perde a mãe e o pai, num surto de cólera. Mary não sente a morte dos pais, pois eles sempre delegaram a criação dela aos empregados/criados da casa. Por isso, Mary era uma menina malcriada, rabugenta, desaforada, mandona e tinha o apelido de "Mary do Contra". A menina era magra, feia, quase raquítica.

Seu único parente é um tio milionário e misterioso que mora em um castelo de 100 cômodos em Yorkshire, no interior da Inglaterra. Mary é, então, enviada para morar com seu tio, Archibald Craven, que designa a Sra. Medlock para vigiar a menina.

O tio de Mary havia perdido a esposa hà dez anos. Desde então se tornou uma pessoa amarga e difícil de conviver. Passava maior parte do tempo viajando, sem estar no castelo. A tia de Mary, que morreu, era uma pessoa querida por todos  e tinha um jardim onde ela cultivava suas e flores e arbustos. Desde a sua morte o tio de Mary, proibiu a todos que entrassem no jardim, cuja porta foi trancada e a chave enterrada. Quando Mary soube da história, ficou enlouquecida para descobrir onde era o jardim. Daí o nome de Jardim Secreto.

Pois bem, aí começa o protagonismo de Mary, fazendo outras descobertas no castelo de 100 cômodos, enlouquecendo a Sra. Medlock. A partir de um curto espaço de tempo, Mary descobre outro personagem no castelo (não vou contar quem é para não estragar a leitura) e a história toma outro rumo, com Mary dividindo o protagonismo da história com ele.

Há tantas passagens lindas na história, onde a natureza tem papel destacado, mostrando a magia que ela (natureza) proporciona para as pessoas. As histórias mais mágicas são capazes de atravessas as barreiras do tempo, pois transmitem lições de vida, independente de sua época. O Jardim Secreto tem mais de 110 anos e continua encantado leitores de várias gerações. 

O poder de transformação que uma criança de 10 anos proporcionou em várias pessoas, é comovente. Lindo!!!!

O livro aborda temas como a importância da natureza, a cura através do contato com o mundo ao ar livre, e a transformação pessoal através da amizade. Além disso, explora a ideia de que, ao cultivar e nutrir algo, seja um jardim ou uma amizade, as pessoas podem encontrar cura e felicidade.

A narrativa encantadora e as lições atemporais sobre crescimento, amizade a a importância do meio ambiente, garantem que o livro permaneça cativante e relevante, para leitores de todas as idades.

Por fim, não poderia deixar de falar da belíssima edição da Darkside. É uma edição linda com várias ilustrações, as folhas com a borda verde, a capa especial, ou seja, é mais prazeroso ainda, ler uma bela história em um livro bonito. Um show!!!!

Vale muito a leitura do Jardim Secreto.

Finalizo dizendo: "Um clássico é um clássico".

Professor Mario Mello 


terça-feira, 9 de janeiro de 2024

O LIVRO SUA MAJESTADE XC - AS CIDADES INVISÍVEIS

 Italo Calvino (1923-1985), cubano de nascimento mas italiano de criação, pois foi à Itália com poucos dias de vida, consegue magistralmente escrever um livro, tal qual seu título. Sou muito fã do Italo Calvino. Quem acompanha o Blog encontrará textos sobre outros livros dele: O cavaleiro inexistente; O Barão nas árvores; O Visconde partido ao meio.

Italo Calvino

O livro trata de parte da vida de Marco Polo, o famoso viajante veneziano, que descreve para Kublai Kahn (1215-1294), a quem serviu durante muitos anos, as incontáveis cidades do imenso império do conquistador Mongol. O Império Mongol foi de 1260 a 1294.

É impressionante como a cada página, a cada nova cidade elas parecem invisíveis. Assim que Kublai Kahn percebia.

Quem conhece o livro As mil e uma noites, deve
lembrar que a protagonista Scherazade contava, todas as noites, uma história diferente ao Sultão. Isso foi por mil e uma noites de histórias magníficas que encantavam o Sultão.


Assim, Marco Polo, a cada viagem que fazia, em seu retorno, contava para Kublai Kahn o que encontrara em cada cidade. Por exemplo, em Eudóxia, com vielas tortuosas, escadas, becos, casebres, conserva-se um tapete no qual se pode contemplar a verdadeira forma da cidade. Muitos profetas, tinham certeza que o harmônico desenho do tapete era de feitura divina.

