sexta-feira, 28 de fevereiro de 2025

O LIVRO SUA MAJESTADE CXII (112) - A LANTERNA DAS MEMÓRIAS PERDIDAS

 Um dos livros mais sagaz que já li. 

"A lanterna das memórias perdidas" da escritora japonesa Sanaka Hiiragi (1974- ) é um romance profundo e comovente a respeito do que é realmente importante na vida e do encanto de reviver uma última vez seus melhores momentos.

O livro explora temas profundos entre a vida, a morte e as lembranças que acumulamos ao longo da nossa vida. O protagonista Hirasaka, gentilmente recepciona seus visitantes, em um estúdio fotográfico, lhe oferece sua bebida preferida e revela o que os aguarda.

A narrativa centra-se em Hirasaka, que trabalha neste estúdio fotográfico peculiar, servindo como um ponto de transição entre a vida e a morte. Nesse espaço, os recém falecidos são recebidos e informados sobre sua nova condição. Lhes é dada uma caixa com fotos, para que antes de seguirem para o além, eles devem selecionar uma fotografia para cada ano de suas vidas, representando suas memórias mais significativas. 
Além disso, têm a oportunidade de revisitar um momento especial do passado para capturar uma nova imagem dessa lembrança marcante.

Pegos de surpresa os visitantes perguntam: "Eu morri?
Se este é apenas um ponto de passagem, o que vai acontecer comigo depois?
Como seria o mundo do além? A gente desaparece sem deixar rastros e se transforma em nada?

Nosso protagonista Hirasaka, recepciona três pessoas que pelo estúdio passam: uma professora de 92 anos; um membro da Yakusa de 47 anos e uma criança. Os visitantes eram sempre anunciados pelo entregador Yama, que trazia em um carrinho de mão as fotos da pessoa.

Hatsue, a professora de 92 anos, dedicou toda sua vida à educação infantil. Durante a visita ao estúdio, ela revisita o Japão do pós-guerra, uma época marcada por escassez de empregos e profundas mudanças sociais, incluindo a crescente participação das mulheres no mercado de trabalho e a redefinição das responsabilidades familiares. Através das lembranças de Hatsue, o leitor é levado a refletir sobre o papel essencial da educação e as transformações sociais ocorridas ao longo das décadas.

Waniguchi, membro da Yakusa, tinha uma loja de recicláveis para disfarçar as atividades ilícitas e custou a compreender que havia morrido e que estava na transição. Este capítulo é muito interessante, pois claramente Waniguchi com seu jeito autoritário, queria sempre um confronto com Hirasaka.

A parte um pouco triste da história é com a terceira visitante do estúdio: a menina Mitsuru. Apavorada a criança não se mexeu por um bom tempo no estúdio. Hirasaka usou toda sua habilidade para aos pouquinhos ir conquistando Mitsuru. A menina sofreu abusos do padrasto, causado-lhe um grande sofrimento. Neste capítulo aparece o traço marcante da autora, pois Hirasaka propõe à menina que escolha, entre muitas, uma máquina para sairem e tirarem fotografias.
Sanaka Hiiragi

A autora do livro, sempre foi grande apreciadora de câmeras fotográficas e da fotografia. O livro trata disso: fotografias.
 Hiiragi reflete sobre a força que as fotos carregam e nos leva a questionar o que é realmente importante na vida.

Como disse no início achei muita sagacidade neste livro, pois o processo de seleção das fotografias e a revisitação de momentos especiais proporcionam uma compreensão mais profunda da vida e das circunstâncias que a moldaram.

A transição entre a vida e a morte desperta, sempre, muito interesse em desvendar este mistério que nos acompanha desde sempre. 

O livro é genial e merece ser lido e apreciado.
"Talvez seja a última visão de uma vida inteira".

Boa leitura!

Professor Mario Mello

domingo, 23 de fevereiro de 2025

O LIVRO SUA MAJESTADE CXI (111) - AS AVENTURAS DE TINTIM


Tintim é um jovem repórter que está sempre atrás de uma importante matéria.

Icônico personagem de Hergé, Tintim não tem limites e suas histórias são cheias de aventuras emocionantes que retratam a realidade e a ficção.

