Ler poesia é uma experiência incrível, capaz de ampliar nossa visão de mundo e conectar-nos com diferentes culturas, emoções e perspectivas.
Os versos, cuidadosamente escritos, têm o poder de nos transportar para outras realidades e alimentar a alma.
Meu último post de 2024 é muito especial.
Trata-se de um livro ganho da minha filha Laura, que recentemente esteve em Portugal e o trouxe de presente para mim.
O livro chama-se "Poetas de Lisboa" e foi comprado na Livraria Bertrand, em Lisboa, que segundo eles é a livraria mais antiga do mundo.
Inclusive, os livros lá comprados ganham um carimbo na primeira página, alusivo a este título.
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| Carimbo da Livraria Bertrand |
É uma edição bilingue (português/espanhol) muito bonita com gravuras dos cinco poetas que o livro traz.
Desde os célebres Luis de Camões e Fernando Pessoa, acompanhados de alguns heterônimos deste último, se unem outros três poetas amplamente admirados no mundo de língua portuguesa: Cesário Verde, Mário de Sá Carneiro e Florbela Espanca.
Você já leu Camões? Pois é, o livro começa com este que é uma das maiores figuras da literatura ocidental. São dez poesias deste incrível poeta. Trago uma de suas poesias:
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| Luís de Camões (1524 - 1580) |
"O amor é fogo que arde sem se ver,
É ferida que dói e não se sente,
É um contentamento descontente,
É dor que desatina sem doer.
É um não querer mais que bem querer,
É um andar solitário entre a gente,
É nunca contentar-se de contente,
É um cuidar que ganha em se perder.
É querer estar preso por vontade,
É servir a quem vence o vencedor,
É ter com quem nos mata lealdade.
Mas como causar pode seu favor
Nos corações humano amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?"
O segundo poeta do livro é Cesário Verde. Mestre de Fernando Pessoa, é considerado o fundador da Poesia Modernista em Portugal. Morreu muito jovem, com apenas 31 anos. Leiam um trecho de uma de suas poesias chamada "Impossível":
"Nós podemos viver alegremente,
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| Cesário Verde (1855-1886) |
Sem que venham, com fórmulas legais,
Unir as nossas mãos, eternamente,
As mãos sacerdotais.
Eu posso ver os ombros teus desnudos,
Palpá-los, contemplar-lhes a brancura,
E até beijar teus olhos tão ramudos,
Cor de azeitona escura.
Eu posso dar-te tudo, tudo,
Dar-te a vida, o calor, dar-te cognac
Hinos de amor, vestidos de veludo,
E botas de duraque.
Posso ser teu amigo até à morte,
Sumamente amigo! Mas por lei,
Ligar a minha sorte à tua sorte,
Eu nunca poderei!
Eu posso amar-te como o Dante amou,
Seguir-te sempre como a luz ao raio,
Mas ir, contigo, à igreja, isso não vou,
Lá nessa é que eu não caio!"
Seguimos com Mário de Sá Carneiro. Fundador da Revista Orpheu, que marca a introdução do movimento modernista em Portugal, também morreu muito jovem, com apenas 25 anos. A sua poesia, quase que autobiográfica denotava uma especie de depressão que somada à dificuldades financeiras, infelizmente o levaram ao suicídio. Vejam um trecho da poesia chamada "Dispersão":
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| Mário de Sá Carneiro (1890-1916) |
"Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto,,
E hoje, quando me sinto,
É com saudades de mim.
Para mim é sempre ontem,
Não tenho amanhã nem hoje:
O tempo que aos outros foge
Cai sobre mim feito ontem.
As minhas grandes saudades
São do que nunca enlacei.
Ai, como eu tenho saudades
Dos sonhos que não sonhei!
E tenho pena de mim,
Pobre menino ideal...
Que me faltou afinal?
Um elo? Um rastro?... Ai de mim!..."
As próximas poesias do livro são de Florbela Espanca. Também da geração da Revista Orpheu, Sua poesia desfrutou de uma popularidade duradoura, alcançando um amplo público e influenciando a obra de vários autores, músicos e cantores. Infelizmente, como Mário de Sá Carneiro, de quem foi contemporânea, também suicidou-se, exatamente no dia de seu aniversário de 36 anos. Leiam "Os versos que te fiz":
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| Florbela Espanca (1894-1930) |
"Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer!
São talhados em mármore Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.
Têm dolências de veludos caros,
São como seda pálidas a arder...
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer!
Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda...
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz!
Amo-te tanto! E nunca te beijei...
E nesse beijo, Amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!"
Para fechar o livro com chave de ouro, nada mais nada menos que Fernando Pessoa. Um dos mais relevantes escritores portugueses é um dos maiores poetas da era moderna. Também pertenceu a geração da Revista Orpheu que introduziu o movimento modernista português. Fernando Pessoa criou três heterônimos: Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos, cada um com sua própria personalidade.
Fernando Pessoa imortalizou-se por uma de suas frases na poesia chamada "Mar Português":
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| Fernando Pessoa (1888-1935) |
"Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena."
Uma das poesias do livro é "Autopsicografia":
"O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm,
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama o coração."
Assim, neste fantástico livro "Poetas de Lisboa", ao folhear suas páginas, encontramos não apenas palavras, mas também sentimentos, histórias e verdades universais que ressoam em nossas próprias vivências.
Ler poesia é, portanto, um ato de descobrimento e contemplação, que nos enriquece intelectualmente e nos eleva espiritualmente. Além disso, a poesia nos ensina a apreciar a beleza das palavras e a profundidade dos significados, cultivando nossa sensibilidade e criatividade.
Boa leitura e que venha 2025!
Professor Mario Mello
Obrigado Laura Zago de Mello e Rodrigo Martins pelo belo presente.
Este livro estará na galeria dos meus preferidos. 😍