sábado, 14 de junho de 2025

O LIVRO SUA MAJESTADE CXV (115) - RESTAURANTE AUGUSTO - HISTÓRIAS DE UMA SANTA MARIA QUE NÃO EXISTE MAIS

 Ainda me deliciando com meus presentes de aniversário deste ano de 2025. Trago aqui um livro que remete à lembranças incríveis de uma Santa Maria que não existe mais.

Presente da minha nora Grazi, o livro traz muitas histórias do extinto Restaurante Augusto que por décadas serviu de ponto de encontro de pessoas comuns e anônimas, como também recebeu personalidades nacionais e internacionais.

Certamente uma grande parcela de moradores de Santa Maria e região, ao ler este livro voltará no tempo e terá recordações incríveis de suas histórias e de outras histórias. 

O Restaurante Augusto faz parte da história de Santa Maria e quando no título do livro diz "de uma Santa Maria que não existe mais", o autor Savio Ausgusto Werlang, não só infere mas deixa explícito que muitos personagens, passagens da história de Santa Maria, se relacionam direta ou indiretamente com o Restaurante Augusto.


O Restaurante conhecido no Brasil pelo prato que representa Santa Maria, o famoso galeto com polenta e radiche, prato criado pelo Augusto na década de 60 e que sempre foi o principal do restaurante até seu fechamento.

Inaugurado em maio de 1968, pelo seu Augusto, passou a ser gerenciado pelo genro Marco Fank e pelo filho Augustinho em 1987. Em outubro de 2018, em trágico acidente de trânsito, Marco Fank faleceu. Este acontecimento foi determinante para o triste fim do Restaurante Augusto, que encerrou suas atividades em 31 de janeiro de 2019.


Os garçons do Augusto é um capítulo à parte. Um deles, Severo com mais de 30 anos de casa, foi tema de uma crônica do escritor gaúcho Carpinejar que relata que jamais imaginou encontrar um garçom feliz. Severo era assim mesmo: sempre com um sorriso no rosto. No meu caso dos mais de 40 anos frequentando o restaurante eu atendido ou pelo Alemão ou pelo Derci. Sempre um atendimento cordial e atencioso.

Outro personagem marcante foi o Luis Eduardo responsável pelo caixa e por receber os pedidos de tele-entrega por longos 26 anos. Ou seja, o restaurante Augusto era aquele lugar para encontrar as mesmas pessoas e isso o tornou por anos um ambiente único.

Sempre durante o almoço ou janta, uma figura ímpar e conhecidíssima de Santa Maria, passava entre as mesas oferecendo bilhetes de loteria. Paulo Neron Rodrigues, o Paulinho Bilheteiro era portador de nanismo o que o tornava ainda mais querido por todos.

Que saudades deste bom tempo.

Enfim, o livro é cheio de histórias que nos remetem a um passado não muito distante, porém muito saudoso. Quem viveu estes anos do Restaurante Augusto em Santa Maria, certamente tem suas histórias para contar. 

Há uma saudade boa que fica quando lembramos de um restaurante que marcou gerações ao longo de décadas. Mais do que um lugar para refeições, ele foi cenário de encontros, celebrações, conversas e memórias que atravessaram o tempo. O aroma, o ambiente acolhedor e os rostos conhecidos formaram uma experiência única, que agora vive nas lembranças de todos que tiveram o privilégio de desfrutar do Restaurante Augusto.

Boa leitura!

Professor Mario Mello

PS: Mais uma vez, obrigado Grazi Fachim pelo presente, pois me fez voltar no tempo e ter boas lembranças.


domingo, 8 de junho de 2025

O LIVRO SUA MAJESTADE CXIV (114) - LAS HORTENSIAS

 

LAS HORTENSIAS, livro escrito pelo uruguaio Felisberto Hernández (1902-1964), é um daqueles livros que deixa a gente intrigado desde as primeiras frases.

Que linda capa
Felisberto Hernández é considerado um dos maiores escritores uruguaios do século XX. Ele era, além de escritor, pianista e um notável orador, pois suas narrativas sempre despertavam muito interesse em quem o acompanhava. 

As Hortensias" narra a obsessão de Horacio pela observação de bonecas (muñecas)  chamadas Hortensias, cada vez mais parecidas com mulheres de carne e osso. Ele as expõe em vitrines e as faz personagens de histórias que inventa para elas.

O modo como o autor coloca objetos inanimados como personagens marcantes da história é algo inconfundível em sua obra.

Horacio, nosso protagonista, colecionava bonecas em sua casa, um tanto sombria, chamada de "la casa negra", com um enorme jardim com amplas vitrines de vidro, onde criava cenas para expô-las.

Horacio, casado com Maria, possuía vários empregados em "la casa negra". Alguns eram encarregados de preparar as cenas com as diversas bonecas, nas vitrines, para o prazer de Horacio.

Entre várias bonecas, existia uma preferida chamada Hortensia. Horacio dizia para sua mulher Maria, que se ela viesse a morrer ele teria consolo em Hortensia para lhe fazer companhia.

Os dois eram apaixonados por Hortensia, que tinha o tamanho de uma pessoas e se parecia muito com Maria. Maria a tratava como se fosse uma filha, porém Horacio começou a enxergar e tratar Hortensia de uma forma diferente, causando ciúmes e atritos com sua esposa Maria.

Horacio um belo dia chamou Facundo (o fabricante das muñecas) e pediu a ele que fizesse alguma coisa para que Hortensia tivesse calor humano. Facundo, então, arrumou um jeito de que se colocasse água quente dentro da boneca a pele dela ficava ainda mais parecida com a pela humana. E assim, se sucederam outras loucuras de Horacio.

Um belo dia Horacio encontra Hortensia apunhalada por uma faca soltando o líquido interno. O desespero bateu e as intrigas com Maria aumentavam. Facundo foi chamado novamente para dar "nova vida" à Hortensia.

Felisberto Hernández

Cansada, um pouco pelo abandono de Horacio e pelo ciúmes das bonecas, Maria o abandona. Pensando que Horacio iria atrás dela, não foi o que aconteceu.

Horacio cada vez mais obcecado pelas muñecas, se atrapalhava em sua vida pessoal.

O trecho a seguir dá um "spoiler", porém sem contar obviamente, o final da história: 

“Maria podía ser, como antes, una mujer sin muñeca; pero ahora él no podía admitir la idea de María sin Hortensia; aquella resignación de toda la casa y de María ante el vacío de la muñeca, tenía algo de locura. 
Además, María iba de un lado para otro del dormitorio y parecía que en esos momentos no pensaba en Hortensia; y en la cara de María se veía la inocencia de un loco que se ha olvidado de vestirse y anda desnudo.”

Enfim é um livro muito inteligente de um autor, talvez, pouco valorizado na América Latina. 

Vale muito a leitura!!!

Professor Mario Mello


PS1: A leitura em espanhol faz parte de um dos meus desafios propostos para 2025. Já é o terceiro livro, em espanhol, lido em 2025. Estamos indo bem!

PS2: Este livro ganhei como presente de aniversário do meu filho Arthur e da Grazi, direto da Livraria "Mas puro verso" de Montevidéu. Gracias Arthur e Grazi.