Minha pequena coleção do Tintim
Georges Prosper Remi (22/05/1907-03/03/1983), escritor Belga, conhecido pelo pseudônimo Hergé, não foi apenas um desenhista excepcional, mas um verdadeiro pioneiro da narrativa gráfica. Criador de As Aventuras de Tintim, Hergé elevou os quadrinhos a um patamar literário e artístico antes impensável, influenciando gerações de escritores, ilustradores e cineastas. Sua obra, rica em detalhes, humor e crítica social, consolidou-se como um dos pilares da literatura em quadrinhos, mesclando aventura e jornalismo ficcional com uma sofisticação narrativa que transcende o gênero.

Com um olhar aguçado para a geopolítica, o humor e a cultura, Hergé criou um universo atemporal, cujos personagens e histórias continuam a dialogar com diferentes gerações. Suas Aventuras de Tintim não são apenas quadrinhos, mas verdadeiros clássicos da literatura moderna, demonstrando que imagens e palavras podem se combinar para criar algo tão rico e significativo quanto qualquer grande romance.

A importância dos quadrinhos de Hergé para a literatura vai além da criação de tramas envolventes. Ele foi o responsável por estabelecer a técnica da ligne claire, um estilo visual marcado pela clareza dos traços e pela organização impecável dos quadros, influenciando artistas como Moebius, Hugo Pratt e até mesmo diretores de cinema como Steven Spielberg. Mais do que isso, suas histórias ajudaram a consolidar os quadrinhos como uma forma legítima de expressão literária, desafiando a ideia de que apenas livros textuais poderiam ser considerados literatura.

Tenho 6 volumes das histórias de Tintim: Tintim na América; Tintim no Congo; A Orelha Lascada; O Lótus Azul; A Ilha Negra; Os Charutos do Faraó.

Em Tintim na América, Hergé satiriza o capitalismo selvagem dos anos 1930 e demonstra sua capacidade de misturar aventura e crítica social. A história, repleta de ação e humor, apresenta o jovem repórter enfrentando gangsters e a corrupção, com um olhar irônico sobre a sociedade americana da época.

O Lótus Azul marca um ponto de virada na carreira do autor. Com uma pesquisa detalhada e consultoria de Zhang Chongren, um amigo chinês de Hergé, a obra retrata a China de forma respeitosa e autêntica, fugindo dos estereótipos ocidentais. Esse álbum exibe a evolução do traço de Hergé e sua preocupação em oferecer uma narrativa historicamente precisa.





Em A Orelha Lascada, o autor introduz uma trama de mistério e conspiração envolvendo tráfico de artefatos culturais. Aqui, Hergé trabalha com um enredo mais maduro, abordando a colonização e os conflitos geopolíticos da América do Sul, além de consolidar a sagacidade investigativa de Tintim.

Já Tintim no Congo reflete um período em que a visão colonialista europeia era amplamente aceita. Apesar das críticas modernas ao seu retrato da África, é inegável a habilidade de Hergé em criar sequências dinâmicas e um senso de aventura contagiante. É um álbum que mostra o autor com um talento gráfico enorme.

Os Charutos do Faraó transporta Tintim ao Oriente Médio e à Índia, mergulhando-o em um enigma de tráfico de drogas e sociedades secretas. Aqui, Hergé demonstra sua maestria em construir tramas intrincadas, repletas de reviravoltas, além de introduzir personagens icônicos, como os detetives Dupont e Dupond.

Por fim, A Ilha Negra destaca-se pelo ritmo cinematográfico e pela belíssima ambientação na Escócia. Com perseguições emocionantes, cenários detalhados e uma intriga bem amarrada, o álbum reforça a capacidade de Hergé em criar histórias vibrantes, combinando mistério e humor.

Com um olhar aguçado para a geopolítica, o humor e a cultura, Hergé criou um universo atemporal, cujos personagens e histórias continuam a dialogar com diferentes gerações. Suas Aventuras de Tintim não são apenas quadrinhos, mas verdadeiros clássicos da literatura moderna, demonstrando que imagens e palavras podem se combinar para criar algo tão rico e significativo quanto qualquer grande romance.

Tintim e Milu



Ler histórias em quadrinhos é um privilégio que combina arte e narrativa de forma única, tornando a literatura mais acessível, dinâmica e envolvente. 

Mais do que simples entretenimento, os quadrinhos são uma poderosa forma de expressão cultural, capazes de transmitir emoções, criticar a sociedade e explorar temas profundos com uma riqueza visual inigualável. 