Outra cidade chamada Armila era feia, demolida, inacabada. Não havia paredes, telhados nem pavimentos. Diz a lenda que existia um feitiço para que ela fosse assim.

E assim, a cada viagem, Marco Polo trazia esses relatos ao Kahn. Lendo esses pequenos trechos não parece mesmo Cidades Invisíveis?

Pois é assim durante todo o livro. As cidades são complexas, cada uma com uma abordagem e características diferentes. É uma tensão entre a racionalidade geométrica e o emaranhado das existências humanas.

A leitura do livro é muito divertida, mas o autor alerta: "é preciso, para o maior prazer da leitura, que não se deve devorar As cidades Invisíveis, com a avidez de querer saber o que vai acontecer depois, mas saborear lentamente cada texto em si mesmo."

Desta forma, nenhum spoiler para o final do livro, apenas "saboreie" as histórias das cidades invisíveis. 

Para mim, foram invisíveis até serem descritas por Marco Polo, pois a partir daí a imaginação ganha força e parece que se tornam visíveis pelas magníficas descrições.

É o primeiro livro que leio em 2024, presente de Natal/23 da minha querida sobrinha Carolina Cervo. 😍

Boa leitura!!!

Professor Mario Mello

sexta-feira, 29 de dezembro de 2023

O LIVRO SUA MAJESTADE LXXXIX - SHACKLETON, UMA LIÇÃO DE CORAGEM

 Sir Ernest Shackleton (1874-1922) foi um explorador polar do início do século 20, conhecido por suas expedições à Antártida.

Sua fama cresceu devido à notável liderança e coragem durante a expedição do navio Endurance, quando enfrentou condições extremas para salvar sua equipe após o naufrágio.

Sua habilidade em manter a calma e proteger sua equipe o tornou um ícone de liderança e resiliência.

"Shackleton: Uma Lição de Coragem" é um livro escrito por Margot Morrell e Stephanie Capparell.

Ele narra a história do explorador polar Sir Ernest Shackleton e sua notável expedição à Antártida a bordo do navio Endurance.

O livro destaca a extraordinária liderança de Shackleton e sua capacidade de superar desafios extremos para salvar sua equipe após o naufrágio do navio. Ele oferece valiosas lições sobre resiliência, trabalho em equipe e liderança diante de adversidades. A história é repleta de personagens cativantes e desafios impossíveis, para ilustrar como um grande líder pode moldar o destino de sua equipe.

Endurance sendo esmagado pelo gelo
A expedição de Shackleton à Antártida em 1914, a bordo do navio Endurance, tinha tudo para se transformar em tragédia. No entanto, ao conduzir todos os seus tripulantes em segurança para casa, ele se tornou um exemplo de liderança.

O navio Endurance ficou preso no gelo e em poucas semanas foi esmagado. Começa, assim, o martírio da tripulação, pois o inverno se aproximava. Shackleton consegue com suas amplas qualidades de líder, manter a tripulação ativas e confiante que regressariam para casa. Após sete meses presos, nas baixas temperaturas do inverno, Shackleton e mais alguns homens partem em busca de socorro para os demais companheiros. Algumas semanas depois, eles voltam e resgatam todos os demais tripulantes.

Esse é um dos livros que consegue ser de aventura (com as reais expedições), mas também um livro atemporal pelas inúmeras lições deixadas por este homem, que de tempos em tempos, volta a chamar a atenção pela extrema capacidade de liderança.

Shackleton
O legado de Shackleton foi seu exemplo de como perseverar contra adversidades aparentemente insuperáveis. Talvez a dimensão mais importante de um líder seja definida pela contínua relevância de sua estatura no decorrer do tempo. O legado de Shackleton não apenas perdurou, como se ampliou consideravelmente.

Mais de um século depois, as lições de Shackleton seguem inspirando líderes modernos na busca de saídas criativas e eficazes em tempos cada vez mais voláteis. O livro traz lições de como contratar e organizar uma equipe; como formar uma equipe unida e leal; como desenvolver os talentos individuais; como liderar um grupo através de crises. Enfim, é um livro espetacular que merece a leitura de cada frase de de cada página.
Disse Shackleton: "Existem várias coisas boas no mundo, mas tenho a impressão de que a camaradagem é a melhor de todas - saber que podemos fazer algo de grande por um companheiro".

