sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

O LIVRO SUA MAJESTADE CXXI (121) - SUL DA FRONTEIRA, OESTE DO SOL

 Após já ter lido 2 livros do Haruki Murakami ("Sono" e "Do que eu falo quando falo de corrida") resolvi seguir lendo este renomado autor.

Como estou de férias escolares, tem sobrado mais tempo para a leitura. Fui buscar então, por indicação do meu filho Arthur, "Sul da fronteira, oeste do sol". Esta é uma das obras mais aclamadas de Murakami. O nome do livro foi baseado na música de Nat King Cole chamada "South of the border"

É um livro que considero um dos melhores que já li. 

O The New York Times, fez o seguinte comentário: "um mergulho na fragilidade humana, nas armadilhas da obsessão e no enigma impenetrável e sensual que o outro representa". É bem isso: um enigma impenetrável.

O protagonista Hajime, filho único de uma família tradicional de uma província do Japão, faz uma amizade na infância com uma menina também filha única, chamada Shimamoto. A afinidade deles por música e literatura os aproxima muito fortemente. Estudando no mesmo colégio estão sempre juntos. Se tornaram grandes amigos.

Uma particularidade da história que gostei muito é de que Shimamoto tinha em casa dezenas de discos de vinil e todas as tardes os dois escutavam vários discos. Outro traço característico de Murakami é o esporte. Hajime nadava todos os dias para se manter em forma.

Pois bem, o tempo passou Hajime trocou de colégio e o afastamento dos dois foi ocorrendo naturalmente. Hajime mudou-se para Tóquio e nunca mais encontrou com Shimamoto, porém nunca a esquecera.

Muitos anos depois, Hajime com a vida bem estabelecida, pois se casou com uma bela jovem Yukiko, e se tornou proprietário de dois bares em Tóquio que lhe davam uma excelente renda e estabilidade. Era muito feliz com Yukiko e suas duas filhas além de fazer o que gostava, administrando os bares que eram chamados de Clube de Jazz, pois tinha músicos tocando jazz a noite toda. Eles tinham casa de campo, uma BMW que era símbolo de gente endinheirada, o pai de Yukiko era um empresário de sucesso. Enfim, uma boa vida.

Porém, um belo dia Hajime imaginou ter visto na rua Shimamoto. Shimamoto tinha um pequeno problema na perna esquerda que fazia ela caminhar com certa dificuldade e que a tornava quase que única. Hajime a seguiu mas ficou com medo de abordá-la, pois não certeza de que era ela, e assim ela sumiu. Isso reacendeu nele lembranças que já haviam ficado para trás.

Hajime ficava até tarde da noite em seus bares e Shimamoto não lhe saía da cabeça. Até que um dia, chuvoso, apareceu uma linda mulher no bar. Ele estava sentado à frente do balcão tomando um drink e a mulher sentou-se a seu lado e pediu para acender um cigarro. Era Shimamoto. Shimamoto tem uma beleza de tirar o fôlego. A partir daí Hajime não consegue mais permanecer em seu cotidiano de estabilidade com o qual se acostumou. Shimamoto estabeleceu uma condição para seguir visitando Hajime: ele não devia fazer nenhuma pergunta a ela em relação ao passado. Ficou claro para Hajime que Shimamoto tinha um segredo de vida. No fim do livro este segredo aparece (óbvio que não vou contar aqui).

E assim, passaram-se meses. Shimamoto aparecia e sumia, enlouquecendo Hajime. Lógico que Yukiko desconfiou da mudança em Hajime.

Um belo dia, Shimamoto pediu a Hajime para levá-la a outra cidade, pois ela tinha uma missão a cumprir. A cidade deveria ter um rio que desembocasse no mar. Na cidade onde Hajime tinha a casa de campo, tinha um rio perto. Eles foram. E aí vem toda a surpresa da história e o mistério de Shimamoto.

Haruki Murakami (1949 - )

É um final surpreendente, emocionante e enigmático. É cheio de significados e de reflexões sobre nossa vida. 

O que queremos dela? 

Como disse antes, foi um dos melhores livros que li, pois traz uma história realista e de muito significado.