Seu impacto na literatura é imenso, pois ampliam as possibilidades da narrativa, cativam leitores de todas as idades e provam que grandes histórias podem ser contadas tanto com palavras quanto com imagens.






Obrigado, Tintim, por nos levar a aventuras inesquecíveis, atravessando continentes, desvendando mistérios e enfrentando perigos com coragem e inteligência. 

E obrigado, Hergé, por sua genialidade ao transformar simples páginas em mundos vivos, repletos de detalhes, humor e crítica social. Suas histórias não são apenas quadrinhos, mas verdadeiras obras-primas que continuam a inspirar gerações, provando que a arte sequencial é tão rica e impactante quanto qualquer grande literatura.

Boa leitura!

Professor Mario Mello


quinta-feira, 13 de fevereiro de 2025

O LIVRO SUA MAJESTADE CX (110) - CHARLES MAXWELL E O MISTÉRIO DA CHAPEUZINHO VERMELHO

 Você já imaginou Pinóquio, Branca de Neve e os Sete Anões, Os Três Porquinhos, Barba Azul, O Gato de Botas, Robin Hood, O Lobo Mau e Chapeuzinho Vermelho todos numa mesma história? 


Pois é assim que acontece num livro cheio de aventuras, mistérios, sonhos, enigmas, fantasias e coragem chamado "Charles Maxwell e o Mistério da Chapeuzinho Vermelho".

Do jovem autor Guilherme Corrêa Bellföx, o livro é uma viagem à Edimburgo dos anos 1936, cujos protagonistas a Irmã Madeleine Tuck e Charles Maxwell embarcam em desventuras para solucionar mistérios, entre eles, o desaparecimento de Chapeuzinho Vermelho.

A mágica de tudo isso é nos fazer imergir em um incrível mergulho no mundo dos contos de fadas, além de uma interação no contexto histórico europeu do século XX, como os males provindos da ascensão do nazismo e ideias antissemitas, mostradas em vários contextos durante a narrativa do livro.

A história começa com a notícia da condenação e morte de Robin Hood. Nossa protagonista, Irmã Madeleine, era fiel escudeira de Robin Hood e com sua morte foi transferida a uma igreja de Edimburgo. 

Porém, foi alertada pelo bispo, responsável pela transferência, que era para ter muito cuidado, pois no porão da igreja habitava um homem muito estranho: Charles Maxwell.

Irmã Madeleine e seu revólver




Disse o bispo na mensagem à Irmã Madeleine: "Devo de antemão deixar-te avisada algo que me preocupa há algum tempo. A irmã que você substituirá mencionou um homem estúrdio que vive no porão, um lunático, possível desgarrado sem fé. Tenha muito cuidado caso haja a mão do próprio diabo, neste homem."

Charles Maxwell e seu relógio
Quando a Irmã Madeleine leu a mensagem, pensou: "O temor é o princípio da sabedoria". Não demorou nenhum dia para a Irmã Madeleine e Charles Maxwell se entenderem. A irmã chegou portando um revolver calibre 45, que certamente ajudou Maxwell a respeitá-la.

Maxwell tinha um relógio antigo, herança de seu avô, com um poder mágico em que ele podia ver ações do passado para poder interferir ou não.
Inclusive no livro, em algumas situações há as opções de: SIM devo agir olhando o relógio - pule para a página xx; NÃO, continuar a história - siga nesta página. Muito criativo, por parte do autor essa tomada de decisão do leitor.

Pois bem, o cerne da história é a morte da Sra. Isadora Reiter, com ferimentos no pescoço que segundo as autoridades, ao sair da carruagem enroscou seu cachecol na porta do veículo, que saiu em disparada matando assim a Sra. Isadora. Assassinato? Acidente? 

Não fosse isso, no dia do velório, a filha da Sra. Isadora, Chapeuzinho Vermelho, desaparece misteriosamente. Assim começam as aventuras e desventuras de Charles Maxwell, Irmã Madeleine, Pinóquio e o Gato de Botas, tentando desvendar os mistérios.

No caminho aparecem, o Lobo Mau, Branca de Neve e os Sete Anões, o denominado Enigma, Josef Göth, todos atrapalhando os heróis na busca do desvendamento do mistério.