Este livro, é sem dúvida, um dos melhores que já li. Regalo do meu filho Arthur, também, como já escrevi em algumas outras postagens, ele tem uma "magia" em descobrir grandes obras que me encanta. Esta é mais uma das suas descobertas, dentre os milhões de livros que existem.

Recomendo muito, sua leitura.

Professor Mario Mello

sábado, 10 de junho de 2023

O LIVRO SUA MAJESTADE LXXXVIII - POR QUE ÉTICA É MAIS IMPORTANTE DO QUE RELIGIÃO

 O mundo vive uma época marcada por conflitos.

Países invadem outros países para aumentar suas fronteiras; a desigualdade econômica e social impede a harmonia; a religião tem gerado violência há séculos; a intolerância destrói amizades e famílias; conflitos ambientais onde a escassez de recursos naturais se intensifica; a guerra cibernética entre nações ameaça a estabilidade global, são alguns dos conflitos que são interligados e que a humanidade enfrenta.

E então, como seguir em frente?

Livro da Dalai Lama
O Dalai Lama afirma que todos temos a semente da paz, dentro de nós e com uma nova ética, podemos formar um mundo melhor.

Sua santidade, o décimo quarto Dalai Lama, Tenzin Gyatso, é o líder espiritual do povo do Tibete e do budismo tibetano. Ele ganhou o prêmio Nobel da Paz em 1989. Hoje, vive exilado em Dharamsala, na India.

Neste livro Dalai Lama faz um apelo ao mundo, para que as pessoas abracem a ética, pois ela é mais profunda e mais natural do que a religião.

O livro traz profundas reflexões sobre a paz, sobre a espiritualidade, sobre a religião, sobre a neurociência, sobre a compaixão, entre outros temas importantes para a humanidade.

Entre as reflexões do livro, escolhi uma que considero entre as mais importantes: A EDUCAÇÃO DO CORAÇÃO.

Não faz muito tempo que sua santidade disse: "espero e desejo que um dia a educação formal preste atenção ao que eu chamo de educação do coração". 

Mas o que é a educação do coração?

Essa educação é necessária do jardim da infância ao ensino médio e universidades. Ela trata de reforçar valores como o amor, justiça, perdão, cuidado, tolerância e paz.

Esse é um aprendizado social, emocional e ético. São necessárias iniciativas para educar coração e mente nessa era moderna. No momento, nossos sistemas educacionais são orientados principalmente para os valores materiais.

Como professor universitário, em um Centro de Tecnologia, me identifico e pratico em minhas aulas a educação do coração. Tenho dito para meus alunos das engenharias, que os diplomas por eles conquistados, são exatamente iguais. Todos alunos da Engenharia Química saem da universidade graduados em Engenharia Química - com o mesmo diploma. Assim, igualmente para os alunos da Engenharia de Produção, para os alunos da Engenharia Elétrica, entre outras.

Mas então, o que os diferencia?

O que os diferencia é o "ser" e não o "ter". Até ler este livro, não usava a expressão da "educação do coração". A partir de então incorporei a expressão, por realmente acreditar nisso. Assim, uso o sistema educacional do qual participo para não educar apenas o cérebro, mas também o coração.

As gerações jovens têm o grande potencial e responsabilidade de garantir que o mundo se torne um lugar mais pacífico para todos. As religiões não são mais suficientes. A ética é necessária, pois o verdadeiro sentido de nossa vida, que todos buscamos, é ser feliz.

Assim, vale muito a leitura deste livro que traz profundas reflexões sobre os comportamentos da humanidade.

PS: Sei que o Dalai Lama cometeu alguns equívocos nos últimos tempos, sendo alvo de algumas investigações. Embora o Dalai Lama seja um líder espiritual reverenciado e respeitado por muitas pessoas em todo mundo, ele também é um ser humano sujeito a erros e falhas como qualquer pessoa.

Escrevo este post com absoluta tranquilidade de que ele, pode sim, provocar reflexões, assim como o livro.


Professor Mario Mello