Vale muito a leitura!!! Eu diria: imperdível.

Professor Mario Mello


sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

O LIVRO SUA MAJESTADE CXX (120) - DO QUE EU FALO QUANDO EU FALO DE CORRIDA

 Haruki Muramaki é considerado um dos mais importantes autores da atual literatura japonesa. Nasceu em Kyoto no Japão em 1949 e suas obras já foram traduzidas para 50 idiomas.

Haruki Murakami
Murakami foi (é) corredor de maratonas e atleta de triatlo e esse livro chamado "Do que eu falo quando eu falo de corrida" é um livro diferente de Murakami. Nele o escritor fala sobre sua experiência como corredor de longas distâncias - com os treinos duros, a força de vontade, a tentativa de superar as próprias marcas - e como a atividade física influencia sua vida e sua obra.

O livro trata do momento-chave que ele decidiu se tornar escritor, suas vitórias e seus desapontamentos, sua paixão por LPs e seu ritual para escrever e correr. Murakami foi dono de uma bar e em determinado momento resolveu escrever romance. Como dono de bar, dormia tarde e acordava tarde. Uma vida diferente da que ele imaginava para si e sua esposa. Escreveu seus dois primeiros romances (ou novelas como ele mesmo diz) nas madrugadas na mesa da cozinha do bar. 

Assim que vendeu o bar, começou a correr e não parou mais. Cada dia corria um pouco mais. Num trecho do livro, diz Murakami: "As pessoas às vezes zombam de quem corre todo dia, alegando que é uma tentativa desesperada de viver mais. Mas não acho que este seja o motivo pela qual a maioria corre. A maioria dos corredores corre não porque queira viver mais, mas porque quer viver a vida ao máximo."

O livro é dividido em 9 histórias contadas a partir de suas experiências com as maratonas e triatlos que foi participando. Uma passagem interessante é ele ter percorrido, na Grécia, o caminho da Maratona.

Lembrando que este nome Maratona vem da Grécia antiga quando um soldado correu da cidade de Maratona até Atenas para anunciar a vitória do exército Ateniense sobre os Persas. A distância oficial é de 42,195 km e diz a lenda que após completar o percurso o soldado morreu de exaustão.

Pois bem, Murakami se desafiou e fez o percurso dos 42,195 km na Grécia, só que ao contrário. Saiu de Atenas até Maratona. Ele correu sozinho no verão de Atenas com um calor inacreditável, segundo Murakami. Ele nunca tinha corrido mais que 35 km e a partir desse km ele começou a sentir muito. Sua energia estava batendo no fundo, mas a determinação e persistência o levou até o final, até o monumento de Maratona.

O livro todo traz boas reflexões sobre decidir e fazer as coisas. Não para os outros, mas para você. Diz Murakami: "A barreira que divide a confiança salutar do orgulho prejudicial é muito fina."

Murakami conta que correr uma maratona durante os meses frios e participar de um triatlo durante o verão se tornou o ciclo de sua vida. Isso lhe trouxe imensa felicidade, pois correr por 25 anos (até a escrita do livro em 2007) traz um monte de boas lembranças.

Murakami em suas corridas diárias

Ele ficou 10 anos pensando em escrever um livro sobre corridas, pois ele achava que "correr" é meio que um tema vago. Porém decidiu que deveria apenas escrever honestamente sobre o que pensava e sentia sobre correr.

O livro revela lições pessoais que o autor aprendeu colocando seu corpo efetivamente em movimento, descobrindo assim, que sofrer é opcional, pois um corredor de elite disse a ele certa vez: 

"A dor nas maratonas é inevitável. Sofrer é opcional. Suportar a dor é algo que cabe ao corredor."


Enfim, gostei muito do livro. Descoberto pelo meu filho Arthur (já escrevi aqui que ele tem um dom especial em descobrir excelentes livros) que também gosta de correr, o livro é bem-humorado e ao mesmo tempo sensível. 

É tanto boa leitura quanto incentivo para treino de corrida. É um livro de valor.