Embora a história pareça "meia maluca" (e é), ela é muito criativa com momentos realmente surpreendentes nas ações de todos personagens. Fiquei admirado com a imaginação inventiva do autor, juntando tantos personagens conhecidos, mas que nesta história representam papéis, por vezes, um pouco diferente dos contos que conhecemos.

Enfim, a história prende até o final com desfecho, de certa forma surprendente, ou seja, nada convencional. Ao final, Charles Maxwell (que se autodenomina entropista excêntrico) e a Irmã Madeleine, desvendam que o desaparecimento de Chapeuzinho Vermelho, está ligado a uma conspiração mais ampla envolvendo todos esses personagens.

Vale muito a pena esta leitura "diferentona" que mescla realidade com contos de fadas.

Um fato bem bacana, que me deixou muito contente, foi o prazer de receber da Editora Palavra & Verso, o exemplar autografado pelo autor Guilherme Corrêa Bellföx. Mui amables, gracias!!

Professor Mario Mello

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2025

O LIVRO SUA MAJESTADE CIX (109) - QUE TIPO DE CRIATURAS SOMOS NÓS?

 Que tipo de criaturas somos nós? 

Essa pergunta é feita por Noam Chomsky, escritor estadunidense em seu mais recente livro lançado no Brasil. Chomsky é um dos maiores linguistas da história e um dos mais destacados ativistas políticos.

Avram Noam Chomsky é um linguista, filósofo, sociólogo, cientista cognitivo, comentarista e ativista político norte-americano, também é uma das mais renomadas figuras no campo da filosofia analítica. 

Nascido em 1928, Chomsky propõe que a linguagem não é apenas um produto do ambiente, mas uma capacidade inata, presente em todos os seres humanos e moldada por princípios universais. Essa faculdade nos permite criar e entender infinitas sentenças a partir de elementos limitados, revelando a natureza criativa da linguagem.

Chomsky, hoje com 96 anos
No livro, a indagação de Chomsky, não obstante, remete a outras tantas perguntas, que são respondidas nos quatro capítulos do livro que contempla a polivalente personalidade de Chomsky.

O livro é uma excelente introdução às ideias centrais do autor, especialmente sua teoria da linguagem e sua visão sobre a capacidade cognitiva humana. 

A obra se inicia com uma questão aparentemente básica: “O que é a linguagem?" Não há qualquer resposta simples e pronta para essa pergunta. 

As considerações de Chomsky pisam novamente suas formulações teóricas de uma gramática universal ou uma espécie de programa mínimo de um sistema computacional de nossa língua interna natural, instalado em cada um de nós. Relembra e revê en passant pontos de sua teoria gerativa.

Chomsky argumenta que nossa mente possui restrições biológicas inatas que determinam o que podemos conhecer, um conceito influente em diversas áreas do conhecimento.

A obra transita entre filosofia, ciência e política, mantendo o rigor acadêmico e oferecendo insights valiosos sobre como entendemos a realidade. Sua abordagem transdisciplinar é um ponto forte, pois permite ao leitor enxergar conexões entre diferentes campos do saber.

É um ótimo livro, porém a linguagem densa e abstrata, requer bastante concentração para a leitura. Embora o livro seja curto, a escrita de Chomsky pode ser complexa e, por vezes, excessivamente técnica para leitores não familiarizados com filosofia da mente e linguística.

Enfim, o livro é uma reflexão profunda e instigante sobre a natureza humana e os limites do conhecimento, trazendo argumentos que desafiam tanto o cientificismo excessivo quanto as visões simplistas da mente e da linguagem. No entanto, sua abordagem pode parecer excessivamente teórica e especulativa, especialmente diante dos avanços recentes em neurociência e IA.

Apesar de sua densidade teórica, Que tipo de criaturas somos nós? é uma leitura indicada para quem deseja explorar as fronteiras do conhecimento humano e refletir sobre os limites da ciência, da linguagem e da cognição. 

Chomsky apresenta questões fundamentais que transcendem a linguística e dialogam com filosofia e neurociência, desafiando o leitor a pensar criticamente sobre a natureza da mente e nossas capacidades intelectuais.

Boa leitura!

Professor Mario Mello

PS: Este livro comprei e li por ter visto uma postagem da minha amiga Bianca Zasso, jornalista e crítica de cinema, de muita competência.
Obrigado Bianca, ótima dica.