Professor Mario Mello

sábado, 3 de janeiro de 2026

O LIVRO SUA MAJESTADE CXIX (119) - LA CONQUISTA DE LA SOLEDAD

 Começo o ano de 2026 lendo um livro em espanhol.  Faz parte dos meus desafios como leitor e aprendiz, ler ao longo do ano alguns livros em espanhol.

O livro que trago hoje é de um autor uruguaio, Juan José Morosoli (1899 - 1957), chamado "La Conquista de la Soledad". É um livro de contos escolhidos do autor e publicado após sua morte. 

Morosoli, considerado autodidata, pois estudou somente até a segunda série, é considerado pela crítica literária do Uruguai como um dos principais "cronista de almas". É um escritor que parecia com seus personagens.

Os contos tratam da vida simples e de gente simples do interior do Uruguai. Uma marca registrada em praticamente todos os contos, é a solidão dos personagens. 

Morosoli nasceu, se criou e morreu na mesma cidade uruguaia de Minas. Isso certamente influenciou sua escrita simples e de personagens reais e interioranos.

A prosa de Morosoli, quase sempre de aspecto duro e afiado, também guarda momentos de intensa beleza e franqueza com que o autor envolve seus personagens.

Contos como "Un gaucho" conta a história de um rapaz que não conseguia parar em lugar nenhum, em serviço nenhum. O protagonista Montes dizia: "Mi pago (local) es donde yo ando".

Na última fazenda que trabalhou teve uma filha com uma empregada do local, mas nem isso fez Montes permanecer. Assim como chegou um dia, se foi em outro. Anos depois, foi visto no Chuy (fronteira com o Brasil) fazendo contrabandos. E, assim era Montes. Sem paradeiro. Até que um dia, num cortejo um moço viajante se aproximou e perguntou: é Montes? Sim confirmaram alguns. Você o conhecia? Não - disse o moço viajante - mas era meu pai.

Outro conto interessante é "El campo". Tem dois protagonistas: como diz no conto "el negro Sabino" e su patrón Correa.

Tudo mundo sabia como vivia Correa. Toda "plata" que caía em suas mãos era guardada para comprar novas terras. Correa já possuía uma interminável fazenda, mas sempre queria mais.

Um dia faleceu um vizinho Antúnez que deixara a mulher e duas filhas pequenas, com dívidas e desamparadas. Correa sem pena delas foi lá e comprou mais terras para seu deleite. E assim, foi passando o tempo. Correa não gastava dinheiro em nada. Seus mantimentos quando precisavam ser comprados era sempre em troca de alguma coisa que a fazenda produzia. Sabino era encarregado das compras. Até que um dia Correa não fazia mais trocas e começou a ficar devendo no armazém.

Correa era sozinho. Só habitavam a fazenda ele e Sabino. A doença chegou para Correa. Um dia Sabino encontrou o patão nu na porta olhando para a imensidão das terra. Foi só aí que Sabino percebeu como ela estava magro, sem músculos e com o ventre saltado. "Patrón, vaya pa dentro". Porém o patrão parecia nem ouvi-lo e nem vê-lo. Pareceu para Sabino pareceu que ele tinha olhos de vidro com reflexos para todos os lados, como se estivessem quebrados por dentro. Assim, o patrão morreu.

Tá, mas o que aconteceu depois com as terras e o negro Sabino? Essa é outra característica dos contos de Morosoli: o leitor é livre para imaginar a sequência a partir de um fato determinante.

Enfim, o livro traz 16 contos todos com muita perspicácia e com muita realidade. Há na obra do autor uma exaltação ao homem, mas não um herói corajoso com a faca na mão. São personagens capazes de entender o silêncio.

Esta edição do livro é uruguaia e foi presente do meu filho Arthur, quando da sua última viagem à Montevideo. Arthur (já escrevi em outros posts) tem uma incrível capacidade de encontrar livros excepcionais. Este é mais um dos vários que ele já "garimpou". 

Como (ainda) não existe esta edição no Brasil, faço votos de que quando forem ao Uruguai, possam adquirir o mesmo, pois vale muito a pena.

Professor Mario Mello